O animal de raça brava que provocou o acidente no início desta semana ainda estava no local na manhã desta quarta-feira, dia 7 de março. Foto: mediotejo.net

O caso de bovinos de raça brava à solta na localidade de Penhascoso continua por resolver, tendo já elevado a perigosidade da situação e aguardando-se o apuramento de responsabilidades e ação das entidades competentes. Na noite de segunda-feira, dia 5 de março, pouco depois da meia noite, ocorreu um acidente de viação aparatoso na estrada que liga Penhascoso a Queixoperra, e que destruiu um veículo por embate num desses animais provocando a sua morte, tendo o condutor seguido ligeiramente magoado para o hospital. Outro acidente havia ocorrido em fevereiro, causando igualmente danos no veículo.

Passaram cerca de dois meses desde que o alerta fora dado pelos populares, pelo presidente da União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira, e pela Câmara Municipal de Mação, bem como pelo veterinário municipal Fernando Monteiro. Foram feitas inúmeras queixas, enviadas ao Ministério Público, e a situação arrasta-se até hoje, estando a tomar proporções de risco para quem se desloque nas imediações da localidade de Penhascoso, dentro ou fora da via pública.

Hugo Correia, de Abrantes, diz ter apanhado “um grande susto” esta segunda-feira, dia 5, à noite, quando se deslocava de Sardoal para Mação. “Mesmo à chegada de Penhascoso, embati num touro que estava a passar a estrada, numa zona onde não há iluminação pública, chovia muito e a visibilidade era mesmo muito pouca… E um animal da cor do alcatrão, no meio da via… não tive qualquer hipótese”, contou.

Foto: DR

O lesado referiu ter apresentado queixa na GNR e ter-se deslocado ao hospital nessa noite, uma vez que se encontra o próprio magoado pelo impacto do embate. Já o carro está “bastante danificado”. A questão que se coloca é saber quem assume a responsabilidade pelos danos causados?

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Ao mediotejo.net o queixoso referiu ter tentado inúmeras vezes contactar a proprietária dos animais mas sem sucesso, sendo que já conseguiu falar à proprietária na tarde desta quinta-feira, dia 7 de março, referindo esta estar disponível para reunir. No entanto, sabe o nosso jornal que a lesada que seguia noutro veículo também danificado por embate num bovino, e que seguia na estrada entre Penhascoso e Aboboreira, não teve mais resposta após contactos com a ganadeira, estando decidida a apresentar queixa às autoridades.

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Manuela Maurício, residente em Concavada, seguia no seu veículo após ter deixado o filho em casa de uma amiga na localidade de Aboboreira, cerca das 19h40, quando foi surpreendida com a passagem de animais, atravessando a estrada, resultando numa colisão.

“Foi no dia 12 de fevereiro, antes do Carnaval, fui levar o meu filho à Aboboreira, cerca das 19h40, já estava de noite na volta, estava escuro porque só há iluminação dentro da localidade, e de repente vi uma vaca passar a estrada, travei, e outra vaca apareceu atrás daquela e embateu no meu veículo, já não consegui desviar-me dela”, contou Manuela, notando ter ainda um braço dorido.

Com receio que mais vacas aparecessem e que pudessem pôr em risco a sua vida, a condutora seguiu até à entrada da localidade com o veículo amolgado e espelho partido, tendo parado no cruzamento no sentido de Carregueira, e contactado o marido e populares para perceber o que se passaria com o gado à solta. Só regressou ao local com a GNR, que tomou conta da ocorrência.

Após contacto com a ganadeira proprietária dos animais a monte, Manuela Maurício afirma que esta não fora cooperante. “De maneira nenhuma. Nessa noite [do acidente] ligámos e questionámos se sabia que as vacas estavam à solta, ela disse que sim. E dissemos que uma das vacas tinha colidido no meu veículo e que precisávamos saber se tinha seguro da exploração, ou das vacas, e a resposta era ‘Sim, sim, sim’, nunca perguntou se eu estaria bem ou mal, se era muito ou pouco. Nunca se preocupou com nada”, salientou, indignada.

