Mação homenageou "Ti Fontes", o mestre que construiu mais de 300 barcos e preservou a memória do Tejo. Foto: mediotejo.net

A sala do Núcleo Museológico de Ortiga esteve completamente cheia na sexta-feira, 26 de junho, para homenagear Manuel Pires Fontes, conhecido por “Ti Fontes”, o último construtor de barcos picareto da freguesia ribeirinha e uma das figuras maiores da cultura ligada ao rio Tejo.

Pescador, mestre calafate e carpinteiro naval, Manuel Fontes dedicou praticamente toda a vida ao rio, aprendendo a arte da construção de embarcações com o pai e construindo, ao longo de décadas, mais de 300 barcos picareto, embarcações tradicionais adaptadas às características do Tejo naquela zona do concelho de Mação. Falecido em janeiro de 2017, aos 90 anos, continua hoje a ser uma referência maior da identidade ribeirinha de Ortiga.

A homenagem integrou a exposição “Tejo Acima – Memórias Antigas”, promovida pela Confraria Ibérica do Tejo e patente na Galeria Carlos Saramago, no Centro Cultural de Mação, tendo ficado igualmente marcada pela apresentação do caderno cultural n.º 71 da AIDIA, da autoria de João Serrano, intitulado “O construtor de barcos picaretos – Memórias de Mestre Fontes”, construído a partir de entrevistas realizadas ao longo dos últimos anos e enriquecido com fotografias do álbum da família.

Na abertura da sessão, o diretor do Museu de Mação, Luís Oosterbeek, considerou que Manuel Fontes representa “o que é a construção cultural de um país”.

“A construção cultural de um país não é feita apenas por aqueles que têm um caminho. É feita por aqueles que constroem caminhos”, afirmou, sublinhando que o mestre de Ortiga pertence precisamente a esse grupo de pessoas que deixam marca para além da sua geração.

O professor, investigador e arqueólogo aproveitou ainda para lançar um desafio à população, apelando a que o Núcleo Museológico seja um espaço vivido pela comunidade. “Não olhem para isto como um sítio reservado para não ser usado. Usem-no, por favor”, pediu.

Na intervenção que se seguiu, o presidente da Câmara Municipal de Mação, José Fernando Martins, recordou a convivência que manteve com Manuel Fontes e salientou que a homenagem representa um reconhecimento coletivo de quem “deixou uma marca na comunidade, no concelho e, essencialmente, na comunidade ortiguense”.

O autarca explicou que a iniciativa nasceu durante uma reunião realizada há alguns meses com a Confraria Ibérica do Tejo, inicialmente destinada a preparar o Cruzeiro Ibérico do Tejo, da qual acabariam por surgir também a exposição e o livro agora apresentados.

Lendo o prefácio que escreveu para a obra, José Fernando Martins traçou um retrato de Manuel Fontes como um homem cuja vida se confunde com a própria história de Ortiga.

“Há homens que passam pela vida e há homens que ficam nela para sempre. Manuel Pires Fontes pertence a esse raro grupo de homens que se confundem com a própria identidade da terra onde nasceram, viveram e trabalharam.”

Ao longo do texto, descreveu o homenageado como um artesão cuja importância ultrapassou largamente a construção naval.

“Dizia que tinha construído mais de três centenas de barcos. Mas a verdade é que construiu muito mais do que isso. Construiu identidade, construiu património, construiu história.”

O presidente da Câmara destacou ainda que recordar figuras como Ti Fontes constitui “um ato de resistência cultural” num tempo em que “tudo parece rápido, descartável e efémero”, defendendo a preservação dos saberes tradicionais para as gerações futuras. Presente na sessão, Cidalina Fontes, filha do homenageado, não escondia o orgulho e satisfação, tendo agradecido o momento proporcionado.

Ao usar da palavra, João Serrano, presidente da Confraria Ibérica do Tejo e autor do livro, enquadrou a publicação num projeto iniciado há cerca de onze anos dedicado à recolha de testemunhos de homens e mulheres que marcaram as comunidades ribeirinhas.

Segundo explicou, já foram editadas 71 obras e existem cerca de três dezenas em preparação.

“O objetivo é trazer até às comunidades as memórias e as vivências daqueles que durante a sua vida deixaram uma marca inestimável”, afirmou, considerando tratar-se de “um projeto identitário, um projeto de memórias”.

