O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, cumpre o seu último mandato à frente da autarquia. Créditos: mediotejo.net

Militante do PSD desde os 18 anos, embora antes dessa idade já pertencesse à JSD, Vasco Estrela tem 53 anos e nasceu em Mação, no antigo hospital concelhio, agora Lar da Santa Casa da Misericórdia de Mação, edifício histórico recuperado no seu tempo de provedor da Santa Casa. O seu pai já era simpatizante social-democrata e chegou a fazer parte dos órgãos concelhios do partido, mas nunca teve “uma grande presença” na política. Advogado de profissão, licenciado em Direito pela Universidade Internacional, em Lisboa, realizou o estágio no Conselho Distrital da Ordem dos Advogados em Lisboa, tendo exercido a profissão durante dois anos até que foi trabalhar com Saldanha Rocha na Câmara de Mação, sendo primeiramente secretário e depois chefe de gabinete, mais tarde vereador e por fim presidente de Câmara, vencendo três eleições. Vasco Estrela contabiliza 23 anos de vida autárquica, agora em final de ciclo. O presidente encontra-se no último ano do seu terceiro mandato, não podendo recandidatar-se à Câmara de Mação nas eleições autárquicas de 2025. É casado e tem três filhos. Conversámos com Vasco Estrela, no seu gabinete, na Câmara Municipal de Mação.

Nota de contexto – A entrevista foi realizada antes de se saber que o atual presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela (PSD), antecipou a saída do cargo para o qual foi eleito para ocupar a vice-presidência da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro. A nomeação para o cargo foi aprovada no Conselho de Ministros de 9 de janeiro e aceite por Vasco Estrela. Com a consequente saída da Câmara, por suspensão de mandato, Margarida Lopes assumiu a 15 de janeiro a presidência da Câmara.

Este é o seu último mandato e em 2025 não poderá recandidatar-se. Fica até ao final do mandato?

Não posso dar a certeza. Ao dia de hoje, com o que está em cima da mesa diria que ficava, mas não posso dar essa garantia porque pode eventualmente surgir alguma oportunidade que me faça sair. A minha intenção sempre foi essa, mas houve circunstâncias que se foram alterando ao longo deste percurso. Hoje não tenho nada por garantido uma vez que nada depende somente de mim. A única coisa que depende somente de mim é aceitar ou não alguma proposta que tenha, ficar ou não ficar. Aquilo que tenho como garantido é ficar até final do mandato. Para ser honesto, como sempre tentei ser e acho que fui, não posso garantir a 100% que fico até ao final.

Depois de quase 12 anos como presidente de câmara e no serviço público à sua comunidade, pensa na hora de saída como um alívio ou gosta do que faz e gostava de continuar?

Gosto muito do que faço. Gostei muito e diria que já sinto alguma nostalgia, mas também sinto que está a terminar. E diria que não é só pela Lei da Limitação dos Mandatos, que obviamente é um ponto final num determinado percurso, que teria sempre de acabar, mas também aqui ou ali, eu próprio vou sentindo, não diria cansaço, mas alguma desilusão, alguma falta de compreensão que penso que existe para com a minha pessoa, o que é natural porque estou aqui há muitos anos.

Refere-se aos munícipes?

Estou a falar de uma forma geral… não sei se é impressão minha ou se é real. Acho que é um bocadinho de tudo. O meu afastamento será muito útil à Câmara de Mação, será útil ao Concelho. Acho que cumpri as minhas obrigações, sempre com muito rigor, com muito profissionalismo. Acho que é bom para todos, também para mim em termos pessoais, um afastamento que quero ter, provavelmente, definitivo, da vida autárquica.

Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação

O que vai fazer? O que se vai seguir na sua vida?

Sempre disse que tenho uma profissão, que é a profissão de advogado. Obviamente que não me iludo com as coisas, sei perfeitamente que um afastamento de 23 anos, voltar a essa profissão é extraordinariamente difícil. Mas também, ao longo destes 23 anos, muitas competências fui conseguindo adquirir. Portanto, tenho sempre essa profissão que, com imensas dificuldades, poderia tentar retomar. Neste momento pode haver uma outra possibilidade de assumir outras funções, e não posso dizer mais do que estou a dizer, porque não depende de mim, há muitas circunstâncias que não consigo dominar. A única coisa que consigo dominar é que tenho um mandato até outubro de 2025.

Tem ambição de trabalhar em cargos governativos ou ser candidato a câmaras de outros municípios? E mais tarde regressar?

Não serei candidato a nenhuma câmara nem serei candidato em Mação, já o disse há dois anos. Disse-o também quando ganhei a última eleição, acho que é bom para o partido e é bom para as pessoas que para aqui virão e também é bom para mim afastar-me um pouco desta vida autárquica.

Porquê?

Vivi de forma muito intensa, demasiado intensa, a vida autárquica quer como assessor de Saldanha Rocha, como vereador de Saldanha Rocha, como vice-presidente e atualmente como presidente. Portanto, às tantas, eu e a câmara já nos confundimos um pouco. Ficar aqui por perto “a pairar” quase como um fantasma, sobre seja quem for, ganhe ou não o PSD, ou estar na Assembleia Municipal a reviver uma série de coisas, já não seria benéfico nem para mim nem para ninguém, e muitas vezes ser juiz em causa própria. Acho que o afastamento é importante, bom e saudável para mim e para quem ficar. Ao dia de hoje é esta a minha posição, já a transmiti a quem de direito e acho que foi compreendida. Aqueles que me sucederem devem ter toda a liberdade para exercerem o cargo da forma que entenderem, poderem fazer e desfazer aquilo que fiz, sem qualquer problema. Não quero estar aqui a fazer sombra a ninguém.

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, cumpre o seu último mandato à frente da autarquia. Créditos: mediotejo.net

Mas tem ambição de trabalhar em cargos governativos ou não?

Não tenho nem deixo de ter. Não digo que não. Com o meu passado político, tenho alguma experiência e alguma capacidade para isso. Portanto é normal que uma pessoa com o meu currículo, com aquilo que fiz, possa ser desafiado para esse tipo de cargos políticos, ainda mais agora. Esta condição só se coloca porque o partido do qual sou militante está no Governo, presumo que outro partido provavelmente não me convidaria, ou convidaria por alguma situação. Gostaria de fazer alguma coisa também a outros patamares, claramente que sim! Poderia ter algumas mais-valias. Mas não é algo com que tenha sonhado. Ou seja, em condições normais, se não tem acontecido o que aconteceu ao Governo do Dr. António Costa, terminaria o meu mandato com o Governo dele em plenas funções, portanto há ano e meio não estava a perspetivar a minha vida desta maneira. Houve uma série de circunstâncias que se alteraram. Estando o PSD ou a coligação no Governo, havendo uma possibilidade, não a descarto.

Porque escolheu esta vida de autarca? O que o motivou? Como é que chegou à Câmara?

Fui autarca pela primeira vez em 1993, teria 22 anos, na Assembleia Municipal. Sempre tive o bichinho da política. Lembro-me de ser muito jovem e ir de autocarro para Santarém para as reuniões da JSD. Sempre tive essa ambição, de poder ajudar e poder contribuir com alguma coisa para a minha terra. Nunca esteve no meu plano de vida, e acho que não deve estar no plano de vida de ninguém ser presidente de Câmara, as coisas surgem de forma muito natural. Houve aqui uma conjugação de fatores que fizeram com que eu, que tive aquele mandato de 1993 a 1997, depois em 1997 não fui nas listas por questões internas da vida do partido, estava a fazer a minha vida em Lisboa, tinha acabado de fazer o estágio, estava a trabalhar com um colega, indeciso se abria aqui um escritório se ficava em Lisboa, estava a pensar casar, portanto com algumas indefinições na vida, surgiu então o convite do Saldanha – a ele devo o facto de hoje aqui estar a falar consigo. Sou grato por ter apostado em mim, como muitas pessoas poderiam não o fazer, o Saldanha Rocha acreditou em mim, e vim aqui para o gabinete.

A partir daí as coisas fluíram normalmente e acho que consegui desempenhar bem o meu papel, ao ponto das pessoas do meu partido me escolherem em termos locais, em termos distritais, e em termos nacionais para ser o cabeça-de-lista à Câmara de Mação, com os resultados que as pessoas sabem. Foram três vitórias inequívocas.