Na estrada que liga Penhascoso a Aboboreira, e que passa junto da propriedade, foi entretanto colocada sinalização de perigo pela autarquia. Foto: mediotejo.net

Desde então, a resposta tornou-se irregular. “A partir daí a resposta foi sempre diferente. Nomeadamente que o seguro já não cobria aquilo, e depois dizia que ia ter connosco ao Penhascoso para ver o que tinha acontecido à carrinha e pôr a arranjar, não veio. Até hoje, nada”, terminou, referindo estar a reunir dados para apresentar queixa às autoridades.

O nosso jornal entrou em contacto com a proprietária dos animais, Rita Vaz Monteiro, mas até ao momento não obtivemos resposta ou comentário sobre os últimos desenvolvimentos.

Recorde-se que, em declarações ao mediotejo.net a 2 de março, a ganadeira garantiu recolher os animais durante “os próximos dias” com recurso a anestesia. Tal facto, como se comprova, não sucedeu.

Para quando um desfecho e a quem compete atuar?

Durante a manhã de quarta-feira, dia 7, deslocámo-nos a Penhascoso para confirmar se a recolha dos bovinos já fora efetuada ou não, e reunimos com o presidente da União de Freguesias, José Fernando Martins.

Após visita na localidade, e identificação do local da exploração e dos troços de estrada onde já o próprio autarca havia parado “três ou quatro vezes” para deixar a manada atravessar à noite, deparamo-nos com um animal morto à beira da estrada que segue para Queixoperra, sentido Mação-Sardoal.

José Fernando Martins mostrou-se estupefacto e indignado por não ter sido ainda levantado o animal, tendo já passado mais de 24 horas desde a ocorrência. Para o presidente de junta o assunto já deveria ter sido resolvido por quem de direito, penalizando os donos dos animais que não cumprem a lei.

O animal de raça brava que provocou o acidente no início desta semana ainda estava no local na manhã desta quarta-feira, dia 7 de março. Foto: mediotejo.net

O autarca mostrou-se ainda preocupado com a deslocalização dos animais, que agora assombram a estrada entre Penhascoso e Queixoperra, “uma estrada muito movimentada, onde passa muita gente de Mação que vai para Sardoal, é uma estrada de grande movimento”, frisou.

“Inicialmente o grupo de vacas andaria na estrada que liga Penhascoso a Aboboreira, que foi sinalizada pela Câmara. Isto é uma situação nova, numa zona nova para onde se deslocalizaram e o que é certa é que ocorreu aqui um acidente e ainda temos ali os restos de viatura destruída e temos o animal morto”, referiu, notando, cerca das 11h00, não perceber porque ainda ali estaria por levantar.

“Fico pasmado, indignado, com esta situação. Pergunto o que é que as autoridades estão a fazer, o que é o animal faz aqui…”, disse, referindo intenção de questionar o Comando da GNR de Mação sobre o assunto.

“O problema aqui tem parecido que é uma questão de competências, ninguém tem competência, toda a gente tem competência… Quem eu sei que não tem competência nesta matéria é a União de Freguesias, e aquilo que fizemos de início foi alertar as autoridades para ver se a situação era resolvida e o gado recolhido. Temos alertado as populações do perigo que têm aqui”.

Entrada da propriedade de onde os animais fugiram, em Penhascoso, e que pertence a Rita Vaz Monteiro, responsável pela Ganadaria Vaz Monteiro, uma das mais antigas em Portugal. Foto: mediotejo.net

Insistiu ainda que se trata de “um perigo para as populações, e quando da parte da GNR me dizem que o que podem fazer é levantar autos quando atravessam a via pública, eu entendo que a GNR existe para garantir a segurança das pessoas e, portanto, o animal que ande à solta, mesmo não estando na estrada a qualquer altura cria perigo”,  ressalvou, indicando que o perigo também existe fora das vias.

“É gado bravo, as pessoas têm as suas propriedades, atualmente os madeireiros andam a fazer corte de árvores e a qualquer momento podem ser atacados por estes animais. As pessoas sentem-se ameaçadas e indignadas, e acham que isto já devia ter fim, mas parece que ninguém consegue pôr fim a isto”, terminou.