João Serrano explicou ainda que o livro foi construído em linguagem acessível, procurando chegar também aos leitores menos habituados à leitura, e divide-se em duas partes: uma narrativa construída a partir das entrevistas realizadas a Manuel Fontes e um conjunto de fotografias provenientes do álbum da família.

Antes de terminar, deixou um apelo para que nunca se perca a memória da identidade local. “Nunca mais se esqueça isto: esta é uma terra de pescadores.”

Investigador da cultura ribeirinha ligada ao Tejo, João Filipe, por sua vez, recordou a participação de Manuel Fontes, em março de 2014, numa sessão realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, dedicada às “Memórias de Fragateiros”, onde o mestre ortiguense explicou, perante antigos fragateiros, carpinteiros navais e especialistas, as técnicas tradicionais de construção dos barcos picareto.

Segundo recordou, a qualidade técnica das explicações impressionou a audiência, que debateu com Manuel Fontes os processos construtivos utilizados ao longo de décadas de experiência.

Num momento mais pessoal, João Filipe recordou também que o homenageado preferia ser tratado simplesmente por “Ti Fontes” pelas pessoas da terra, uma forma de proximidade que, disse, traduzia bem a relação que mantinha com a comunidade.

A intervenção mais técnica coube ao almirante José Bastos Saldanha, presidente da Associação Marinha do Tejo, que enquadrou Manuel Fontes no património náutico português e defendeu que a homenagem pretende “elevar o homem e a sua condição numa paisagem maior, poliédrica e estruturante como é a do Tejo”.

Foi também ele quem recordou o primeiro contacto com o mestre ortiguense, precisamente na sessão das “Memórias de Fragateiros”, em 2014, onde Manuel Fontes foi o primeiro carpinteiro naval e calafate convidado a testemunhar sobre os saberes tradicionais do Tejo.

Segundo explicou, ao longo da vida o mestre foi aperfeiçoando tecnicamente a construção dos barcos picareto, introduzindo alterações que melhoravam a resistência e a funcionalidade das embarcações.

Mas aquilo que mais impressionava os especialistas era o método de trabalho.

“O projeto estava na sua cabeça, sem desenhos, baseado num esquema mental consolidado pela prática”, afirmou, acrescentando que, por isso mesmo, “não havia duas embarcações iguais”, já que cada barco beneficiava da experiência adquirida na construção do anterior.

O almirante destacou igualmente a preocupação permanente de Manuel Fontes em ouvir os pescadores sobre o comportamento das embarcações que construía, procurando aperfeiçoar continuamente o seu trabalho, atitude que considerou reveladora de um elevado sentido ético e profissional.

Na parte final da intervenção, enquadrou ainda o ofício dos carpinteiros navais na história marítima portuguesa, lembrando que foram homens como eles que asseguraram a construção e manutenção das embarcações que tornaram possível a expansão marítima portuguesa, inserindo assim Manuel Fontes numa tradição secular de mestres construtores.

Mação homenageou “Ti Fontes”, o mestre que construiu mais de 300 barcos e preservou a memória do Tejo. Foto: mediotejo.net

Nascido em Ortiga em fevereiro de 1926, Manuel Fontes dedicou toda a vida ao Tejo. Além de pescador profissional, tornou-se o último mestre da construção tradicional dos barcos picareto, embarcação durante séculos utilizada na pesca, no transporte de pessoas e mercadorias e na ligação entre as margens do rio.

Após a sua morte, em 2017, o seu legado passou a ocupar lugar central na preservação da memória local. Inaugurado em 2020, o Núcleo Museológico de Ortiga tem precisamente o barco picareto e a obra de Manuel Fontes como elementos centrais da sua narrativa expositiva.

A importância desta embarcação tradicional acabaria também por ser reconhecida a nível nacional quando o picareto de Ortiga venceu a final distrital das 7 Maravilhas da Cultura Popular, distinção que ajudou a projetar o património cultural ligado ao Tejo e o trabalho desenvolvido pelo mestre ortiguense.

A homenagem promovida pelo Município de Mação procurou precisamente perpetuar essa memória.

Como resumiu José Fernando Martins, Manuel Fontes “construiu muito mais do que barcos”: deixou uma herança de conhecimento, identidade e cultura que continua hoje a navegar nas águas da memória coletiva de Ortiga e do Tejo.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Deixe um comentário

Leave a Reply