* Reportagem originalmente publicada em agosto de 2018 e atualizada a 20 de dezembro de 2023.
Há mais de 30 anos que Agostinho Godinho, 63 anos, artesão de mão cheia, se dedica a tempo inteiro a um ofício onde imperam as cores alegres, a imaginação, a alegria. Até nos atrevemos dizer que faz da vida um autêntica brincadeira, porque das suas mãos nascem todos os dias novos brinquedos à moda antiga, em madeira, trabalhados com rigor e afinco e muito apreciados nos dias que correm. A fama persegue-o, e há até quem o procure para conseguir colecionar peças suas ou personalizá-las.
Recebe-nos junto do portão grande, onde se encontra um azulejo oferecido por um conhecido, que logo denuncia alguns dos brinquedos feitos por si, que são a sua imagem de marca.
Explica que este gosto vem de longe. E que o conciliava com a silvicultura, mas agora… “a floresta está toda mascarrada. E conciliamos com um bocadito de agricultura só para nós”.
Ainda assim, recorda que desde “muito pequeno”, do tempo da escola primária, que fazia pequenas peças de madeira. O saber trabalhar e moldar a madeira “foi-se adquirindo com o tempo” e aprendeu a fazê-lo “por experiência, por curiosidade”.
Conta-nos a esposa Maria de Lurdes, companheira de todas as horas, e que já conhecia o marido na escola primária, que este já se entretinha “a brincar com a madeira. De qualquer bocadinho, com um canivete” saía alguma coisa. “Nunca dizia, nem hoje diz por mais que a gente tente saber, o que sai daquela peça nova, se não depois de estar feita”, remata.
Chegou a fazer centenas de exposições em feiras, mostras e festas um pouco por todo o país, de norte a sul, levando as suas obras de artesanato. “Mas agora faz-se um pouco menos”, até porque “os filhos já estão orientados e nós já estamos a ficar com outra idade”, assume, acrescentando a esposa que para relaxar “tem de se largar isto e ir até à horta ou dar uma volta, porque isto também cansa… Estar a pintar 4 horas seguidas, a cortar ou a lixar… não é fácil”.
Mas, numa era tomada pela tecnologia, pelos videojogos, tablets e smartphones… Ainda há espaço e interesse para os brinquedos em madeira? A verdade é que ainda há quem se renda aos encantos destes brinquedos, conta-nos Agostinho, que logo admite que se assim não fosse, não continuaria com este seu ofício.
Ao que parece, muitas vezes esse gosto por este tipo de objetos é incutido pelos mais graúdos, que ao mostrarem os brinquedos, puxam pela curiosidade dos mais novos, que acabam por fazer juras de amor a uma peça ou outra, e os pais lá fazem a vontade. Os aviões continuam a ser a peça com mais saída, e há até quem os adquira para decoração ou coleção.
“Os aviões saem muito, pela forma e pelo tamanho, e normalmente ajudam a compor os espaços, até os nossos nas feiras”, explicou Agostinho, indicando que os posiciona suspensos, à sua volta. Mas, facto é, que as vendas variam consoante os locais e mediante a publicidade da clientela mais jovem, um fator determinante.

“Se eu vender uma ou duas peças, e a criança começar a brincar com elas no meio do público, as outras crianças vão querer igual. Por vezes, basta sair uma ou duas peças, de uma determinada cor ou forma, para que os outros já queiram a mesma coisa”, vai explicando.
Ainda em Ponte de Sor, nas festas da cidade, Agostinho recorda que cerca de nove ou dez brinquedos, nomeadamente os que têm cabo para empurrar e rodinhas, possibilitando que a criança faça o brinquedo rodar em determinados movimentos, foram vendidos dessa forma, tendo as crianças ajudado na demonstração.
“Tem uma influência grande. E também depende da forma como expomos. Se quisermos mostrar mais uma determinada peça, vai ser essa que chama a atenção. Se noutro lado quisermos chamar a atenção para outro brinquedo, provavelmente já será o que terá mais saída. Vai também da maneira como trabalhamos no espaço e com o público”, justifica.
Quanto à quantidade de brinquedos e à diversidade das peças, basta entrar na oficina de Agostinho para perceber que há inspiração de sobra. Isso, e brio na organização e arrumação de ferramentas, madeira preparada para trabalhar e tintas.
“As ideias muitas vezes surgem no momento. Antes de começar a trabalhar a madeira muitas vezes já sei o projeto que quero seguir, idealizo a peça acabada. E mesmo que depois vá fazendo pequenos ajustes, normalmente consigo prever a forma”, atira, determinado, ciente das suas capacidades e desta sua paixão.
Exemplo desta sua metodologia está também na forma como consegue reutilizar as mesmas peças, dos mesmos moldes, noutros brinquedos, completamente distintos uns dos outros. Por exemplo, as patas das marionetas fazem-se das mesmas peças que servem de copos noutro tipo de jogo onde se deverá acertar com uma pequena bola.
Mete-se ali, calca-se além, vaza-se noutra parte, e o certo é que tudo fica nos conformes, com a mesma peça a ser utilizada ao contrário e noutro brinquedo, e as pessoas nem se aperceberão disso.

