Mário Ruivo deixou-nos fisicamente neste início de 2017 e assim perdemos para o nosso convívio este Homem a quem Portugal e o Mundo devem a dedicação à causa dos oceanos, mas também aos valores da liberdade, da democracia e da participação dos cidadãos.
O Professor Doutor Mário Ruivo foi Presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS) desde a sua constituição.
O CNADS foi criado no governo liderado pelo Eng.º António Guterres em que a Prof Doutora Elisa Ferreira era a responsável pela tutela do Ambiente através do decreto-lei n.º 221/97, de 20 de Agosto, instalado na simbólica Casa do Ambiente e do Cidadão edifício recuperado pelo então Instituto de Promoção Ambiental e tendo iniciado o seu exercício em Abril de 1998 como “ órgão nacional independente com funções consultivas, que proporciona a participação de sensibilidades das várias forças sociais, culturais e económicas na procura de consensos alargados relativamente às políticas de ambiente e de desenvolvimento sustentável…que congrega quer interesses institucionais, quer dimanados da sociedade civil, a quem compete por sua iniciativa ou por solicitação dos membros do Governo responsáveis pela área do ambiente, de entidades públicas ou de organizações de defesa do ambiente, emitir pareceres e recomendações sobre questões relativas ao ambiente e ao desenvolvimento sustentável”.
A personalidade deste biólogo, especialista em oceanografia, segundo nota oficial do CNADS, “garantiu um equilíbrio ímpar no seu funcionamento e nas posições que esse órgão foi assumindo ao longo de quase vinte anos de atividade. A sua intervenção direta garantiu que tenha prevalecido nesse Conselho um ambiente de exigência científica e de convergência multidisciplinar, o que permitiu que usufruísse de uma capacidade singular de acompanhamento crítico das iniciativas públicas e privadas com impacte no ambiente e no território”.
A mesma comunicação refere que Mário Ruivo foi “personalidade ilustre, profundamente empenhado na ciência, na valorização do conhecimento, no desenvolvimento, com particular incidência na problemática dos oceanos. Aliou esse percurso a um compromisso com causas públicas, as quais estiveram sempre presentes ao longo da sua vida, desde o final dos anos 40 do século passado.
Mário Ruivo desenvolveu desde jovem intensa atividade política sendo ativista em diversos movimentos antifascistas que lutavam contra a ditadura.
Licenciou-se em Biologia na Universidade de Lisboa e foi obrigado a exilar-se tendo obtido o seu doutoramento em Oceanografia Biológica e Gestão dos Recursos Vivos na Universidade de Sorbonne em Paris.
A sua ação foi pioneira na oceanografia, na defesa dos oceanos e nos ideais das temáticas ambientais e da sustentabilidade em Portugal.
Integrou os quadros da FAO-Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura como diretor da Divisão de Recursos Aquáticos e do Ambiente do Departamento de Pescas da (1961-74) em Roma até ao 25 de abril de 1974.
Esteve ligado ao fomento da investigação científica e a iniciativas públicas com impacte internacional (Comissão Intergovernamental da UNESCO, Coordenador do Relatório “O Oceano, O Nosso Futuro”, Conselheiro Científico da Expo 98 “Os oceanos, um património para o futuro”).
A breve nota emitida pelo CNADS refere ainda que “Mário Ruivo expressou, até ao momento em que nos deixou, uma permanente apetência e uma extraordinária e clara visão para intervir e fomentar o desenvolvimento de iniciativas estratégicas em domínios diversos da vida social e científica, com particular incidência na sua paixão de sempre: Os Oceanos.
Personalidade com uma visão global do mundo que nos rodeia, dedicou toda a sua vida a inquietar o conhecimento, a fomentar a investigação científica, a intervir na gestão pública, a mobilizar capacidades, a defender inovações e a criar ambientes propícios que abrissem caminhos para um desenvolvimento harmonioso, sempre ancorado na preservação dos recursos ambientais”.
Regressado ao País participou no arranque do nosso regime democrático como membro dos Governos provisórios nas tutelas com os assuntos do Mar e também como Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Relembro com muita honra o seu testemunho na apresentação do livro “Ambiente, Ciência e Cidadãos” produzido em coautoria com Rui Brito Fonseca, Maria Adília Lopes e Lia Vasconcelos em que chamou a atenção para “a degradação do nosso planeta atingir todos os compartimentos ambientais, o que torna imperativa uma nova cultura de convivência entre a humanidade e a natureza” e nos brindou com um estímulo à continuidade referindo-se ao nosso modesto trabalho como “um livro militante”.
Neste tempo, em que o ambiente entrou numa dinâmica de contraciclo pelas circunstâncias difíceis, em que os valores da economia, das finanças e da intolerância nuns impelem num retrocesso civilizacional, o impacte da perda de referências desta dimensão tornam-se mais relevantes.
É neste contexto que a nossa consciência e a nossa intervenção têm de ser mais intensas em homenagem a pessoas como Mário Ruivo em defesa do nosso planeta e da nossa civilização.
