O debate sobre o programa do Governo “geringonça” que decorre desde ontem na Assembleia da República permitiu, desde já, acabar com alguns mitos que os partidos de esquerda, e de extrema esquerda, propagandearam na campanha eleitoral e ao longo dos últimos 4 anos. Ontem, de uma assentada apenas, Mário Centeno ceifou todo um discurso que alimentou o PS, BE e PCP sobre o papel do Estado na regulação do setor financeiro.
Numa resposta dada a Mariana Mortágua, Centeno, o novo Ministro das Finanças, disse apenas aquilo que as pessoas de bom senso disseram ao longo do último ano: cabe ao Banco de Portugal e ao BCE intervir na gestão dos bancos privados, não cabe ao governo. Ao seu lado, Pedro Nuno Santos, António Costa, Augusto Santos Silva e Carlos César engoliram em seco. Afinal a nova estrela do seu governo tinha acabado de enterrar toda a argumentação da esquerda, que havia criticado a não intervenção do Governo PSD/CDS no BES, ao longo dos últimos anos. Engoliram em seco e nem pestanejaram.
Um pouco antes já António Costa tinha rejeitado, numa resposta à sua nova colega Catarina Martins, todo o discurso da esquerda, PS incluído, de eliminar todos os falsos recibos verdes. Todos sabemos que tal é impossível, mas em campanha vale tudo. Costa apenas assumiu um maior empenho no combate aos falsos recibos verdes. E bem.
Mas Centeno também se ceifou, ceifou as suas mais antigas convicções, ceifou as suas teses como académico e foi ceifado na sua proposta de programa inicial. Centeno ceifou e foi ceifado porque os seus colegas do PS, do BE e do PCP ceifaram todas as suas propostas do programa de governo do PS, eliminaram as novidades, as verdadeiras inovações e o que havia de liberal, no fundo, tudo o que havia de Centeno.
Mesmo assim aceitou a sua “cadeira de sonho”.
Quando confrontado com as teses académicas que publicou, que alertavam para os perigos da subida do salário mínimo e com caras consequências no aumento do desemprego, Mário Centeno responde com a pérola do dia: “é errado trazer para a atividade política e tentar verter para a legislação o que está nos meus artigos científicos.” Pergunto eu, quer isto dizer que a sua obra científica não tem valor na realidade, não se aplica? Então qual a diferença entre a sua obra científica e um romance? Sobre rigor científico estamos falados, sobre romances já estamos habituados, só desejo que o país não se transforme numa tragicomédia.
Mas a cereja em cima do bolo, e talvez o mais revoltante, foi a desvalorização da saída limpa de Portugal, da saída da Troika e do fim da bancarrota. Apetece perguntar ao novo governo: prefere o PS governar agora, sem Troika, sem memorando, com a economia a crescer, com o desemprego a baixar? Ou preferia governar como estávamos em 2011?
Pois.

Portugal em 2011 estava bem melhor do que actualmente. Tivessemos nessa altura as actuais condições da economia internacional: BCE a desempenhar o seu papel, petróleo ao preço da chuva e um euro competitivo, e uma oposição responsável, e não estariamos agora com os cordelinhos das empresas estratégicas entregues a chineses e angolanos, os bancos falidos, uma parte considerável da população jovem, qualificada e fértil noutras paragens e a dívida pública 60 mil milhões acima do que estava. Acho a cassete da bancarrota uma simplificação grosseira e uma figura de retórica chocha.