Foto: mediotejo.net

O Movimento Pelo Interior (MPI) passou por Mação na sexta-feira à tarde para a realização da 3ª das cinco Conferências que a organização se propôs a realizar. A sessão, muito participada pelo público, vindo não só do concelho, mas de regiões vizinhas, discutiu os desafios que se impõem perante a desertificação do interior do país. Propostas e medidas foram debatidas, pois conforme referiu Álvaro Amaro, líder do MPI, apesar de não existirem “soluções mágicas” o interior “não é um território condenado (…) continua a ter homens e mulheres. São é cada vez menos e nós queremos que sejam cada vez mais”, sublinhou.

A primeira intervenção foi de Vasco Estrela, presidente da CM Mação. O autarca, que ao longo dos anos tem sido muito crítico e alertado para a perda crescente de população no interior do país, referiu que “este é provavelmente o problema mais grave que o país tem para enfrentar nos próximos anos. Ninguém tem dúvidas de que o Interior do país vai ser um território deserto”.

“Temos todos de ficar bem cientes de que caminhamos de forma dramática e assustadora para esse tempo”, frisou o autarca, acrescentando que “este é um desígnio que não depende da vontade política deste presidente, do outro e daquele presidente… Todos, enquanto nação, enquanto país, temos de perceber que todos devemos dar o nosso contributo para alterar este estado de coisas”.

Foto: mediotejo.net

Ainda assim, Vasco Estrela reconheceu que “qualquer decisão, motivação que venha a ser tomada, custa dinheiro, implica recursos e implica uma coisa que faz parte do dia-a-dia na política: decisões e coragem. Veremos se os nossos políticos têm essa coragem”, disse, terminando a sua intervenção na conferência do Movimento Pelo Interior.

O autarca deixou ainda propostas, como “isenções efetivas do IRC” para as empresas, “minoração dos IRS para os cidadãos aqui viverem”, “redução dos custos relacionados com a saúde, quer em taxas moderadoras, quer nos medicamentos”, “apoios efetivos para as refeições escolares das famílias aqui residentes”, “incentivos à contratação de cidadãos destes municípios através da baixa da TSU, para que as empresas se possam fixar e possam contratar pessoas”, “reforço efetivo para as empresas que invistam na produção a partir do uso de produtos endógenos, com valor acrescentado”, “reforço das parcerias das Universidades e dos Institutos Politécnicos com as empresas locais, para acrescentar valor àquilo que aqui é produzido”, “acompanhamento mais próximo aos empresários locais”, “diversificação e valorização da paisagem do mundo rural, da nossa floresta, das nossas paisagens, dos nossos rios e ribeiras”, “tentativa clara de vender estes territórios no exterior, com o apoio do IAPMEI e do AICEP (…) para ajudar a levar estes territórios aos quatro cantos do mundo”.

Por fim, o autarca disse que “o(s) governo(s) devem perceber que investimentos públicos podem ser feitos nestes territórios, para que sejam efetivas alavancas para os mesmos”, e que investimentos “podem ser aqui criados que possam ajudar e motivar outro tipo de projetos que sejam complementares a esses mesmos investimentos”.

Vasco Estrela fez um balanço positivo da iniciativa e falou-nos sobre as medidas propostas para este “desígnio nacional” de combate à desertificação do interior do país.

Por seu turno, Luís Braga da Cruz, ex-Ministro de Economia, saudou na pessoa de Álvaro Amaro, autarca da Guarda, o Movimento Pelo Interior, referindo que se trata de “um ato de coragem política” e que obriga a refletir sobre os problemas do Interior.

“É muito importante que as questões básicas destes problemas, desde a competitividade, a sustentabilidade – nomeadamente a sustentabilidade ambiental -, as questões sociais, de governação, têm oportunidade, porque há sensibilidade para isso, para serem todas reequacionadas. As questões do Interior são questões de emprego, independentemente de ser em mundo rural”, frisou o também docente.

