“Foi medonho”. A frase descreve o estado de alma de quem esteve prestes a perder o seu lar, o seu porto de abrigo. “As chamas atingiram dois a três metros de altura. Estava muito calor e havia gente a correr para cima e para baixo. Nem nem demos conta das horas a passar”, conta José Manuel Alves Martins, habitante da pequena aldeia de Vales, freguesia de Cardigos, Mação, que na manhã de segunda-feira, 24 de julho, ainda era fustigada por alguns reacendimentos. O cheiro a queimado era intenso e o fumo teimava em sair de troncos de um lado e do outro da estrada.

Casa de habitação nos Vales foi consumida pelas chamas, tendo os seus habitantes que ser realojados temporariamente na Santa Casa da Misericórdia Foto: mediotejo.net

A seu lado, a esposa Maria Manuela molha com uma mangueira os resquícios do que era uma camada de lenha que deveria servir para acender a lareira. São horas de almoço e ainda não foram à cama. O fogo, contam, começou por volta das 17 horas de domingo, com as chamas num vermelho vivo a circundarem a sua habitação. “Só pensámos em proteger a nossa casa e apagar o nosso fogo. Não nos queriam deixar passar mas saltamos o portão do quintal para esticar as mangueiras”, recordam ao mediotejo.net.

José Manuel Alves Martins, habitante da pequena aldeia de Vales, freguesia de Cardigos viu o fogo destruir os anexos da sua habitação Foto: mediotejo.net

Apesar da casa de habitação ter ficado intacta – a parede principal chegou a ser lambida pelas labaredas –  todo o anexo onde se encontrava a churrasqueira ficou destruído, tal como a máquina de debulhar azeitona. “Ainda não estamos em nós”, referem. Apesar de tudo, tiveram mais sorte do que os vizinhos, um casal na casa dos sessenta, que viu a sua casa arder por completo. Eram cerca de 21 horas quando o pior aconteceu. Foram realojados na Santa Casa da Misericórdia de Cardigos e nessa manhã já se tinham dirigido aos escombros. O que o fogo não estragou, a água estragou.

Trator agrícola foi destruído pelo fogo que chegou aos Vales vindo da sertã Foto: mediotejo.net

A aldeia dos Vales, a nove quilómetros da sede da freguesia, tem casas espalhadas pela estrada que parece uma serpente a passar por entre eucaliptos entre outra vegetação. Sendo uma aldeia do Pinhal Interior é marcadamente rural, dando acesso direto ao IC8, que chegou a estar cortado por precaução. O incêndio que chegou até esta aldeia veio do concelho vizinho da Sertã. “Do dia se fez noite”, contam os habitantes de uma aldeia em estado de alerta devido aos reacendimentos. Para além da casa de habitação, houve ainda quem perdesse o carro e um trator agrícola. “Andava aí tudo de mangueira na mão. O vento era muito forte e havia ramos de eucalipto em fogo a voar pelo ar”, conta uma das moradoras que conseguiu salvar o carro e os dois camiões da empresa.

Carlos Leitão, presidente da Junta de Cardigos, andou no terreno a perceber a dimensão dos estragos Foto: mediotejo.net

Parando para uma palavra de conforto sempre que era interpelado pelos habitantes, o presidente da Junta de Cardigos, Carlos Leitão, apresentava um rosto pesaroso. Reconhece que foram momentos de muita aflição e que os meios não eram os suficientes para acorrer a tanto lado. “Ardeu uma casa de habitação, uma carrinha de passageiros, um trator agrícola e outra carrinha de um madeireiro carregada de lenha, entre outros barracões agrícolas. Se em Pedrógão houve apoios aqui também deve haver”, considera o autarca. Carlos Leitão considera que “há uma desorganização muito grande “Os meios só aparecem só depois de já tudo ter ardido. Se sabem que o fogo vem de lá para cá como é que não se antecipam. Em vez de andarem na frente do fogo andam nas traseiras”, refere. Nestes momentos, a Junta de Freguesia tem pouca autonomia. “Fizemos 300 sandes e demos sumos e águas. Mais do que isso não há muito a fazer”, atesta.

António Louro, vice-presidente da Câmara de Mação, considera que há poucos meios no terreno Foto: mediotejo.net

No Posto de Comando, instalado na Escola Primária de Cardigos, eram várias as viaturas de socorro mas o vereador António Louro era o rosto do desânimo sempre que o telefone tocava para dar conta de mais um reacendimento. É que a combater a chamas tinha cerca de 210 homens, meios que considera escassos para atuar numa frente de fogo desta dimensão. António Louro estima que tenham ardido 800 hectares de floresta. “Estamos na hora mais crítica do dia (12h00) com temperaturas a subir e o vento a aumentar e, ao contrário do que seria expectável, não houve reforço de meios e estamos com algumas dificuldades em manter o controle da situação que já tínhamos”, lamentou o autarca antes de arrancar para um dos locais onde se tinha dado mais um reacendimento naquela que promete ser uma segunda-feira com muito trabalho no teatro das operações.

 

 

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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