Da parte da Câmara Municipal, o presidente Vasco Estrela referiu: “além dos anteriores contactos feitos com o Tribunal e com a Direção Geral de Veterinária, ontem entrei em contacto com o diretor-geral da DGAV, dando-lhe conta do que se estava a passar, que uma vez mais se mostrou preocupado. Ao fim da tarde ligou-me a indicar que na sexta-feira que vem [9 de março] já virá cá a DGAV e a GNR para avaliar a situação e para começarem a tratar do assunto, no sentido de levar daqui as vacas ou eliminar aquelas que tiverem de ser eliminadas. Esta é a informação que tenho”, aludiu.

Por outro lado, Fernando Monteiro, veterinário municipal da CM Mação, confirmou que o animal morto fora recolhido durante a tarde de quarta-feira pelo Sistema de Recolha de Cadáveres de Animais Mortos na Exploração (SIRCA), a pedido seu, substituindo-se à proprietária que não se encontra no concelho e a quem caberia essa responsabilidade de pedido para recolha do cadáver.

As vacas em causa são de raça brava para lide/toureio, sendo agressivas por natureza e elevando a perigosidade ao deambularem desgovernadas pela localidades, indica Fernando Monteiro, veterinário municipal da CM Mação. Foto: Ganadaria Vaz Monteiro

O veterinário municipal frisa que os animais foram colocados em Penhascoso ilegalmente, “sem guias de trânsito, sem licenças” e as vacas são de raça brava “para lide”, fugiram “partindo as vedações da exploração que é pequena”, estando há quase dois meses à solta. “Ainda não atacaram ninguém por sorte, porque se trata de uma raça agressiva”, sublinhou.

Para Fernando Monteiro, que afirma ter pedido ajuda a todas as entidades possíveis, até que fora decidido que é responsabilidade da DGAV, que notificou a proprietária ainda que com dificuldade. “Disseram-me que brevemente vão tentar apanhá-las ou terão de ser abatidas”, notou, referindo que ainda não tem confirmação da data para a vinda das ditas entidades.

“Aguardamos há quase dois meses que nos resolvam a situação, que é completamente surrealista”, e a Câmara Municipal não pode atuar diretamente para a solução.

DGAV avança com medidas para captura dos animais

A informação foi confirmada na última sexta-feira pelo veterinário municipal da CM Mação, Fernando Monteiro, sendo que já estiveram no local as entidades responsáveis para avaliar a situação de perto. Também foi publicado edital, em vigor desde dia 6, pelo Diretor Geral de Alimentação e Veterinária, que pretende regulamentar a operação, cujo início se deu oficialmente a 8 de março. A DGAV solicitou colaboração da GNR e da Câmara Municipal para o efeito.

Segundo pode ler-se no documento a que o mediotejo.net teve acesso, as medidas a serem tomadas prevêem “acantonamento, transporte [para uma exploração pecuária registada] ou occisão de emergência dos animais da espécie bovina que se encontrem assilvestrados” , entre as localidades de Aboboreira, Penhascoso e Queixoperra, reconhecendo a DGAV que os animais que vagueiam por aquela área “alguns sem qualquer tipo de identificação ou controlo e outros identificados” representam “grave perigo para a saúde pública e animal, bem como para a segurança das pessoas e bens daquela zona”.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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1 Comment

  1. são vacas ou Leões ? pois os meios propostos para a captura, e o palavreado usado, são mais para selva Africana– sim há irresponsabilidade da ganadeira ,até demais ! mas pintar todos como anjinhos, como as vacas saltassem para a estrada como cangurus , e estivessem interessadas em comer humanos ao pequeno almoço . — por experiência , quando atravesso gado , ou o tenho já perto das bermas a maioria dos condutores além de ir depressa , nem abranda . ” anjinhos com asas só no céu” . sim tenho pena, pelos pobres animais , como são o elo mais fraco, vão ser as vitimas ,da histeria / incompetência / negligencia dos humanos
    Eu sei muito bem o que são vacas

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