Ti Manuel Fontes em Ortiga (Mação) a construir um barco picareto. Foto arquivo: Sérgio Durão

O Núcleo Museológico de Ortiga, no concelho de Mação, recebe na próxima sexta-feira, 26 de junho, uma homenagem a Manuel Pires Fontes, conhecido como “Ti Fontes”, o último construtor de barcos picareto da freguesia ribeirinha de Ortiga e uma das figuras mais marcantes da cultura ligada ao rio Tejo.

A iniciativa, agendada para as 17h00, pretende recordar o homem, o pescador, o mestre calafate e guardião de um saber ancestral associado à construção do picareto, embarcação tradicional utilizada durante séculos na pesca e transporte fluvial no Tejo. Durante a cerimónia será também apresentado um novo caderno cultural dedicado à sua vida e obra, construído a partir de entrevistas e recolhas documentais realizadas ao longo dos anos.

A homenagem surge integrada na exposição “Tejo Acima – Memórias Antigas”, promovida pela Confraria Ibérica do Tejo, patente na Galeria Carlos Saramago, no Centro Cultural de Mação, até 30 de junho.

Nascido em Ortiga em 1926, Manuel Fontes dedicou praticamente toda a vida ao rio. Pescador e calafate, aprendeu a arte da construção naval com o pai e viria a tornar-se o último mestre desta tradição secular, construindo ao longo da vida mais de 300 barcos picareto, embarcações adaptadas às características do Tejo naquela zona do concelho de Mação.

Reconhecido pelo profundo conhecimento da construção tradicional destas embarcações, Manuel Fontes foi convidado, em 2014, para participar numa sessão na Sociedade de Geografia de Lisboa dedicada às “Memórias de Fragateiros”, onde explicou os processos construtivos do picareto e a sua relação com o rio. O seu testemunho foi então destacado pelo rigor técnico e pela capacidade de transmitir um saber acumulado ao longo de décadas.

Mação homenageia Manuel Fontes, o último construtor de picaretos de Ortiga. Foto: DR

Figura incontornável da identidade ribeirinha de Ortiga, Ti Fontes tornou-se também um símbolo da memória do Tejo. Em entrevista ao mediotejo.net, em 2016, descrevia o rio como “mais do que meu pai”, recordando os tempos em que a pesca sustentava dezenas de famílias da aldeia.

Após a sua morte, em janeiro de 2017, aos 90 anos, o legado do mestre calafate passou a ocupar lugar central na preservação da memória local. O Núcleo Museológico de Ortiga, inaugurado em 2020 na antiga escola primária da freguesia, tem precisamente o barco picareto e a obra de Manuel Fontes como elementos centrais da sua narrativa expositiva.

A importância patrimonial desta embarcação tradicional foi igualmente reconhecida a nível nacional quando o picareto de Ortiga venceu a final distrital das 7 Maravilhas da Cultura Popular, distinção que ajudou a projetar o património ligado ao Tejo e ao trabalho desenvolvido por Manuel Fontes.

Barco picareto está ligado umbilicalmente à história da aldeia ribeirinha de Ortiga, em Mação, aos seus calafates e pescadores. Foto arquivo: Sérgio Durão

Na nota enviada à comunicação social, o presidente da Câmara Municipal de Mação, José Fernando Martins, convida a população a associar-se à homenagem, considerando Manuel Fontes uma “importante figura da história e identidade local”.

A sessão pretende, assim, celebrar não apenas a memória de um homem, mas também um património cultural que marcou gerações de pescadores e continua a fazer parte da identidade de Ortiga e do concelho de Mação.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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