E às vezes corre mal? “Também (risos), por vezes tem de se ir corrigindo os tamanhos e medidas. Está a ver aquele brinquedo ali, o articulado e grande? Andei umas quatro horas a desenhá-lo e depois mais um dia e tal só a corrigir as suas peças. Pois tem de ter medidas corretas, caso contrário, não funciona” e logo nos explica colocando o brinquedo a rolar e por sua vez um boneco a pedalar, num movimento concertado e harmonioso.
Caso para se dizer, custou mas foi. Mas há dias em que, se correr mal, “amanhã pega-se nessa, ou quando apetecer, e entretanto trabalha-se noutra”, até porque, como diz Lurdes, “não se tem de dar satisfação ao patrão”.
O bichinho da brincadeira
O casal, que incutiu nos filhos a importância do artesanato e o gosto por trabalhar a madeira, também já passou o bichinho ao neto João, que aos 4 anos já puxava do martelito de madeira feito pelo avô, e perguntando alguém o que estaria a fazer, respondia muito depressa “estou a arranjar!”.
Tem autorização para entrar neste mundo dos avós, e até “fica muito zangado quando alguma coisa se estraga. Mas o pai… era um estragador de primeira!”, conta-nos Maria de Lurdes, afirmando que o antigo quarto do filho está cheio de brinquedos em madeira, mas depressa aponta para uma prateleira na oficina, anexa à habitação, onde estão tantas outras peças feitas pelo filho. Mas este nunca quis tirar nenhum curso nesta área, nem seguir os passos do pai.
A esposa, também começou nestas andanças “por influência”, e também já não passa sem fazer o gostinho à madeira. Mas diz-nos que tudo começou com o apoio na pintura das peças. “Agora também já vou mexendo e também já tenho a minha madeira preferida”, determina, notando que deste casamento feliz entre mãos, madeira e arte, surgem muitas obras feitas em comum “conforme o tempo e conforme a vida dá”.

O certo é que há brinquedos de todos os tamanhos, formas e feitios, para “vários consumos”, pormenoriza Agostinho Godinho, indicando que há o cuidado de explicar às pessoas e dar a sua sugestão conforme a idade da criança em questão.
Quanto aos preços, o artesão garante que consegue ter preços mais em conta do que certas lojas e superfícies comerciais, inclusive “peças parecidas”, e logo recorda uma peça para bebés, um caracol desmontável e com rodas trabalhadas, que aos anos se vende muito mais caro numa determinada marca.
Já a durabilidade dos brinquedos “depende do utilizador” e é um fator que conta muito. “Sabemos de pessoas que têm brinquedos há 4 ou 5 anos e hoje os miúdos ainda brincam com eles, e há outros que ao fim de 4 ou 5 minutos já os estragaram”, caso de um rapaz que, num dos brinquedos que se empurra com o cabo e vai rolando, fazendo o efeito de um engraçado pato a caminhar, logo após o ter comprado começou a dar-lhe mau uso e a bater com ele no chão, quebrando-o.
Agostinho, incapaz de ver um brinquedo feito por si a não funcionar corretamente, logo o recolheu para, sem nada cobrar, o consertar e devolver. Ainda assim, afirma decidido que, muitas vezes, até acaba por dar outro brinquedo e ficar com o danificado. Pois não há nada como receber de volta um sorriso e saber que, de alguma forma, está a contribuir para criar uma memória de infância que perdure até à idade adulta, e quem sabe, dure até ao resto da vida.
“Isto também dá um gostinho. Quando, 18 anos após a venda de certos brinquedos, ficamos a saber que estes continuam na posse da outrora criança e que estão bem guardados e cuidados, chegando a passar de geração, para os filhos e sobrinhos”, assinalou Maria de Lurdes.
Ou então, como daquela vez em que, numa certa feira ao faltar a luz, só se ouviam soar os piões vendidos por si e que entretinham as crianças e pais até voltar tudo à normalidade, banda sonora que com certeza fez muitas pessoas recuar no tempo, trazendo as recordações das suas infâncias onde o pião era brinquedo-rei.
Entre os milhares e milhares de visitantes nas exposições, Agostinho diz ser difícil decorar quem lhe compra peças. Escapam os clientes de Mação ou pessoas suas conhecidas, mas ainda assim “é difícil”.
A dicotomia entre o vagar para trabalhar a madeira e a correria da venda
No que diz respeito à matéria-prima, Agostinho é fã de acabamentos perfeitos, sem quinas e imperfeições, cumprindo as regras para que a ASAE não implique com determinados modelos ou tamanhos de peças, passando em vistorias-surpresa nas exposições que frequentam pelo país, tanto na região como na Pampilhosa da Serra, Oleiros, Marinha Grande, etc.
Assume desde logo que consegue diferenciar cada tipo de madeira “pelo cheiro”, pois já são muitos anos a tratar a madeira por tu. Aproveita os seus conhecimentos da silvicultura para escolher a madeira ideal para as suas produções artesanais, sendo que só usa para manuseamento madeira preparada e cortada há mais de um ano “para estar bem seca”.
Note-se que é Agostinho e a esposa que intervêm em todo o processo, desde o corte, transporte, serração e preparação para a secagem de ano para ano.
Mas há um rol de condições externas que condicionam este trabalho, entre eles as condições atmosféricas, se é verão ou inverno, e obviamente os incêndios florestais.
Dos incêndios de 2017 no concelho de Mação, onde a floresta foi brutalmente varrida pelas chamas, também a exploração do casal foi devastada. Foram-se cerca de 25 hectares, “muita coisa, muita coisa…”, suspira Agostinho, ainda assim otimista por ter conseguido resgatar a tempo “madeira de pinho suficiente para trabalhar”.
E não é por falta de eucaliptos e pinheiros que o ofício fica impedido. Hoje já aproveita desde amieiros, salgueiros e árvores de fruto “que umas pessoas vendem, outras dão, outras que são nossas; nós aproveitamos tudo o que dá e chegam a ser madeiras mais fáceis de trabalhar e bonitas”, diz-nos, passando a mão numa tábua de amieiro, já lixada e macia, mas cujo calor deixou marcas no interior do tronco, e por isso, a madeira não fica com cor uniforme.
Ainda assim, Agostinho sente-lhe a beleza. Pior, segundo o mestre, é quando a madeira tem bicho e quando as árvores secam, “aí, já não dá mesmo para aproveitar”, conclui.