Sente que o concelho está melhor depois do seu trabalho? As populações têm melhor qualidade de vida?

Sim, sinto. Sem qualquer tipo de imodéstia acho que as coisas estão melhores. Há hoje outras condições, em termos infraestruturais, que não existiam à data, há hoje um conjunto de apoios que prestamos que não prestávamos à data. Estamos muito mais presentes no território, as circunstâncias mudaram muito em 12 anos. Não é por mim, é a própria conjuntura, mal seja se assim não fora. Passa-se o mesmo na generalidade dos concelhos. Penso que as coisas estão melhores, naquilo que de nós dependeria e aquilo que era essencial fazermos. Contudo, se virmos a vida das pessoas em termos globais, já não dou a resposta de uma forma tão inequívoca. Quando hoje temos o acesso à Saúde da forma deficitária como temos, quando temos os serviços públicos, de uma forma muito vincada, a capitularem perante aquilo que deveria ser a prestação de serviços às populações, as pessoas estão piores.

Digo isto sem qualquer tipo de problema e de poder ser contestado. Daquilo que dependia de nós, sem fazermos tudo bem, como é óbvio, tentámos melhorar e melhorámos a vida às pessoas. Mas há um conjunto de serviços que deveriam ser prestados aos cidadãos e que não dependem da Câmara, que se tem substituído ao Estado inúmeras vezes para tentar colmatar as deficiências do próprio Estado.

Temos assistido a presidentes de Câmara saírem antes do final do mandato, renunciam para assumirem outros cargos e colocarem na presidência aquele que poderá ser considerado o seu prolongamento, normalmente o vice-presidente. O que pensa dessa estratégia política?  Acha que aos olhos do eleitor, este avanço, é moralmente aceite?

Não sei se é moralmente aceite ou se é censurável. No caso de Mação não é nenhuma estratégia política. Por aquilo que sei, se, entretanto, deixar o cargo, a pessoa que me sucederá, a Margarida [Lopes], não será candidata à Câmara. Temos a tendência para tomar os eleitores por pessoas um bocadinho menos iletradas do que nós. Podemos fazer tudo que as pessoas, como se costuma dizer, “comem gelados com a testa”. Cada vez mais os eleitores não vão nessas conversas e sabem muito bem o que querem escolher. Basta ver os resultados eleitorais no concelho de Mação. Quem os quiser estudar. As pessoas souberam muito bem escolher quem queriam para a Câmara, quem queriam para a Assembleia Municipal e quem queriam para as Juntas de Freguesia. Portanto, por mais estratégias que queiramos arranjar, as pessoas perceberão se a estratégia faz ou não sentido, ou se de alguma forma estão a tentar enganá-las.

Também não sou ingénuo ao ponto de não perceber que aquela pessoa ganha visibilidade, se houver alguma dúvida sobre o seu perfil, ao fim de 4 ou 5 meses ou um ano, pode haver ali alguma influência positiva ou influência negativa, quando se percebe que não é aquele o caminho. Não é essa a estratégia aqui, nem a que se seguiu no passado, nem do Saldanha Rocha para mim, nem do sr. Elvino Pereira para o Saldanha Rocha. Se acreditamos na Democracia devemos confiar nos eleitores. Reconheço que a Democracia permite que quem está no poder tem outros meios e outros mecanismos para poder influenciar. É verdade! É mais fácil estar no poder e ir a eleições do que estar na oposição. Também é mais fácil para quem está na oposição poder criticar e dizer mal, e sabemos que há sempre coisas mal.

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, cumpre o seu último mandato à frente da autarquia. Créditos: mediotejo.net

Mação sempre foi um concelho governado pelo PSD, desde que há eleições livres. Há alguma explicação para este facto?

O PSD ou a Aliança Democrática ganhou sempre, desde 1976, as eleições para as autarquias locais. Sinal de que as pessoas têm confiado nos candidatos que o PSD tem apresentado para a Câmara. Para as Assembleias de Freguesia e Assembleia Municipal nem sempre assim sucedeu e também nem sempre assim sucedeu nem para eleições legislativas nem para eleições europeias, em que o PSD já perdeu. Isto significa que as pessoas, repetindo aquilo que já disse, sabem muito bem o que querem fazer, em cada um dos momentos. O PSD em Mação tem tido o condão de saber estar unido nas alturas certas, leia-se nos momentos eleitorais, apesar das divergências que existem sempre, nomeadamente na feitura das listas, alguns sapos que todos temos de engolir, de uma forma geral temos conseguido fazer a união e a paz.

É muito importante na estabilidade que queremos transmitir aos eleitores e não tenho a certeza de que o Partido Socialista sempre o tenha conseguido fazer.

Em 2025 como será?

Em 2025 há uma circunstância diferente. Acho que será uma eleição diferente das habituais.

Porque diz isso?

Porque o candidato à Câmara não estará na Câmara. É uma novidade, não sei como as pessoas vão encarar isso, se pela negativa se pela positiva. Pelo que ouço dizer na rua haverá uma lista de independentes, pessoas até com algumas conotações com o Partido Social Democrata, o que poderá baralhar um bocadinho o jogo. Temos o fenómeno do partido Chega, não sabemos todos, em lado nenhum, o que vai acontecer. Relembro que nas últimas eleições autárquicas tive quatro adversários, um deles do partido Chega, na altura não fiz campanha eleitoral porque o meu filho estava com covid-19 e pelo contacto tive de ficar em casa, mas debati com o senhor nos debates que os jornalistas organizaram.

Tinha vindo uma vez a Mação, como era candidato mandaram-no vir cá para conhecer.  Não conhecia minimamente o que era Mação, e mesmo assim ficou em terceiro lugar. E na altura o Chega não era o fenómeno que é agora. Há aqui várias nuances que podem tornar estas eleições um bocadinho diferentes das habituais. E espero que os eleitores decidam bem.

E quem lhe vai suceder no cargo?

É quem os eleitores decidirem. Não vou avançar o nome do candidato do Partido Social Democrata.

Não é José António Almeida?

Acho que José António Almeida é uma possibilidade muito forte, tem muita experiência política, é membro da Assembleia Municipal há muitos anos, foi vereador e vice-presidente da Câmara durante quatro anos. É alguém com muitas condições para desempenhar com qualidade este cargo. Se for candidato terá o meu apoio. Mas não posso confirmar porque não depende de mim essa confirmação, por uma questão institucional. Não é por estar na qualidade de presidente de Câmara, é porque, neste momento, há órgãos do partido que tomam decisões, suponho que já as tenham tomado, mas há outras validações dessa decisão que não estão formalizadas, portanto não ficaria bem eu confirmar até porque não tenho a certeza se já há decisões totalmente tomadas. Não faço parte dos órgãos do partido apesar de ter assento por inerência até ser presidente de Câmara, mas não dependerá de mim fazer um anúncio com essa relevância.

Portanto, não vou ser eu a dizer se José António Almeida é candidato. Se é uma forte possibilidade? Acho que é. Se é um bom candidato? Acho que é. Se daria um bom presidente? Acho que sim.

Maquete do edifício da Câmara Municipal de Mação. Créditos: mediotejo.net

Como estão as contas do Município, deixa uma boa herança financeira?

Deixo uma ótima herança financeira. As contas em dia, estamos a pagar praticamente ao dia, com dinheiro a prazo, com algum fundo de maneio para as obras que estão a iniciar de candidaturas aprovadas ou em vias disso. Portanto, as contas estão muito equilibradas, boa saúde financeira para quem me suceder poder fazer aquilo que ache que deva fazer, desde que não entre em desvarios, naturalmente. Ainda faltam uns meses para o final do mandato, não se pressupõe uma tragédia, que vá alterar a atual situação, seguindo a Câmara o ritmo normal há boas condições para, em outubro ou novembro de 2025, o novo executivo poder fazer aquilo que muito bem entender.

Ou seja, aconselha precaução não venha aí outra pandemia…

Por exemplo! Nunca tive um mandato com normalidade; tive a Troika, tive os incêndios, tive a covid-19, portanto nunca consegui ter quatro anos de sossego, desse ponto de vista.

Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?