Luís Braga da Cruz, ex-Ministro da Economia. Foto: mediotejo.net

“Se nós tivéssemos a preocupação de identificar quais são as áreas-problemas, provavelmente não podem ser todas as do país, e fazer esforço de racionalizar e pensar como se deve proceder, e depois é um processo competitivo. O que tiver melhor equação é aquele que merece ser apoiado em primeiro lugar”, referiu, defendendo o  regresso da “política integrada de base territorial”, onde se pode “ir muito longe e alguns problemas podem ser bem resolvidos”.

Salomé Rafael, presidente da NERSANT – Associação Empresarial de Santarém, também oradora no painel desta terceira conferência, notou que, a par do despovoamento, “há falta de investimento em empresas produtivas”, o que por sua vez tem levado à falta de emprego.

Para a responsável é necessário ter em conta a diminuição “dos custos de contexto para atrair empresas” e por conseguinte “atrair pessoas para o Interior”, para aí se fixarem com as suas famílias.

Salomé Rafael defendeu subscrever as medidas apresentados por Miguel Cadilhe, afirmando que as medidas não podem ser meramente “cosméticas como têm sido” e “têm de se fazer sentir”.

Passou a indicar concordar com as propostas de “redução nas portagens”e “isenção do IRC para as empresas”, tendo defendido a criação de “condições para estas empresas terem uma razão para não ficarem no litoral e se fixarem no interior e, em simultâneo, criar emprego”.

Para Salomé Rafael estas medidas passam também por criar parcerias entre autarquias, empresas, instituições de ensino,(…), defendendo ainda que deverá ser criada “uma plataforma regional que una diferentes atores conhecedores do território” em nome do progresso do mesmo.

Salomé Rafael, presidente da NERSANT. Foto: mediotejo.net

A presidente da NERSANT referiu ainda que além da baixa de impostos e dos incentivos, deve ter-se em conta a “previsibilidade fiscal, muito importante quando se faz um plano de negócios para qualquer empresa e que realmente Portugal tem o hábito de não cumprir (…) quando se faz um plano de negócios tem de se saber à partida com aquilo que se conta”, falando-se de medidas a serem aplicadas durante 10-12 anos, levando à captação efetiva de investimento.

Defendeu ainda que os apoios e incentivos ao turismo diverso, agricultura e pecuária devem permanecer.

Salomé Rafael referiu ainda a necessidade urgente de “trazer mais técnicos para a região”, aliando o saber e a investigação no seio das empresas, cooperando com as universidades, institutos politécnicos, ensino técnico profissional e centros tecnológicos “para que possam responder com rapidez, sendo a investigação escola-empresa e seja empresa-escola (…). Nós temos de ter a capacidade e solicitar aos Ministérios que nos possam apoiar para esta mudança, porque ninguém vem para um determinado local se não conseguir alguma mão-de-obra qualificada, e que se vá qualificando, nos locais”.

Foto: mediotejo.net

A sessão foi muito dinâmica, com muita participação no final, com abertura da intervenção do público, que atropelou a moderação da jornalista e diretora de informação da Renascença, Graça Franco, que não teve mãos a medir perante as várias intervenções dos cidadãos.

Por fim, Álvaro Amaro, um dos fundadores deste Movimento Pelo Interior referiu que ali estaria com a sua equipa “tomando notas” do que fosse surgindo em discussão, tendo no final da sessão admitido ao mediotejo.net que esta foi das sessões mais participadas até ao momento.

O também presidente da CM Guarda fez um balanço sobre a iniciativa e explicou a planificação e missão deste Movimento Pelo Interior (MPI).

Álvaro Amaro referiu que, no seio do MPI, pretende-se a estimulação de “medidas radicais” que possam trazer “gradualmente o equilíbrio ao país”, contornando fenómeno da centralização no litoral e valorizando o território do interior.

O autarca diz ter esperança que o estado das coisas se venha a alterar, tendo ressalvado que, no entanto, só “o futuro o dirá”.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Deixe um comentário

Leave a Reply