O presidente da Câmara Municipal de Mação afirmou que foi com tristeza que constatou no local o elevado grau de destruição dos passadiços de Ortiga, inaugurados este ano à beira Tejo, por força da corrente das águas. Foto: Joana Santos/mediotejo.net

No momento atual “é prematuro decidir” sobre uma eventual reconstrução dos passadiços de Ortiga. As palavras são do presidente da Câmara Municipal de Mação, Vasco Estrela, durante a Assembleia Municipal que decorreu na quarta-feira 21 de dezembro. O autarca foi alvo de diversas críticas nas redes sociais, após a intempérie da semana passada que culminou com a destruição dos passadiços inaugurados este ano à beira Tejo. A forte corrente das águas do rio arrastou e destruir grande parte da estrutura, de um percurso de cerca de 1,3 quilómetros. Vasco Estrela não foi poupado pela decisão, do executivo municipal de maioria social democrata, de construir um passadiço em leito de cheia.

Para o presidente da Câmara Municipal de Mação “é prematuro” decidir, no momento atual, “a reconstrução ou a não reconstrução” dos passadiços de Ortiga, “como, onde, com que material”.

Na última sessão da Assembleia Municipal de Mação, Vasco Estrela afirmou “não haver condições para tomar nenhuma decisão sobre esta matéria” embora já seja do conhecimento do executivo municipal que “grande parte do material está lá todo. Algum felizmente ainda no sítio, mas ainda não é altura de irmos confirmar, as condições climatéricas não permitem, o leito do rio não permite”.

O autarca começou por agradecer as palavras do seu companheiro de partido, José António Almeida, relativamente ao que foi escrito nas redes sociais. Vasco Estrela foi alvo de diversas críticas nas redes sociais, após a intempérie da semana passada que culminou com a destruição dos passadiços inaugurados este ano à beira Tejo, comentários e atitudes que o deputado municipal do PSD classificou de “lamentáveis e vergonhosas” sendo “um ataque completamente injusto, infundado e pateta acerca do presidente e do Vasco Estrela [… ] só uma pessoa sem vergonha, sem conhecimento mínimo de como a obra foi preparada e dos pareceres técnicos, pode dizer o que disse”.

ÁUDIO: JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA, DEPUTADO DO PSD DE MAÇÃO
Assembleia Municipal de Mação. Créditos: mediotejo.net

Dirigindo-se à deputada municipal do Partido Socialista, Carla Loureiro, o presidente fez saber que na terça-feira, em declarações a um órgão de comunicação social, disse que “quem de repente aterrasse em Portugal por estas dias, nomeadamente aqui na zona de Mação, haveria de pensar que a única coisa que aconteceu no país foram os passadiços da Ortiga que desapareceram. Pelo menos onde um autarca foi ‘linchado’ publicamente nas redes sociais por decidir que aquela poderia ser uma obra interessante para o concelho. Esquecendo-se de tudo aquilo que aconteceu a montante e a jusante onde parte de passadiços também desapareceram, onde ancoradouros de barcos também desapareceram, onde metade de Lisboa ficou submersa com prejuízos de milhões, hospitais acabados de inaugurar com parques subterrâneos cheios de água. Como se aquilo que tivesse acontecido naqueles dias fosse uma situação perfeitamente normal e acontecesse todos os anos e só eu é que não tinha percebido que aquilo ia acontecer”.

A construção dos passadiços, num percurso ribeirinho com cerca de 1.300 metros integrado nas Rotas das Pesqueiras e Lagoas do Tejo, representou um investimento na ordem dos 300 mil euros, comparticipado por fundos comunitários em 85%, tendo os mesmos sido inaugurados em fevereiro deste ano e pretendia “virar” o concelho de Mação para o rio.