Aquilo que gostaria de ter realizado é a conclusão da requalificação da vila de Mação. Iniciou-se em 2016, a entrada Sul. Está neste momento uma obra a decorrer junto à escola secundária, mas a obra principal é o centro histórico da vila que por várias razões – dificuldade de aprovação de candidaturas, dificuldade de projeto – não foi possível realizar. Foi ontem mesmo a reunião de Câmara a aprovação das peças finais do procedimento. Espero que seja uma obra que possa arrancar nos primeiros meses de 2025. Tenho pena de não ter conseguido concretizar essa obra, era uma ambição que tinha; tornar a vila mais atrativa.

Requalificar o centro histórico, passeios que não estão em condições nomeadamente para pessoas com mobilidade reduzida, a calçada que não está em boas condições, iluminação, mobiliário urbano, enfim… infraestruturas que estão e já não deviam estar, tornar a vila um bocadinho mais bonita bem como a entrada Norte. Saio com este sentimento agridoce de não ter conseguido terminar essa obra.

Qual é a herança de que se orgulha?  

Herança, tenho muitas de que me orgulho, mas aquela que me deixa mais tranquilo foi a relação que consegui estabelecer com as pessoas do Concelho, de uma forma geral. Naturalmente há uma série de pessoas que não gostam de mim por vários motivos, o que é muito normal, mas a política de proximidade que apregoei desde a primeira hora, com a iniciativa da volta ao Concelho, que começamos logo em 2014, o relacionamento que conseguimos estabelecer com as associações, com todas elas, com as forças vivas, independentemente das cores políticas dos seus dirigentes, nada disso foi para nós relevante e tenho inúmeras provas disso. Acho que é a melhor herança que levo. De sair bem comigo mesmo e nunca ter tratado mal ninguém por razões ideológicas ou outras. Tenho esse orgulho. Admito que haja quem ache que aqui ou ali não fui correto, perfeitamente normal, mas saio com a consciência perfeitamente tranquila; fui, desse ponto de vista, aquilo que prometi.

Há obras que prometi e não fiz, mas também há muitas outras que aconteceram e não estavam previstas. Estar nesta vida autárquica numa Câmara como a de Mação é tudo muito dinâmico, há circunstâncias que fazem com que as coisas se alterem. Mas nunca tive cálculos políticos e acho que isso também se traduziu nos resultados eleitorais. Sempre tentei pôr os interesses do concelho, das terras, das associações, das IPSS, acima de qualquer questão política, o que às vezes pode não ter sido muito bem compreendido, junto de alguns que estavam, supostamente, mais próximos de mim.

Nestes três mandatos como presidente de Câmara, 12 anos, portanto, qual foi a maior dificuldade e aquilo que mais o marcou pela positiva?

O que me marcou pela negativa foi a dificuldade que muitas vezes temos em conseguir fazer, em concretizar aqueles que são os nossos objetivos, fruto daquilo que são as contingências e de fatores que não dominamos, nomeadamente, financiamentos, licenciamentos, relações com a administração pública que é um autêntico martírio. Dou o exemplo da nossa revisão do PDM que está há mais de 20 anos para ser revista, a dificuldade que temos para obter pareceres, por vezes por inércia nossa. Há uma máquina demasiado pesada no Estado que faz com que seja difícil, faz efetivamente difícil que consigamos levar por diante aquilo que são os nossos objetivos. Mas mais do que esta mágoa é a mágoa, que há pouco já referi, de perceber aquilo que para mim continua a ser uma pedra de toque essencial, que é a falta de coesão territorial que existe no nosso País e faz com que territórios como o nosso, apesar de estar a pouco mais de 100 quilómetros de Lisboa, da grande capital, sofram deste estigma da interioridade e que se vê não só nas palavras mas vê-se na dificuldade de acesso aos serviços públicos e na forma como as pessoas aqui são muito pouco relevantes para grande parte dos decisores políticos.

Pela positiva, uma vez mais, a interação e dinamismo que consegui estabelecer com as nossas associações, o carinho com que as pessoas, de uma forma geral, me trataram e o facto de, nestes anos todos, termos encontrado muitas pessoas que nos apoiaram, que compreenderam as nossas dificuldades, que nos momentos difíceis estiveram ao nosso lado, foram solidárias. Isso enche o coração. E não vou enumerar as inúmeras obras que fizemos por todo o Concelho e as inúmeras iniciativas que fomos tendo de apoio à comunidade, à comunidade escolar. Estão documentadas e deixam-me muito orgulhoso.

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, cumpre o seu último mandato à frente da autarquia. Créditos: mediotejo.net

Por exemplo, a requalificação do Cine-Teatro é uma das obras emblemáticas?

Sim, é uma. Mas refiro-me à obra de requalificação do quartel dos bombeiros voluntários, onde hoje funciona o Centro de Recuperação e Integração de pessoas com deficiência. Estou muito orgulhoso, desde a primeira hora, de ter agarrado naquela obra. Apesar de muitas vozes dissonantes, de ter falado com alguns dirigentes sobre a intenção de fazermos ali aquela obra e dizerem que fazia pouco sentido, que era preferível levar as pessoas para outro lado. E o CRIA, na pessoa do dr. Nelson de Carvalho, foi fundamental neste processo, como o dr. José Carlos Veríssimo, também puxarem no sentido de podermos fazer o que fizemos no centro da vila, para que as pessoas se sentissem iguais dentro das particularidades que as suas vidas têm. E hoje passar em Mação, ao lado de onde estamos e ver aquelas pessoas a conviverem com os cidadãos deste Concelho, a irem às nossas iniciativas dos ralis, do futebol, do Cine-Teatro. Ainda ontem os ter encontrado na piscina, cria uma sensação de orgulho o poder ter feito, ainda por cima, naquele edifício histórico do nosso Concelho, onde funcionou uma grande instituição que são os bombeiros voluntários de Mação. Um edifício que foi construído com a força, com o dinheiro, com a labuta das pessoas desta terra. Hoje está ao serviço da comunidade, não só das pessoas de Mação, mas principalmente das pessoas do Concelho, gerador de emprego, de economia, de área social.

Foi provavelmente a obra que me deu mais “prazer” ver concretizada e passar naquele local e termos acreditado que valia a pena. Felizmente não é nenhum mono, é um edifício que ajuda as pessoas e funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano. Ajuda a tornar as pessoas mais felizes.

Falando em dificuldades, calculo que os incêndios de 2017 e 2019 tenham sido dos momentos mais difíceis que ultrapassou. Sentiu apoio do seu partido?

Foram. Na altura fui muito claro a dizer que não. Houve alturas em que senti que nem sempre tive o apoio devido. Mas não foi só do meu partido, foi a nível geral. Ainda é cedo para contar as histórias todas que se passaram nessa altura. Percebo várias posições que foram tomadas por ação e por omissão nessas alturas. Mas posso dizer o seguinte: se por acaso as decisões e as tomadas de decisão públicas que eu tomei, muitas vezes sozinho, não têm produzido os resultados que produziram, provavelmente não estaria à sua frente a dar esta entrevista. Quando decidi que teríamos de fazer o que fizemos relativamente ao relatório para a inspeção geral da administração interna, aos dados, bem como depois intentar a ação judicial contra o Estado – e aí a Assembleia Municipal também entendeu que era importante fazê-lo -, mas se esses dois resultados que nos foram positivos não o têm sido, o meu crédito teria sido totalmente desbaratado, e provavelmente não estaria hoje aqui porque não teria defesa, passaria por um charlatão que andou a dizer coisas que não correspondiam à verdade. Se o fiz, e se o fizemos, foi sempre na perspetiva de que aquele era o caminho que tinha de ser tomado para a defesa dos interesses da população do Concelho de Mação.

E foi isso que fizemos; repor a verdade, ganhámos os casos. Mas sim, algumas vezes denunciei que gostaria de ter sido mais apoiado. Depois de ter assistido àquilo que assisti não tinha outra alternativa senão seguir em frente e pôr em risco muitas coisas.

Como vai o novo projeto das AIGP e OIGP de transformação da paisagem?

Vai bem, por aquilo que o engenheiro António Louro me vai transmitindo. As coisas estão a correr bem, embora não acompanhe muito esse processo, está mais com o vereador. Mas finalmente há condições para conseguirmos levar por diante esse nosso grande objetivo, de alteração profunda da nossa paisagem para evitar que os problemas de 2017 e 2019 se repitam ou pelo menos não se repitam com a gravidade do passado. Temos uma oportunidade única que nos foi proporcionada pelo PRR mas também porque tínhamos muito trabalho de base feito e esse trabalho deve-se muito ao António Louro. E hoje há meios para fazer diferente, para que os resultados sejam diferentes.