Na oficina de Agostinho também já há peças dignas de museu, que fazem parte de toda esta sua história. Algumas únicas, que crê não voltar a fazer, dos tempos em que se iniciou nestas lides, onde nem sequer as pintava. “Eram mais estatuetas ou peças tradicionais, caso das cadeirinhas pequeninas, os mochos, canetas, …”, lembra.
Uma imensidão e diversidade de trabalhos, que os próprios autores até se esquecem do que já fizeram, ainda que assalte a memória os milhares de canetas vendidos por ano, em feiras e exposições, “ainda no tempo dos escudos”.
Agostinho já sabe como fazer “a trouxa”, a cada viagem, definindo as centenas de exemplares que leva consigo para cada exposição. Peças grandes, caso dos aviões, vão em menor quantidade. As mais pequenas e as marionetas e violas costumam ir por terminar, pois os acabamentos são concluídos ao vivo, uma forma de afirmar a genuinidade do negócio e também atrair os clientes à banca.
Se estiverem em certames perto de casa, “vai-se repondo os brinquedos à medida que seja preciso”. Mas, ponto assente, é que se um determinado modelo acabar naquele dia “acabou, acabou, escolhe-se outra peça”. E há muito por onde escolher.
Há de tudo: jogos de paciência, piões, violas decoradas, aviões, carros, marionetas, bonecos com ou sem rodas, com cabo para empurrar ou com cordel para puxar, estáticos ou em movimento… Há brinquedos para todos os gostos. E não é só junto do público mais jovem que os brinquedos de Agostinho fazem furor. Gente adulta e crescida continua a procurar as suas peças para colecionar, caso de uma senhora à beira dos 80 anos, que há uns tempos, em Alcobaça, levou uns quantos para poder mostrar a quem a visitava na sua casa.

O facto de estar sempre a trabalhar enquanto está nas exposições desperta os mais curiosos, nomeadamente professores, que o artesão e a sua esposa já conseguem distinguir entre o restante público, pois ficam ali, admirados, tentando perceber os mecanismos e a montagem, nomeadamente dos mais elaborados brinquedos, como as marionetas.
A cada regresso, marca-se novo ponto de partida para terminar peças, imaginar novas, criar, experimentar, montar… Por isso, a criação não fica por aqui.
A qualquer momento Agostinho e Maria de Lurdes podem apetrechar outros brinquedos, inventar formas ou mecanismos, socorrendo-se do gigante esquema de moldes exposto ao lado do portão e que ajudam a compor cada peça. É a sua base de trabalho, ali reside o segredo, ali está tudo o que lhe enche as medidas. Um ajuste aqui, outro acolá, e que nunca lhe falhe a imaginação e a criatividade.
O certo é que Agostinho nem sequer pensa na reforma e, enquanto assim for, nem madeira, nem brinquedos hão-de faltar. Na oficina do mestre Agostinho, à semelhança de uma certa personagem de uma muito conhecida história de encantar, há sempre espaço para mais um brinquedo na prateleira e, acima de tudo, para brincar.

















Como é que fora das Feiras consigo comprar artigos ao Sr. Agostinho ?
tive ideias para oferecer pelo Natal e não sei como contactar o Sr.
Boa tarde.
Na ligação abaixo consegue aceder ao contacto do sr. Agostinho e esposa, para que possam esclarecê-lo sobre o que pergunta.
https://rotasdemacao.pt/pt/conhecer/o-que-levar/agostinho-godinho-brinquedos/
Cordiais cumprimentos,
Joana Rita Santos