A fazer precisamente um ano da iniciativa “Histórias de Mação: Um ciclo de conversas”, dinamizadas pelo Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, eis que se ouve falar de gente com largos anos de vida, alguns já falecidos, mas cujas memórias ficaram guardadas devido a um gosto muito específico de Vera Dias António. Conversadora por natureza, admitiu que adora conversar com gente mais antiga e escrever. Daqui, surgiu o trabalho de recolha de testemunhos que eterniza as memórias da vida das pessoas residentes em Mação e que se cruzam com a evolução da vila.
Segundo Vera Dias António, tudo começou em 2012, quando no desempenho do seu trabalho na Câmara acompanhou o investigador que fez a Carta Gastronómica de Mação. “E eu andei com ele dois ou três meses para entrevistar pessoas para recolher as receitas”, mas a certa altura algo lhe despertou a atenção.
Quando o acompanhava apercebia-se que as pessoas tinham sempre muitas histórias para contar, “e é óbvio que ele tinha que cortar porque queria só saber dos comeres, mas havia sempre coisas que as pessoas queriam contar, e contar, e contar… e ali não era o espaço”, explicou.
“Como gosto imenso de conversar e de escrever, fui-me dedicando a recolher alguns testemunhos das pessoas que têm já muitas histórias e muitas memórias para contar, e nalgumas dessas histórias encontram-se estes fragmentos de Mação, deste Mação mais antigo de há 50/60/70 anos atrás que eu não conheci, e que gosto imenso de descobrir porque nos faz até perceber como é que chegámos ao Mação de hoje”, justificou a também socióloga, que adora conversar com as pessoas antigas, e chegou a criar um blogue chamado ouvirdizer – Conversas com Gente cheia do Verbo Ser.

Alguns dos testemunhos dessa recolha pertencem a pessoas que acompanharam a evolução de Mação. Desde a aventura de Teresa, ou Teresinha, que era regente escolar, ganhava um pouco menos que as professoras, na década de 50, e deu aulas em Rosmaninhal, Castelo, Queixoperra e Amêndoa, sendo que em Amêndoa chegou naquela altura a alugar casa para lá ficar durante a semana. Mudando-se a certa altura para as Casas da Ribeira, onde ficara a dar aulas, deixou para memória a dificuldade em manter aquecimento do primeiro andar com poucas condições onde funcionava a escola com mapas das colónias nas paredes. Usava-se o forno comunitário para aquecimento, havia um forno comunitário que todos os dias era acendido para as famílias fazerem pão, e todos os dias as pessoas traziam umas brasas para a regente e os seus meninos aquecerem as mãos (pelo menos).
Também a história de Zé Costa foi contada nesta tarde. Quando a banda saía iam a pé com o padre e o sacristão e ao sair da vila tocavam uma arruada e as pessoas vinham ao encontro deles para saber onde era a festa, mas a melhor parte era o fim do dia. Quando voltavam, chegados à vila, era lançado um foguete pelo sacristão que assim anunciava a chegada da banda e o final da festa. A certa altura trauteou-se uma quadra do Padre Marujo: “Tim Ba Da Lim,/ Tim Ba Da Lão,/ O Senhor Vigário vai à Festa,/ Acompanhado de um Sacristão”.
A Dona Neves, que aos 38 anos conseguiu arranjar trabalho no hospital, 4 horas por semana, e que dizia que “as amarguras fazem-nos ficar mais inteligentes”, tendo enviado uma carta com tudo o que lhe ia na alma ao então presidente da República Ramalho Eanes mostrando desespero em querer trabalhar. Tempos depois, e com direito a resposta da Presidência da República, a Dona Neves conseguiu entrar diretamente para o quadro do Hospital por ordem do próprio Ramalho Eanes. Reformou-se contra a sua vontade.

Nesta tarde, muito também se falou no Manuel Latoeiro, no senhor Emanuel e no senhor Sotana que além de ter trabalhado na Câmara, produzia o famoso Vinho da Chave Dourada de Mação, na dona Cremilda e na dona Elisa, que foi professora entre 1945 e 1991, no senhor António, barbeiro e cuja cadeira terá cerca de 70 anos, que ainda existe desde que fora comprada na Calçada da Boa Hora.
Em jeito de conclusão, Vera Dias António confessou existiram dois responsáveis por ter iniciado este trabalho de recolha, sendo a dona Belmira, do Monte Penedo, uma delas; vendia tremoços à porta da missa ao domingo e vendia o açúcar que comprava, dividido em papelinhos, às vizinhas. E o senhor Manuel, do Castelo, de onde surgiram histórias como o facto de as pessoas temerem consumir açúcar amarelo por acharem ser feito com ossos de burro e ainda o curioso caso de Manuel que só provou ovos estrelados chegado à tropa, porque os ovos que havia em casa eram para venda.
Questionada sobre a hipótese de aglomerar todos os testemunhos já recolhidos numa publicação, Vera reconheceu que os trabalhos podem vir a ser compilados e resultar num livro. “Há um desafio de uma editora para este ano com as histórias já recolhidas”, admitiu.
Por agora, este ciclo de conversas no Museu terminou, mas adiantou Sara Cura, coordenadora do Museu Municipal, que “já estamos a pensar numa outra iniciativa, terá moldes diferentes, vai requerer mais alguma preparação, mas sempre a pensar na história de Mação e nas pessoas de Mação e feito para a população do concelho”, referiu.