É verdade que chegou a receber ameaças?

Sim. Recebi ameaças de morte, um bilhete que me deixaram o carro, mas acho que não teve nada a ver com as AIGP. As ameaças foram remetidas para o Ministério Público. E cartas anónimas que surgiram em Mação contra mim e contra o António Louro relativamente a esse assunto. Chamavam-me Putin e ao António Louro outra coisa qualquer, ou vice-versa. Que queríamos apoderar-nos da terra das pessoas e outras barbaridades. Cartas anónimas remetidas um pouco por todo o Concelho.

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, cumpre o seu último mandato à frente da autarquia. Créditos: mediotejo.net

Apesar de não ser um direito absoluto, é difícil mexer na propriedade?

Evidentemente que é difícil mexer na propriedade. Mas aqui a questão não é mexer na propriedade, ninguém está a tirar nada a ninguém. Se calhar há outras formas de gerir a propriedade, se o proprietário não a gere, então deixe alguém gerir por ele, e depois tirar o rendimento que lhe for devido para que a sua não ação relativamente aquela propriedade não coloque em causa a propriedade dos outros, não coloque em causa o bem comum. Muitos dizem que é uma visão muito esquerdista, mas esta questão não tem de ser nem de esquerda nem de direita. Há muito a noção, como algumas pessoas me chegaram a dizer “as pedras são minhas faço o quiser das minhas pedras”, mas não há qualquer problema “as pedras continuam a ser suas”, pode fazer o que quiser dentro daquilo que for decidido para aquela área. Mas se quiser mexer nas pedras, não temos de ser nós a mexer. Tem é que fazer alguma coisa para evitar que as situações do passado surjam. No fundo é sermos menos egoístas, perceber que o bem comum tem de estar um bocadinho acima daquilo que são os nossos pequenos interesses.

E até seria compreensível esta postura de “a minha propriedade” se até esta data as coisas estivessem a correr bem e tirassem o rendimento normal das propriedades. Mas num Concelho como este, que sofre, as pessoas sofrem, quando quase ninguém tira rendimento da propriedade porque os incêndios vêm como vêm. Continuarmos a achar que este é o caminho é que me parece um bocado absurdo.

Ou seja, as terras estão abandonadas.

Quando a grande maioria dos proprietários do concelho de Mação, com exceção de algumas dezenas, não estão a viver em Mação, não sabem onde são as suas propriedades, então quem é que faz a gestão daquelas terras? Esta é a questão. Perante este cenário, que não é de Mação, é de metade do País, alguma coisa tem de ser feita. Vamos continuar a acreditar em quê? Em mais meios para os incêndios? Que vamos prender, no verão, todos aqueles que colocam fogos? Que não vai haver nenhuma circunstância que cause incêndios? Percebemos agora em setembro… a paisagem hoje está completamente desordenada. Nós abandonámos a paisagem. Abandonámos o território. Não quisemos saber de nada, achávamos que íamos todos viver para o Litoral. A pastorícia deixou de existir, as hortas deixaram de existir, deixámos tudo ao abandono e depois vamos querer o quê? Tivemos de encontrar uma solução e aquilo que a Câmara de Mação fez foi ser coerente com aquilo que andou a dizer. Desde 2003 que houve consenso político no Concelho de Mação que algo tinha de ser diferente. Com as chamadas Zonas de Intervenção Florestal, infelizmente não se conseguiu concretizar porque não havia meios, então agora que havia meios, não íamos fazer nada com receio de algumas pessoas para quem a situação continua a ser boa? Essas pessoas não representam os vinte e tal mil proprietários do Concelho de Mação. Essas pessoas podem ser 10, 15 ou 20 e, com o devido respeito, têm direito a falar tanto como qualquer outro proprietário de Mação que esteja em Lisboa, em Zurique, em Barcelona, em Mação ou no Rio de Janeiro. Todos têm direito à sua opinião, mas não é uns acharem que esta situação está bem assim, porque lhes dá jeito, por razões que não vou aqui falar, que vamos ficar quietos. Comigo não contam! E digo com muita mágoa que tenho sofrido muito por causa disso, tenho hoje pessoas eleitas do meu partido com quem não falo por causa desta situação.

Algumas decisões políticas que tomei, e que me afastaram porque o meu vice-presidente, à data, foi publicamente atacado e porque politicamente o defendi, senti-me sozinho nessas vezes, porque fui solidário com António Louro. Acredito naquilo que está a fazer, acho que este é o caminho e porque estou a ser coerente. No meu programa eleitoral, todas as Juntas de Freguesia do Concelho, do PSD, subscreveram, éramos muito claros, vamos trabalhar para implementar as Áreas Integradas de Gestão de Paisagem. Estamos só a ser coerentes com aquilo que prometemos às pessoas, e às vezes esquecem-se disso.

É verdade que os incêndios têm trazido muitos problemas a Mação, de forma cíclica, mas Mação é também reconhecido a nível nacional como um exemplo de boas práticas e inovação. Como deixa hoje o território ao nível da floresta?

Em termos gerais não está melhor do que estava, como o encontrei. Sejamos claros, não está bem, está mal! Não está tão mal como em 2017 mas continuar assim, mais 4 ou 5 anos, e temos problemas. Estamos a começar um trabalho de reforma profunda da paisagem para que estes 20 mil hectares, para que melhorem. Houve algumas melhorias, de caminhos, de infraestruturas que estão a ser feitas, que estão previstas no novo quadro comunitário investimentos relevantes nessa área, mas em termos florestais, em termos concretos de intervenção propriamente dita no território, não houve alterações substanciais que me permitam dizer: fiz aqui um grande trabalho. Acho que o grande trabalho que aqui fizemos foi feito agora, com a preparação destas candidaturas, a submissão dessas candidaturas, o alocar verbas necessárias e suficientes para fazer coisas diferentes. Desse ponto de vista estamos melhor. Em termos concretos, no terreno, de forma visível, ainda não. As coisas estão agora a começar a acontecer.

A Aflomação anda a trabalhar há três, quatro meses, a começar as primeiras intervenções de melhoria, numa série de caminhos, nas AIGP que já estão devidamente aprovadas. Um trabalho que vai demorar muito tempo, mas espero que dê resultado. O trabalho terá de estar concluído até meados de 2026. Temos ano e meio, dois anos, para que se veja algo de mais concreto. Mas é um trabalho contínuo para todo o sempre, por isso deveria ter financiamento para, pelo menos, 20 anos. Não se mexe em 20 mil hectares de uma penada, quando não há meios, quando não há homens, enfim… é um trabalho dantesco que está por fazer.

E a Câmara tem muitos processos em tribunal, avançados por cidadãos maçaenses?

A Câmara não. Nem o Vasco Estrela. A Aflomação não sei, mas a Câmara em si, não tem.

É advogado e fez uso dos seus conhecimentos em prol do município, interpondo alguns casos em tribunal e que a Câmara acabou por vencer…

Colocamos um processo em tribunal, uma providência cautelar contra o Estado, nomeadamente na questão do fundo solidário da União Europeia, que vencemos. Mas se as pessoas entenderem que o recurso à Justiça, nomeadamente na defesa da propriedade privada, é o caminho, acho que o devem fazer, às vezes pode não ser possível o consenso. Não levo nada a mal, já disse a várias pessoas que não tem nenhum problema se intentarem ações conta a Câmara. Acredito na Justiça e acho que as coisas devem seguir os caminhos normais, não temos de estar sempre de acordo.

Passadiços em Ortiga/Mação. Foto: CMM

Também os passadiços de Ortiga lhe devem ter dado algumas dores de cabeça…

Sim, também me deram algumas dores de cabeça. Aconteceu uma situação que não acontecia há uma série de anos: uma cheia grande. Vamos ver quando volta a acontecer, se é este inverno se é daqui a 20 anos, não sabemos. Quando os construímos, obviamente, não havia essa perspetiva, apesar de uma ou outra pessoa dizer que poderia vir a acontecer. Foi uma circunstância que, quem aterrasse em Portugal naquela altura, pensaria que tinha sido só em Mação, só se falava nos passadiços de Ortiga, quando a montante e a jusante tinham acontecido coisas iguais ou piores. Assumo e assumi pessoalmente a responsabilidade do ponto de vista político, não me escondi atrás dos pareceres de outras entidades, dos engenheiros ou dos arquitetos ou de outras entidades autárquicas. Outra vez, quem aterrasse em Mação, nessa altura, parecia que os passadiços tinham sido construídos um dia antes, quando foram inaugurados fui só eu que lá estive para tirar fotografias sozinho.

