A arte rupestre, o património, as coleções arqueológicas, as peças falsas e a importância didática da manipulação de peças “sem contexto arqueológico” foram alguns dos temas hoje em destaque nas XIII Jornadas Ibero-Americanas de Arqueologia e Património, que decorrem em Mação até terça-feira, dia 28 de março.

O Museu de Arte Pré-Histórica de Mação é o local de encontro deste seminário internacional que reúne dezenas de arqueólogos, antropólogos e especialistas da América do Sul, Portugal, Itália e Espanha, entre outros, para partilharem os seus estudos e experiências científicas, tendo o dia de hoje sido dedicado à temática de “Coleções Arqueológicas sem contexto arqueológico: importância e casos de estudos””, com comunicações de manhã, e uma mesa redonda de tarde sob a temática ” Importância didática da manipulação de peças sem contexto”, referiu ao mediotejo.net Sara Cura, coordenadora geral das Jornadas. (ver video)

Davide Delfino abriu as Jornadas Iberoamericanas de Arqueologia e Património e falou sobre as “Ilusões, surpresas e valorização de uma coleção privada de arte antiga”, abordando o caso da Coleção Estrada.

“A Coleção ‘Estrada’, que conta com mais de 5.000 peças recolhidas ao longo de 30 anos por parte do seu proprietário, foi alvo de catalogação, avaliação e estudos de pormenores por parte de uma equipa de arqueólogos, finalizando a integração desta coleção no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (M.I.A.A.), em Abrantes, em conjunto com a coleção de arqueologia da Câmara Municipal de Abrantes.

Davide Delfino abriu as Jornadas Iberoamericanas de Arqueologia e Património e falou sobre as “Ilusões, surpresas e valorização de uma coleção privada de arte antiga”, abordando o caso da Coleção Estrada. Foto: mediotejo.net

“Apesar de ter encontrado vários tipos de peças falsas, a Coleção revelou alguns acervos de peças autênticas, que ajudariam o M.I.A.A. a integrar a coleção de arqueologia municipal num percurso museológico completo sobre as civilizações pré-clássicas, clássicas e pós-clássicas. Além disso, as peças falsas de qualidade serão úteis para criar uma sala didática dedicada ao gosto das cópias de peças antigas no séc. XX.”, clássicas e pós-clássicas”, defendeu o especialista.

Depois da intervenção do italiano Davide Delfino, foi a vez de falar o jurista brasileiro Henrique Mourão, sobre as “antiguidades com proveniência desconhecida”.

“As normas da UNESCO, que ambicionam ser de caráter moral e universal, têm como características a generalidade, as contradições e as crenças, em alguns casos ingénuas. Mesmo diante de inúmeros dilemas, os propósitos originais dos Tratados da entidade vêm sendo defendidos pela Comunidade Internacional com a convicção de que o crescimento do comércio de objetos oriundos de escavações sem controlo científico estaria na ineficácia do sistema legal que permite a impunidade.

Sara Cura, coordenadora geral das Jornadas, o jurista brasileiro Henrique Mourão, e David Delfino (da esqª para a dirtª). Foto: mediotejo.net

 

A solução ainda mais aceite é o recrudescimento dos esforços no combate ao comércio ilegal de bens culturais (que seria conexo ao tráfico de armas, de drogas e de lavagem de dinheiro), com a certeza de que as leis podem impedir o acesso das pessoas aos objetos. Uma sociedade em que ninguém consegue vender os objetos, ninguém consegue comprar – elimina-se, assim, o saque dos sítios de interesse para a arqueologia”, defendeu o jurista brasileiro.

Luís Raposo, presidente da Aliança Europeia do Conselho Internacional dos Museus (ICOM Europa), esteve, por sua vez, em Mação, para falar sobre “Arqueologia, museus e contextos”.

“A Arqueologia é uma ciência de contextos, por oposição ao antiquarismo, um saber de objetos. Os museus de arqueologia, sendo de arqueologia, devem ser ‘museus de contextos’. Mas os museus, no sentido tradicional do termo, são antes de tudo ‘coleções de objetos’, que neles se reinventam. Sem contextos, porque os não possuem ou porque intencionalmente se omitem, os objetos arqueológicos transfiguram-se – e assim se transfiguram os museus que neles assentam as suas narrativas.

Luís Raposo, presidente da Aliança Europeia do Conselho Internacional dos Museus (ICOM Europa), esteve em Mação, para falar sobre “Arqueologia, museus e contextos”. Foto: DR

Esta transfiguração não significa necessariamente perda de capacidade interpelante – antes pelo contrário em certos sentidos. E sendo assim ela não é boa nem má e pode constituir o suporte de discursos de racionalização do mundo, traduzíveis em programas museológicos”, referiu Luís Raposo.

A manhã de terça-feira, dia 28, é dedicada à Arte Rupestre. À tarde terão lugar conferências de Arqueologia e Património.

A organização está a cargo do Museu de Arte Pré-Histórica de Mação, Instituto Terra e Memória e Câmara Municipal de Mação, em parceria com o Centro de Geociência da Universidade de Coimbra, Instituto Politécnico de Tomar e entidades sul-americanas (UNESC, Espaço Arqueologia, Documento Arqueologia, UFSM e LEPAARQ) e espanholas (ACINEP).

Investigadores mundiais debatem património e coleções arqueológicas em Mação. Foto: mediotejo.net

 

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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