Homenagem pela paz no Agrupamento de Escolas Verde Horizonte, em Mação

O Agrupamento de Escolas de Mação integrou duas crianças ucranianas em fuga da guerra no seu país, beneficiárias de proteção internacional, acolhidas no concelho com a respetiva família. O mediotejo.net falou com o diretor José António Almeida sobre um processo que, nesta primeira fase, está centrado no bem estar social desses alunos.

Para o processo de integração de crianças e jovens ucranianos beneficiários ou requerentes de proteção internacional, o Governo compilou num único documento as orientações que as escolas devem seguir para o seu acolhimento. O Agrupamento de Escolas de Mação já recebeu duas crianças, uma com 12 e outra com 7 anos.

O diretor do Agrupamento Verde Horizonte, José António Almeida, confirma ter a escola recebido orientações administrativas do Ministério da Educação no que diz respeito às crianças deslocadas da Ucrânia mas explica que, nesta fase, a principal preocupação prende-se, não tanto com a componente académica, mas com a integração desses alunos, socialmente, de interação, dinâmica de grupo e equilíbrios emocionais.

“Houve de facto orientações mas como recebemos as crianças na semana passada ainda estamos muito preocupados em fazer a integração dos alunos”, disse ao mediotejo.net, explicando que as orientações “foram processos administrativos, facilitar a matricula, organização e integração na comunidade em termos administrativos. Mas o que mais me preocupa é que cada uma das crianças tenha uma integração efetiva”, vincou.

O foco está nos alunos e na família uma vez que Mação acolheu, além das duas crianças, a mãe e a avó. Importa, portanto, perceber “quais os seus anseios, as suas necessidades, as suas motivações, os seus desequilíbrios emocionais, que são alguns, para que pudéssemos facilitar e contribuir para alguma serenidade, se é que isso é possível”, referiu.

A Escola recebeu uma criança para o primeiro ciclo e outra para o segundo, de acordo com José António Almeida. “Tentámos integrá-las nos grupos que nos pareciam mais propícios a esse acolhimento”, ou seja, com crianças da mesma idade com o objetivo de começarem a estabelecer relações.

Por seu lado, os professores foram orientados no sentido de estabelecerem com os alunos ucranianos relações de proximidade e afetividade.

“Acho que temos conseguido. As duas crianças não agravaram a situação, ou seja, já vemos um sorriso. Não estão extasiados de alegria, como não podia deixar de ser, mas já manifestam alguns comportamentos de caminhar para a normalidade, de crianças daquela idade”, indica.

O Ministério da Educação anunciou que estes alunos deviam começar, numa fase inicial, por frequentar apenas as disciplinas que “a escola considere adequadas”, num modelo de “integração progressiva no sistema educativo”.

As crianças integradas nas escolas de Mação “não falam inglês de forma fluente mas falam razoavelmente. E a comunicação nesta fase é em inglês, mas já vão dizendo umas palavras em português” designadamente “bom dia” e o nome da professora, o que significa, segundo o diretor, que ambas “estão a fazer um esforço no sentido de fazer aquisições linguísticas que permitam interagir com as outras crianças”.

Nesta fase inicial, os dois alunos ucranianos frequentam todas as aulas, de cada um dos grupos, “não com o objetivo de fazerem aquisições técnico-científicas mas com o objetivo de integrar. Esse é o objetivo primordial”, reiterou.

Foi ainda anunciado pelo Ministério da Educação que as escolas assegurarão a estes alunos um reforço de aulas para aprender a língua portuguesa, essencial para que possam apreender as restantes disciplinas e para que se possam sentir mais integrados.

Em Mação “ainda não. Não quer dizer que não vá existir esse reforço”, dá conta José António Almeida. Defende “alguma paciência para ver como vão reagir a este novo mundo. E vamos estar atentos a essas necessidades e vamos responder, eventualmente já na próxima semana com aquilo que acharmos mais adequado”.

O poderá passar por um reforço da componente linguística, admite o professor. “Nesta fase não era tão importante, mas a partir do momento em que já tenham alguns colegas com quem desenvolver interações mais próximas, conheçam o rosto do professor, já tenham algum conforto emocional, vamos fazendo algumas adições de outras dinâmicas”, assegura.

Em inglês e por gestos, lá se vão entendendo, sendo certo que professores e auxiliares não largam os telemóveis com tradutor automático, socorrem-se, portanto das plataformas digitais.

“Os professores utilizam essas traduções automáticas para que estabeleçam, aqui e acolá, uma comunicação minimamente sustentada. Mas para aqueles que dominam a língua inglesa – e a maioria dos professores domina – a base dessa comunicação, como disse, é o inglês. Mas para criar condições de conforto às próprias crianças, na medida do possível, utiliza-se a língua mãe, deitando mão às novas tecnologias”, refere.

Entre as orientações encontra-se a simplificação dos pedidos de equivalências de habilitações aos estudantes refugiados e para colocar os alunos num determinado ano de escolaridade.

“Está previsto e não é a nível local, mas a nível nacional. Está preparado um processo de equivalências para que depois possam prosseguir aqui os estudos de uma forma natural”, confirma o diretor.

Segundo o responsável, no Agrupamento de Escola de Mação optou-se por uma integração por grupo etário, isto é, por grupos de alunos com a mesma idade. “Não estive minimamente preocupado com o desenvolvimento académico de origem, isso é à posteriori”.

A constituição de equipas multidisciplinares com a missão de propor e desenvolver estratégias adequadas à situação das crianças ucranianas também está a ser preparada mas o José António Almeida explica que foi constituída em Mação uma equipa “muito reduzida” para o acolhimento e integração, ou seja: um diretor de turma, um professor de plano de turma e um psicólogo “que acompanhou as crianças com muita proximidade nos primeiros dias, praticamente a tempo inteiro”.

Apesar de Portugal ter uma grande tradição na inclusão de alunos refugiados e migrantes, o diretor admite não ter havido “muito tempo” para as escolas se prepararem para receberem estas crianças e jovens.

“A preparação exige tempo portanto não podemos dizer que estamos preparados. O que não quer dizer que não estejamos a fazer um bom trabalho no acolhimento. Não nos preparámos, porque não tivemos tempo para o fazer, mas estamos a fazer bem o nosso papel e se calhar estamos a fazê-lo melhor do que pensei que fosse possível”, afirma.

Esta afirmação, de um trabalho positivo, é confirmada até ao olhar para os sinais que as crianças vão passando. Contudo, nota que “a guerra começou de um dia para o outro. Não estávamos minimamente preparados, não tínhamos a estrutura, o ano não foi preparado para fazer este tipo de acolhimento”.

A operacionalização destas ações é acompanhada por um grupo de trabalho constituído por diversos organismos do Ministério da Educação e por outras entidades, como o Alto Comissariado para as Migrações.

“Fazemos o reporte para as estruturas do Ministério da Educação e o Ministério articular diretamente com o Alto Comissariado para as Migrações”, conclui.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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