De repente senti-me um bocadinho sozinho, com algumas exceções, de manifestações de solidariedade, como a do presidente da Junta de Freguesia de Ortiga. Realmente foram uns dias difíceis, mais uns para a história.

Mas são águas passadas

São águas passadas. Neste momento estamos a lançar o procedimento para a sua reconstrução, com uma outra reconfiguração, para evitar que aquelas situações possam vir a surgir. Concordemos ou não com passadiços – isso é outra conversa – toda a gente fala, mas lembro que os passadiços do Paiva já arderam três vezes, e vão voltar a ser reconstruídos. E não vou discutir nada mais, estou só a constatar factos. Qualquer situação que façamos na natureza pode ter consequências como o exemplo que dei.

O Tejo é imagem de marca do Concelho, com história e tradição, mas também aqui os problemas foram muitos nestes seus mandatos, em termos de qualidade e quantidade da água, mas também ao nível de espécies, como a lampreia. É uma luta constante com várias entidades?

Houve ali um período muito critico. Também tivemos uma ação relevante daquilo que era possível fazer, a denúncia da situação. Felizmente no que diz respeito à poluição a situação parece-me estar perfeitamente controlada, mas o facto é que houve muito anos de inércia e de relaxamento de diversas entidades relativamente ao que estava a acontecer. Mais uma vez, a vida é feita de factos: houve denúncias sobre determinadas empresas, houve intervenções nessas empresas e parece que as coisas melhoraram, ficaram praticamente resolvidas. Se há aqui algum nexo de causalidade ou não, cada um tirará as conclusões que quiser. A pergunta que fica é: porque foi necessário ter acontecido o que aconteceu para que a situação tivesse sido resolvida? Acho que estivemos sempre do lado da solução: a denúncia daquilo que achávamos que estava a acontecer. Tentaram também imputar-nos algumas responsabilidades por causa das ETAR da Ortiga, junto à praia fluvial. Processo que foi a tribunal e viemos a ter ganhos de causa. Tentaram que as Águas de Lisboa e Vale do Tejo tivessem alguns problemas, mas felizmente tudo se provou em sentido contrário. Foi uma circunstância difícil, também, que tivemos que ultrapassar, com consequências que ainda hoje estamos para perceber.

Com a grave crise no Serviço Nacional de Saúde, ao nível dos profissionais e do investimento, como tem sido a questão dos cuidados de saúde primários no Concelho, tranquila ou uma dor de cabeça?

Uma dor de cabeça. Estávamos, no bom sentido, mal-habituados. Conseguimos ter essa situação estabilizada. Circunstâncias de reforma e de doenças, as coisas pioraram e neste momento é uma situação muito difícil a que vivemos. Ao dia de hoje não temos um único médico de família, a única médica de família que temos, a Drª Fernanda, está de baixa, à espera de se reformar. Temos duas médicas ao serviço que não podem ter ficheiros, embora atendam as pessoas de acordo com a ordem de chegada e com as marcações feitas. Esta é a realidade do nosso Concelho. E tão ou mais grave que esta realidade é a falta de esperança e não conseguir perceber, nem ninguém me conseguir mostrar a luz ao fundo do túnel, como é que esta situação se vai resolver. Perante isto há uma grande reflexão que temos de fazer. Falar verdade, de lutarmos por um pacto de regime entre os partidos, sejam eles quais forem, para encontrarmos uma solução, com as organizações do setor, nomeadamente a Ordem dos Médicos, para percebermos o que vamos dizer a estas populações.

Porque quando lançamos um concurso como a ULS lançou muito recentemente, para 27 médicos, no Médio Tejo, e em termos gerais não temos um único médico a mais, perante isto pergunto qual é a solução? É que não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que acontece, e vai voltar a acontecer.

O que é que defende?

Não tenho solução nem sei se sou eu que tenho de ter, mas também penso sobre o assunto. Já estou um bocadinho por tudo! É obrigar os médicos? Será que isso é constitucionalmente possível? Já me disseram que não, que não se pode aplicar o que se aplica aos militares. Que não têm o mesmo estatuto dos militares da Força Aérea, e às vezes o diabo está nos detalhes. Temos todos de pensar sobre isso. Ou então dizer: não vale a pena, porque não vão ter aí médicos. Acho que é isso mesmo que no fundo se pensa e não se pode dizer. O perverso desta circunstância é que as pessoas já só olham para os presidentes de Câmara como aqueles que têm de resolver o problema da falta de médicos.

Já ninguém fala do Ministério da Saúde, nem do presidente da ULS, nem da ARS, é a Câmara que tem de resolver, sem ser uma responsabilidade dos autarcas. Mas como estamos sempre na linha da frente a tentar resolver, a dar incentivos, a fazer, a ter condições para…

Vasco Estrela, presidente da CM Mação, interpôs uma providência cautelar para incluir o município na distribuição de apoios e anunciou nova ação judicial pelo desvio de meios operacionais do terreno. Foto arquivo: mediotejo.net

Foi um erro a Câmara substituir-se ao Estado?

Claro que não foi. Se não fosse a iniciativa da Câmara, daquele incentivo aos médicos, se não fosse estas duas médicas que chegaram através de contactos meus pessoais, não tínhamos cá nenhum médico. Porque não vieram através da ULS! A ULS foi parceira, obviamente, mal fora que não o fosse, no sentido de assinar contratos, etc. Portanto, se não fosse por diligências minhas, não acontecia nada. Não tínhamos aqui um médico a não ser que a ULS conseguisse, entretanto, resolver a situação. Não quero ser injusto com a ULS porque percebo que têm imensas dificuldades, não têm médicos, mas estes são os factos. As Câmaras devem fazer parte da solução. Tenho dito que provavelmente – e não é o desejável nem aquilo que preconizo – daqui a muito pouco tempo as Câmaras vão ter de reservar umas centenas de milhares de euros para termos médicos.

Mas tipo licitação, tem médico quem pagar mais?

Não é licitação. Eventualmente contratualizar no setor privado, como outras já fazem aqui bem perto de nós. Desde que haja abertura para os exames complementares poderem ser feitos através das prescrições dessas entidades. É para aí que caminhamos.

A verdade é que na região não há setor privado capaz de dar resposta.

Mas se calhar, se surgir a oportunidade, começa a haver. Não sei como vai ser. Repito: não é isto que preconizo! No fim do dia, aquilo que as pessoas querem é o seu problema resolvido. Portanto, temos de colocar em cima da mesa todas as opções porque qualquer clínico com quem falemos – qualquer, é uma força de expressão – com uma idade relativamente jovem, não quer vir para o interior. E para eles o interior é Santarém, não é Tomar nem Abrantes, já é quase Vila Franca de Xira. Perante este cenário, o Governo, que apoio, o Parlamento, o Presidente da República, têm de dizer ao País como é que vamos resolver este assunto, e não vejo ninguém a resolver este assunto. Estamos sempre com expectativas.

Porém, especialistas, incluindo a Ordem dos Médicos, dizem não haver falta de médicos em Portugal…

Sobre isso já não sei. O que eu sei é que no meu Concelho não há médicos, ou os médicos que há não são suficientes. O que sei é que as pessoas vão de madrugada para ter consulta, não há um único médico nas seis extensões de saúde do Concelho. Já pedi à ULS, apesar da falta de recursos que temos, especialmente para a zona Norte, Carvoeiro de difícil acessibilidade, um médico uma vez por semana, disponibilizei viaturas da Câmara, além das duas que já lá temos no Centro de Saúde, antes da transferência de competências. Não sei como vamos sair disto. Se há bloqueios constitucionais, vamos removê-los! Mas há coragem política para isso? É ou não é uma emergência nacional? Há algum tabu em discutir este problema ou os senhores doutores são aquela classe que ninguém pode tocar? Parece-me que é isso!