Foto: Joaquim Diogo/CMM

O percurso, junto ao antigo Bairro dos Pescadores de Ortiga, fazia-se ao longo do Tejo, entre passadiços em madeira e trilhos pedestres, sendo o rio o fio condutor de uma visita com direito a miradouro sobre o curso de água e sobre as mais de 20 pesqueiras tradicionais e de ligação às Lagoas do Tejo, tendo o projeto, agora destruído pela força da água, revitalizado uma zona de forte valor cultural, histórico e patrimonial.

O projeto do passadiço mereceu um acréscimo, o referido miradouro no alto da Boavista, que rondou os 26 mil euros e está intacto. Estes atrativos de Ortiga pretendiam aumentar a valorização turística daquela freguesia ribeirinha, numa estratégia integrada que pretendia unir e dotar de melhores condições os equipamentos que são sua imagem de marca: a praia fluvial e o parque de campismo.

ÁUDIO: VASCO ESTRELA, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MAÇÃO

Vasco Estrela reconheceu o “risco” de uma cheia e lembrou ter admitido tal risco aquando da decisão de avançar com o projeto. “Também havia o risco de arderem como arderam os passadiços mais famosos do país pouco tempo depois de estarem inaugurados. Tinha impressão que o presidente de Arouca não foi linchado publicamente por esse facto”, referiu, afirmando que “as pessoas da Ortiga avisaram desse facto”.

No entanto, estava em causa “arriscar ou não arriscar” em executar uma obra que “pudesse ser importante para o desenvolvimento turístico do concelho e da região. Concretizar aquilo que era a nossa ambição de reforçar a ligação ao rio e esperar que tudo pudesse correr bem como era a nossa expectativa”, acrescentou, assumindo responsabilidades como “responsável máximo pela Câmara nesta matéria”.

Recusou no entanto responsabilizar “entidades externas” como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ou a CCDR Centro, as duas entidades que deram parecer positivo aos passadiços de Ortiga. Falou num processo “longo”, com projetos originais “muito mais ambiciosos em termos de risco do que este, onde havia uma abrangência para o leito do rio muito maior do que este”, confirmando “haver algum cuidado” por uma das entidades que proferiram parecer “para retirarmos o passadiço para o mais longe possível do leito de cheia […] infelizmente correu mal”, lamentou.

Isto porque a deputada socialista Carla Loureiro, falando do projeto como “um sonho que todos os ortiguenses tiveram”, observou que “terá sido sujeito a um parecer da APA, uma entidade tão exigente, cheia de burocracia, com técnicos tão bem habilitados” questionando da incapacidade da entidade de não prever tal situação e de ter permitido a construção. Assim, perguntou a Vasco Estrela se “a Câmara já pensou na possibilidade de responsabilizar esta Agência?”.

ÁUDIO: CARLA LOUREIRO, DEPUTADA DO PARTIDO SOCIALISTA DE MAÇÃO
Assembleia Municipal de Mação. Créditos: mediotejo.net

Em resposta o presidente recusou “escudar-se nos pareceres de outros […] a APA e a CCDR não têm responsabilidade nenhuma, a responsabilidade é da Câmara e do seu presidente”, reforçou.

Admitiu que os passadiços “trouxeram pessoas e vida aquela zona”, referiu que “a decisão de reconstrução dos passadiços no futuro será uma decisão meramente política” e acrescentou que “depois de ler os comentários nas redes sociais tentei perceber se havia algum comentário de algum elemento da bancada do Partido Socialista a denegrir a imagem do senhor presidente e não vi. Peço desculpa mas os vossos amigos não são os mesmos que os meus”.

Caso o executivo municipal opte pela reconstrução, a bancada do PS deixa uma recomendação: “que seja acautelada a localização para que o dinheiro público que se gasta nestas coisas ‘não vá por água abaixo’”.

Por seu lado, Vasco Estrela deu conta de ter falado com a presidente da CCDR no sentido de perceber “o que no futuro poderemos vir a fazer – requalificar, não requalificar – mas pelo menos para não se perder tudo daquilo que ali foi feito e para que possa continuar a ser um local onde as pessoas possam usufruir do rio”.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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