ANEPC distingue Câmara Municipal de Mação, Vasco Estrela e António Louro. Créditos: CMM

A Câmara de Mação trabalhou para ter médico através do projeto ‘bata branca’ e também estabeleceu um protocolo com a Fundação Álvaro Carvalho para operações às cataratas. Quanto é que isso custa?

Não sei quanto vai custar. Para já custou mais de 6 mil euros, das primeiras pessoas que já foram operadas. As coisas correram bem, as pessoas estão satisfeitas e já recebemos a fatura e vamos pagar. Houve da nossa parte uma proatividade importante, agradecer muito ao dr. Álvaro Carvalho e à sua Fundação. Fomos contactados pela Fundação através de um amigo comum e ajudamos a resolver um problema também da ULS Médio Tejo, devido às listas de espera, aliviamos os recursos financeiros do SNS e ajudamos a nossa população. Felizmente, como há pouco disse, temos algumas condições financeiras para ter este tipo de iniciativas. É um bom caminho que estamos a seguir.

Há pouco falou na coesão territorial, acha que a região tem falta de investimento público ou pelo menos não tem aquele que merece. Onde deveria ser a aposta da administração central?

Sempre disse que os anteriores governos do Dr. António Costa colocaram o problema do interior e da coesão territorial em cima da mesa e acho que esse crédito deve ser referido. Obrigaram, pelo menos, o País a falar sobre esse assunto e hoje fala-se mais do que se falava à data. Até porque aconteceu a tragédia de Pedrógão e fez despertar algumas consciências de que havia gente a viver por aqui. Mas as ações concretas que foram tomadas e as medidas de incentivos à fixação de pessoas, de jovens nas universidades, dos médicos, das próprias empresas, tenho muitas dúvidas que tenham dado resultado porque os Censos de 2021 não demonstram isso, bem pelo contrário. Ou seja, hoje olhamos para os dados da colocação de jovens nas universidades do interior, onde até têm benefícios para estudarem lá, e vemos que esses lugares ficam desertos. Há alguma coisa que não está a correr bem! Vemos grandes investimentos anunciados para o País e raramente vemos um no interior. Ainda esta semana tivemos o anúncio de um grande investimento da Lufthansa, no Norte, em Santo Tirso. Sabemos que é muito difícil trazer investimento privado porque o investidor é dono do seu dinheiro, portanto investe onde quer, mas as políticas direcionadas para os territórios do interior têm de ter uma diferenciação positiva, mas que seja realmente positiva, muito relevante. Não é meia dúzia de diferencial percentual de IRC que faz valer a diferença.

Além disso, criamos uma espiral muito negativa, do ponto de vista do discurso, eu também me culpabilizo por isso, de estigma em relação ao interior: não há empresas, não há gente, não há gente não há empresas, criamos uma série de entropias.

Mas o investimento público pode ou não alavancar o investimento privado?

É uma realidade! Temos alguns bons exemplos nessa matéria, nomeadamente Évora, Ponte de Sor, ambos com os clusters de aeronáutica, a Covilhã com a universidade, o Fundão, e vamos tendo aqui e ali alguns bons exemplos, mas são poucos para aquilo que era a intenção. Temos de aprender com aqueles que fizeram bem, perceber quais foram as mais valias incorporadas para tentar ao máximo replicar isso. Este Governo vai ter uma medida importante do IAPMEI. Deviam ter estruturas próprias para os territórios do interior e para vender os territórios do interior no estrangeiro e não só. Perceber que entidades públicas é que podem ajudar a alavancar outros investimentos para o interior. Mas temos um problema, lembra-se quando no passado tentámos descentralizar serviços? Foi um ai Jesus! Nem o Infarmed conseguiu ir para o Porto. Esta máquina do Estado e os senhores funcionários públicos não querem mudar, são forças de bloqueio, são estruturas muito difíceis de mudar, porque estão bem assim! São feitas de pessoas que também não querem mudar, têm os seus locais, a sua vida, e acho bem que tenham, mas podemos através de outras pessoas tentar replicar isso.

Santana Lopes, que foi primeiro-ministro em 2004, teve uma ideia que toda a gente achou muito absurda, mas era uma ideia simbólica da descentralização dos ministérios. Não iria resolver problema nenhum na Golegã, mas era um sinal. É uma daquelas questões que obriga a um enorme esforço de toda a sociedade, para tentar resolver.

Portanto, na sua opinião a coesão territorial não avança por falta de vontade, é isso?

Também temos de ver que este não é um problema só de Portugal, é um problema europeu. A União Europeia caminha muito para a urbanização e bem sei as dificuldades que existem para os municípios mais pequenos terem dinheiro para a requalificação urbana, porque é entendimento de Bruxelas que aqui não há nada de urbano para requalificar e em Abrantes há. O entendimento é: deve-se investir onde estão as pessoas, qualidade de vida, smartcities, mobilidade. O problema é que as políticas estão muito direcionadas para a política urbana e contrariar estas dinâmicas nem sempre é fácil. Na teoria toda a gente acha que sim, mas depois, quando as coisas começam a ser discutidas, não. Acresce o facto, está escrito, que aquilo que diz respeito aos fundos de coesão que ajudavam a mitigar muitos problemas e ajudavam a vir muito dinheiro para estes territórios, a partir de 2027/2028 vão acabar. Os problemas podem até vir a agravar-se.

O País tem de pensar que vamos ter de conviver com dezenas e dezenas de aldeias sem uma única pessoa, como já há no Concelho de Mação e nos concelhos à volta. É o caminho que quisemos escolher e depois não nos podemos escandalizar daquilo ser vandalizado e de ser pasto para incêndios. Um caminho que sinceramente também não vejo solução à vista. Há claramente uma tendência dos investimentos irem para o Litoral e para os grandes centros urbanos.

Foto: mediotejo.net

Acha que a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo podia ter um papel mais reivindicativo, ou não tem porque todos os presidentes de Câmara são eleitos pelos partidos do poder: PS e PSD?

Acho que a Comunidade desempenha o seu papel. Não tem de ter um papel de força, de revindicação, de estar sempre contra tudo e contra todos. Acho que nos momentos fundamentais e naquilo que diz respeito às grandes questões da região, a Comunidade tem tido um papel importante. Mas também temos de perceber que a Comunidade é composta por políticos de vários partidos e há muitas vezes sensibilidades que têm de ser tidas em conta. Isso não nos deve inibir de criticarmos o nosso partido, como já critiquei o meu e os outros também já criticaram o deles, não é isso que está em causa. Acho que de uma forma geral a Comunidade tem defendido o interesse das populações. Reivindica-se algumas vezes, mas têm-se tentado privilegiar os canais de diálogo. Muitas vezes isso não chega, daí algumas tomadas de posição pública por parte da CIM como foi por exemplo na questão do Tejo e mais recentemente na questão dos médicos e dos concursos, acho que temos tentado dizer aquilo que é a nossa posição.

Mas quando a Comunidade Intermunicipal fala tem de perceber que está a falar em nome de 11 [municípios], e às vezes os problemas não são de uma forma transversal para todos. Tem de haver algum bom senso, não podemos banalizar a revindicação.  

Na região, alguns partidos tradicionais têm vindo a perder terreno e posição na oposição, como por exemplo o PCP, o BE ou o CDS. No Mação, o executivo municipal não se confronta com essa realidade, nem mesmo com movimentos independentes. Mas teme, no que toca à gestão do Município, a eleição de vereadores do partido Chega? Pergunto isto porque na região executivos viram impedidas medidas importantes, como a habitação a custos acessíveis, por vereadores desse partido (e não só), como foi o caso do Entroncamento.

Não devo temer a democracia. Se algum elemento do partido Chega for eleito para a Câmara ou para a Assembleia Municipal, foi por vontade expressa do povo. Podemos discutir o que terá levado as pessoas a tomar esse tipo de decisões quando algumas posições do Chega, do meu ponto de vista, são inaceitáveis. Não devemos crucificar o “mensageiro”, mas devemos perguntar porque é que a mensagem chegou a esse mensageiro, ou seja, o que leva as pessoas a ir atrás de um discurso populista, onde vale quase tudo. Não ficaria surpreendido se na região e no País houvesse um maior número de eleitos do partido Chega, mas não sei se há nesse partido sustentabilidade suficiente para que se torne um partido de regime, no sentido de vir a médio e longo prazo a assumir lugares de destaque, quer no Parlamento quer no poder local. Tenho algumas dúvidas que isso venha a acontecer. Mas não devemos diabolizar os cidadãos e cidadãs que venham a ser eleitos pelo partido Chega, têm as suas opções, concordemos ou não com elas.

O pior que podemos fazer é estar a estigmatizar e a rotular aquelas pessoas. Geralmente isso volta-se contra quem o faz. A questão é: vamos ou não normalizar o partido? Como sou um democrata entendo que, se as pessoas foram eleitas, até prova em contrário, é porque os cidadãos quiseram que fossem eleitas.

Então acha que marginalizar a extrema-direita é mau para o sistema político?

Não percebo o que ganhamos em marginalizar, em dizer que aquelas pessoas estão fora do regime. Só se eventualmente fossemos à Constituição da República Portuguesa, como algumas pessoas já tentaram, e declarar o partido inconstitucional. Se esse for o entendimento dos juízes do Tribunal Constitucional…mas se o partido tiver posições que atentem contra a Constituição da República Portuguesa obviamente que aí devem ser tomadas medidas. Espero que o País tenha uma democracia suficientemente madura, e acho que tem, para que isto normalize.

O presidente também acha que se trata essencialmente de um voto de contestação?

Se os partidos tradicionais conseguirem dar resposta a muitos dos problemas que fomos falando, se calhar esvaziamos aquele balão. É normal, confrontadas com a falta de médicos, que as pessoas se agarrem àqueles que dizem uma coisa qualquer, inclusivamente que resolvem, sabendo que não vão resolver porque nunca lá vão chegar.

Reunião da Câmara Municipal de Mação. Créditos: mediotejo.net

Convidaria alguns dos vereadores da oposição para trabalhar consigo?

Tive boas relações com vereadores da oposição, com o Nuno Neto, com o r. Manuel Serras que esteve comigo, não como vereador, mas éramos colegas na vereação, para dar dois exemplos. De uma forma geral tive boas relações com os vereadores, pessoas de qualidade. Mas não estou a dizer que os convidava.

Que critica lhe merece a classe política do Concelho?

Não me merece nenhuma critica particular. Fui sempre compreendendo as situações, umas vezes de forma mais exagerada, outras menos. Fez parte do jogo político. Em 2005, entraram num campo um bocadinho complicado, quase de ofensa pessoal, uns blogues, umas coisas. Mas depois deu o resultado que deu nas urnas. De uma forma geral, de todas as partes, houve respeito democrático.

Passados estes anos, a delegação de competências foi ou não um presente envenenado?

Os presentes às vezes têm uns sabores meio estranhos. Há de facto virtudes nestas delegações de competências. No caso concreto da nossa Câmara, em particular na Educação, houve a assunção de muitas responsabilidades, agora no papel, que, de forma mais ou menos informal, já tínhamos. Em termos de deve e haver, financeiramente, ainda estamos um bocadinho longe, nomeadamente na área da Educação, e já fizemos chegar isso a quem de direito, daquilo que são os dinheiros que devem ser transferidos para a Câmara em fruto do rácio dos assistentes operacionais, mas acho que no fim do dia vai ser benéfico para as populações. Ainda estamos a passar por um período de transição, onde as coisas ainda não estão suficientemente oleadas, mas acho que as populações vão ficar a ganhar.  

A região do Médio Tejo tem recebido cada vez maior número de imigrantes. No seu Concelho, tem esses números?

Sim. Cada vez maior número de imigrantes. Ainda esta semana em conversa com o diretor da Escola dizia que chegaram mais 3 ou 4 alunos de nacionalidade angolana. Não tenho aqui os números concretos, mas já estamos com umas dezenas de alunos que chegaram nos últimos tempos, em ano e meio, ao nosso Concelho. Isso também é fruto da falta de mão de obra que se verifica em alguns setores, faz com que as pessoas venham em busca de trabalho e de melhores condições de vida.

Estão todos a trabalhar? Em que áreas? E o que pensa deste multiculturalismo?

Grande parte dessas pessoas estão a trabalhar, não tenho conhecimento de fenómenos que possam configurar exclusão social e problemas sociais de gravidade extrema. Falo na área da construção civil, florestas, IPSS, lares e também no setor das carnes. O multiculturalismo é um sinal dos tempos. Se as pessoas do nosso Concelho ou dos concelhos limítrofes não respondem às necessidades dos nossos setores económicos, para o dinamismo económico do Concelho, a imigração tem de continuar. Não podem as IPSS fechar as portas e mandar os idosos fora por não haver mão de obra, têm de recorrer às pessoas que estão disponíveis para trabalhar, desde que cumpram os requisitos. Não vejo a imigração como nenhum mal e devemos integrar essas pessoas com a melhor das boas vontades, sabendo elas que têm de respeitar as regras do nosso País, como os nossos emigrantes respeitam as regras dos países onde estão. Somos um País de emigrantes, mal seria que nós, que estamos espalhados pelo mundo, fossemos pôr barreiras. Mas temos de ter regras e não pode ser simplesmente um “bar aberto”.

A habitação é um problema nacional. Em décadas não houve políticas de habitação. Sobre a Estratégia Local de Habitação, como se está a desenvolver no Concelho?

Neste momento temos um concurso com dois blocos de apartamentos, 28 habitações, mais a requalificação de dois apartamentos da Câmara, portanto são 30 fogos para arrendamento a custos acessíveis. Além disso, temos a expectativa de na Estratégia Local de Habitação a construção de mais oito fogos para famílias mais carenciadas. Além de, em Cardigos, termos perspetivado construção de mais cinco fogos para responder às necessidades de famílias vulneráveis.

E pode ou não correr o risco da habitação a custos acessíveis não ser uma realidade, pela falta de mão de obra, de empresas que se candidatem aos concursos públicos?

Já tivemos dois concursos no que diz respeito à extensão de saúde de Cardigos, temos agora a perspetiva de conseguir resolver esse problema. Quanto aos outros concursos estamos agora a iniciar. Mas temo essa realidade, claro que sim! É um problema com que todas as Câmaras se confrontam, que o País se confronta, não haver mão de obra disponível para levar por diante esta tarefa.

Gravura de cavalo em estilo Paleolítico (15.000 – 10.000 anos). Foto: mediotejo.net

Mação tem apostado muito na Cultura e na Educação, a par de projetos de investigação internacionais na arqueologia, sendo o vale de Ocreza um manancial de achados pré-históricos, desde a famosa gravura do cavalo do Ocreza. É uma aposta de afirmação do Concelho pela diferenciação e afirmação pelo conhecimento?

Acho que sim. Esta aposta foi iniciada no tempo do presidente Saldanha Rocha e foi uma boa aposta. Um fator, claramente, diferenciador que existe na região e um bom exemplo daquilo que deve ser feito. Nós fazemos nesta área e outros farão noutras áreas, até porque a gravura só foi descoberta aqui e não noutro sítio, portanto não vale a pena inventar. Mas a grande virtude que aqui existe, existiu sempre, foi de facto saber aproveitar esta mais-valia da arte rupestre na vertente do ensino, do estudo e da investigação. Quem chaga ao Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo até fica um bocadinho dececionado, mas o Museu é muito mais, conforme bem sabemos. Com aquilo que conseguimos transmitir em conhecimento ou do conhecimento que aqui é transmitido, não pela Câmara, mas pelo Instituto Terra e Memória e pelo Instituto Politécnico de Tomar e as variadíssimas universidades internacionais que estão associadas a este projeto de dimensão internacional.

E o turismo, o Concelho tem sabido posicionar-se em termos turísticos?

Temos tentado fazer a nossa parte, dinamizando as nossas praias fluviais, tentando tirar partido do nosso território, apoiando de forma muito consciente as Rotas [de Mação], tentando valorizar as margens do rio Tejo como há pouco falámos, se calhar não com o sucesso que gostaríamos, tirar um bocadinho partido da nossa paisagem, os miradouros. Vamos também iniciar no próximo ano a requalificação e construção do miradouro da Serra de Santo António, na zona do Freixoeiro. No fundo dar uma dinâmica territorial com integração das Rotas em vários pontos que são fulcrais do nosso Concelho. Nem sempre o setor privado tem respondido da forma que desejaríamos. Gostaria que tivesse havido mais investimento na área restauração e da hotelaria. A Câmara faz vários eventos durante o ano, traz a Mação um conjunto significativo de pessoas e muitas vezes sentimos um défice, o que é uma pena. Não ganham os nossos, ganham os de outros concelhos.

Dos números que tem, se existisse esse investimento privado, seria sustentável?

Suponho que sim, por aquilo que me é dado a perceber. Mas quem faz este tipo de investimentos têm de fazer uma análise de mercado e não pode estar a contar com os 9 ou 10 eventos que a Câmara faz por ano e tem de fazer pela vida. Ninguém viria a Mação se fosse um hotel normal, com 4 paredes. Provavelmente temos aqui motivos e edifícios quiçá que pudessem servir para ter hotéis com algum fator diferenciador e conjugar isso com os nossos eventos. Até poder-se-ia fazer parcerias para dinamizar o setor hoteleiro. O que sei é que os alojamentos locais e os hotéis que temos estão muito satisfeitos com a taxa de ocupação que têm tido, nomeadamente no verão, o que é um bom sinal.

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, cumpre o seu último mandato à frente da autarquia. Créditos: mediotejo.net

Por falar em emprego. Apresenta-se como o maior problema para a fixação de jovens no território ou há outra causa? Quais são as oportunidades que podem fixar os jovens em Mação?

Os jovens têm de se fixar onde há empresas, onde há postos de trabalho, ou na administração pública ou então com a criação do próprio negócio, o que tem acontecido, felizmente, no concelho de Mação, nalguns casos. O que temos feito é a identificação desses jovens para as oportunidades que vão surgindo, pelas empresas e IPSS que estejam interessadas em recebê-los. Cada vez que algum investidor tem falta de trabalhadores pergunta sobre a mão de obra disponível. E tentamos sinalizar através do gabinete de inserção profissional e também através dos contactos que temos com esses jovens, que há essa oportunidade. Também é bom não esquecer que os jovens quando vão para o ensino superior começam a fazer as suas vidas e os seus contactos onde estão, e às vezes são os próprios que não querem regressar.  Mas foi isso que fizemos, quer no investimento na área da cannabis, como no investimento que vai surgir agora na área dos presuntos, rececionamos os currículos das pessoas, não somos nós que fazemos a seleção, e disponibilizamos esses currículos aos investidores para poderem escolher. Pessoas que reúnam os requisitos que procuram e preferencialmente do nosso Concelho.

Mas temos de perceber que se Mação forma por ano, no ensino superior, entre 30 a 40 jovens. O Concelho não absorve essas pessoas todas, nem os concelhos à volta, só em Abrantes são 300 por ano. A realidade, infelizmente, é esta.

Então como se estanca esta sangria demográfica?

Só se estanca com oportunidades nos próprios locais. As oportunidades vêm claramente do investimento privado através, obviamente, das pessoas que investem, em complemento com o investimento público, e tentar de uma forma conjugada que as pessoas possam ter aqui oportunidades. Há questões de muito difícil resolução. Quando os últimos censos indicam 31 concelhos do País a não perder população e o mais perto de nós é Benavente, não quero crer que os presidentes de Câmara sejam todos incompetentes. E Benavente só não perdeu porque é um dormitório de Lisboa.

Portanto, a desertificação e o envelhecimento populacional também são um problema à sustentabilidade de um território com cerca de 400 km2 e cerca de 7 mil pessoas espalhadas por 120 aldeias e vilas.

Claramente. Digo isto desde que entrei. É o grande problema destes territórios. Criam problemas de sustentabilidade do território muito complicados de resolver. De sobrevivência das próprias terras e de disponibilização de recursos para essas mesmas pessoas. Temos de dar resposta às pessoas enquanto, felizmente, estão vivas. Isso tem consequências no Serviço Nacional de Saúde, pressão sobre as IPSS e serviços de ação social da Câmara. Por outro lado, também pode representar oportunidades de trabalho porque as pessoas mais vulneráveis precisam de ser acompanhadas.

Como vê a dinâmica da sociedade nos diversos setores, seja associativismo, cultura, desporto e outros?

Acho que estamos relativamente bem para um concelho da nossa dimensão e com as nossas características. O movimento associativo é um movimento com relevância, tem pessoas voluntariosas a puxar pelas suas terras e pelo desenvolvimento do seu Concelho. Da nossa parte temos tentado ajudá-las dentro do possível. Há boas gentes a fazer boas coisas. Em termos culturais também. De uma forma geral as associações culturais têm-se mantido estáveis, sem grandes problemas dos órgãos sociais, o que às vezes são fatores para que as coisas a seguir corram menos bem.

Nas associações aqui e ali já se vai notando alguma dificuldade para encontrar pessoas para fazer parte das listas, sabemos que têm de dar muito do seu tempo para que as coisas corram bem e muitas vezes são maltratadas e incompreendidas. Mas de uma forma geral, o concelho está saudável desse ponto de vista.

O presunto da Marca Mação. Foto: mediotejo.net

Há pouco falou num novo investimento na área do presunto, Mação é conhecida como a Catedral do Presunto, com produções ancestrais de grande qualidade reconhecidas, em boa medida, pelo saber fazer e, no passado, pelo seu microclima. Como está hoje a dinâmica do setor?

Também está estável. Já houve momentos mais complicados, os momentos de maior turbulência já passaram. Houve algumas readaptações em termos de estruturas das empresas, dos seus acionistas, vendas, cessões de posições, um ou outro investimento novo que se está a perspetivar, um deles muito relevante, já foi aprovado em reunião de Câmara e Assembleia Municipal. Acho que é um setor, passada uma fase muito complicada há 4 ou 5 anos, que tem todas as condições para continuar a florescer no nosso concelho, há razões para acreditar que o setor vai continuar a ser uma referência.

Os maçaenses são conhecidos como os maçanicos, num concelho com muita história e figuras de vulto que ajudaram a construir uma identidade muito própria. Como define as gentes de Mação e que mensagem gostaria de formular, não só para 2025 mas para o futuro? 

É uma gente muito trabalhadora e muito resiliente. Também muito apegada àquilo que é seu e bairrista. A mensagem é só uma: devem continuar a lutar sempre pelos seus interesses individuais, mas tentar também pensar no interesse coletivo. Quando entrei para a Câmara tive uma preocupação e reconheço que não consegui atingir esse objetivo, de que as pessoas tivessem um grande orgulho em serem do Concelho de Mação. E que qualquer resultado positivo que acontecesse numa qualquer freguesia, fosse motivo de orgulho para todos e não motivo de alguma inveja, que houvesse uma identidade concelhia forte. Acho que não consegui que esta mensagem passasse de forma suficientemente forte, capaz de ser rececionada pelas pessoas. Gostaria que no futuro pudessem ter orgulho no Concelho como um todo e não só na minha terrinha ou freguesia. Todos temos a ganhar com isso.

Arrepende-se de alguma coisa? Se fosse hoje fazia tudo de novo?

Não. Arrependo-me de muita coisa. Arrependo-me de muitas decisões que tomei. Não tenho uma decisão que considere ter sido catastrófica. Também sei que essas decisões não tiveram prejuízos relevantes para nada nem para ninguém, até algumas foram mais prejudiciais para mim do que para outros. Faria diferente.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comment

  1. Por acaso dei pela entrevista no próprio dia em que foi efectuada. Além de extensa retrata com bastante fidelidade os problemas do passado, do presente e do porvir. Dá a entender vs compreender a quem está de fora as dificuldades enfrentadas no passado e no presente e como algumas foram ou estão a ser remediadas por falta de solução definitiva. Mas compreender é diferente de sentir. Só quem passa por elas é que verdadeiramente sabe dar o valor ao esforço feito que em grande parte dos casos é excessivo para os resultados alcançados. Mas para alcançar é imprescindível tentar e nem sempre se consegue. Bastante foi feito, mas …. nem todas as batalhas foram vencidas o que tb é normal. O território tem potencialidades adormecidas. Recursos múltiplos: naturais e culturais. Flora, fauna e recursos hídricos a clamar por exploração. Mas é um trabalho para para todos, ainda que sejam uns a puxar e os restantes a apoiar. Só uma participação colectiva, empenhada ousada e ambiciosa conduzirá ao almejado sucesso. De resto o Dr. Vasco deixa uma marca de honestidade e imparcialidade que é de enaltecer. Que tenha o que merece. Mação continuará Mação. Nós por cá ….

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