Da curiosidade e vontade de dois ortiguenses em conhecer, perpetuar e registar para memória futura os factos sobre os militares da freguesia de Ortiga e do concelho de Mação que participaram na Primeira Guerra Mundial, surgiu um livro inédito que exalta a figura do maçaense João Gaspar, guarda do Cemitério Militar Português de Richebourg L’Avoué, nomeado para um cargo que desempenhou por 35 anos. Além disso, José Carlos Durão e Sérgio Durão quiseram, em quatro anos de investigação, reunir informação sobre as gentes da sua terra para homenagear os portugueses que tombaram ao serviço do país.
José Carlos Durão, especialista na área do Direito Administrativo, é um dos autores deste livro, que foi precisamente apresentado em dia de aniversário, nos 107 anos da chegada do Regimento de Infantaria nº22 a França. A palestra, a 3 de fevereiro, permitiu evocar os militares do concelho de Mação que participaram e tombaram na I Guerra Mundial e o livro “é um contributo humilde que damos para a história e memória das nossas gentes, da nossa terra”.
A figura do combatente João Gaspar vai para além das fronteiras da sua aldeia, crendo os autores, unidos pelo gosto por esta matéria militar, que tem projeção internacional além da nacional. Foi guarda do cemitério de Richebourg 35 anos e por isso conservador de 1831 militares, o total de sepultados, durante esse período.

“Merece que tenhamos este gesto. Até porque o Cemitério Militar Português de Richebourg passou a ser um dos vinte lugares de memória I Guerra Mundial que foi classificado Património Mundial da Humanidade pela UNESCO em setembro de 2023″, recordou Sérgio Durão.
João Gaspar nasceu a 17 de janeiro de 1894, na aldeia da Serra, em Penhascoso. Pertenceu ao Regimento de Infantaria nº 22, na 5ª Companhia, tendo sido atirador de 1ª classe. Foi combatente na primeira linha das trincheiras, tendo sido ferido em combate por gás asfixiante na noite de Santo António. Era seu comandante António Granjo. Integrou a Comissão Portuguesa de Sepulturas de Guerra que tinha por função identificar, localizar os corpos durante cerca de oito anos, tendo feito parte desde o início desta comissão.
Foi desmobilizado em 1927 e ficou em França porque foi nomeado guarda do Cemitério de Richebourg, e assume as funções nesse ano, terminando em 1962. Segundo os autores, mediante a sua investigação, esteve ausente três anos por motivos de saúde, tendo sido substituído provisoriamente do cemitério.
Regressou a Portugal no final dos anos 60, e faleceu em março de 1979, aos 85 anos, na aldeia natal, Serra, em Penhascoso.
“Sai de Portugal com 23 anos, e regressou cinquenta anos depois. E todo o período que esteve em França foi ao serviço de Portugal”, releva José Carlos Durão.

Conforme Decreto-Lei n.º 44034, do Ministério do Exército – Repartição do Gabinete, datado de 16 de novembro de 1961 e assinado pelo então Presidente da República, o último do Estado Novo, Américo Tomás, pode ler-se sobre a proposta de atribuição de “uma pensão de reforma adequada” ao “actual guarda e único serventuário do cemitério português de Richebourg l’Avoué, em França, com mais de 40 anos de bons serviços e quase 70 anos de idade”.
“Será reformado, com a pensão mensal de 2500$00, o guarda do cemitério português de Richebourg l’Avoué, em França, João Gaspar, nascido em 17 de Janeiro de 1894, no lugar da Serra, freguesia de Penhascoso, concelho de Mação, o qual continuará no exercício das suas funções até ser substituído”, lê-se seguindo a abertura de concurso para novo guarda “a prestar serviço no mesmo cemitério, onde se encontram sepultados os restos mortais de militares portugueses que tornaram parte na grande guerra de 1914 a 1918” e que ficaria encarregue da “conservação, vigilância e manutenção, directamente subordinado ao adido militar junto da Embaixada de Portugal em Paris”.
O livro está dividido em três partes, dedicado ao Cemitério de Richebourg, outra sobre João Gaspar e anexos relativos ao cemitério e a João Gaspar.
“É uma edição da associação Os Amigos da Estação de Ortiga. O livro tem o preço de 10 euros, não visando lucro e o trabalho intelectual foi um donativo dos autores. O intuito é suportar os custos da editora e reverter o investimento da associação, permitindo continuar a promover iniciativas deste tipo”, sublinha o autor.

Sobre o Cemitério Militar Português de Richebourg – L’Avoué abordaram os autores a situação das sepulturas de guerra portuguesas e a criação da Comissão Portuguesa das Sepulturas de Guerra em 1919.
Quanto à criação do cemitério, decorreu de decisão política em julho de 1921, mas só em setembro de 1922 se iniciaram os trabalhos, tendo sido inaugurado em outubro de 1922.
Foi ainda mencionado Joaquim Sobreira da Silva, soldado natural de Cardigos, foi o quinto militar a ser sepultado naquele cemitério militar português em França.
Aborda-se ainda a renovação do cemitério na década de 30 e o levantamento da concentração dos corpos, tendo-se contado 1831 militares portugueses sepultados no ano 1937 (ano da última contagem), sendo que 238 são desconhecidos.

“É uma referência mundial” segundo Sérgio Durão, presidente da direção da Associação Os Amigos da Estação de Ortiga e um dos investigadores e organizadores da palestra evocativa dos militares maçaenses na I Guerra Mundial.
“O primeiro guarda do Cemitério Português Militar de Richebourg é do concelho de Mação, e isso ninguém nos tira”, garante Sérgio Durão, frisando que este “é o primeiro livro que aborda o militar maçaense João Gaspar e dedicado ao Cemitério Militar Português de Richebourg e onde nós identificamos claramente quem foram os guardas. Porque até nos próprios documentos falam em três guardas, e nós conseguimos provar que foram quatro. Porque o João Gaspar, infelizmente, pelos gases que apanhou em combate, esteve retirado de funções perto de dois a três anos. Mas contratou-se outro militar, também português, que na altura assumiu as funções de João Gaspar enquanto esteve em recuperação”.
“A informação é credível, deu-nos mesmo muito trabalho, o livro é pequeno mas com informação única. Houve documentos que praticamente fomos os primeiros a aceder desde que vieram de França”, indica.





Sérgio tem raízes em Ortiga, mas reside e trabalha no Algarve, mas está à frente da presidência da direção da associação da sua terra natal, que tem por hábito a realização de iniciativas de diversa índole, desde desportivas, de lazer, culturais e gastronómicas. Neste sentido explica que o livro tem um valor simbólico pelo facto de ter sido suportado pela associação sem fins lucrativos e que pretende apenas ter retorno do valor investido na edição.
O investigador, que afirma ter feito este trabalho por gosto ainda que também tenha tido percurso militar, tendo estado na Bósnia-Herzegovina, entende que deve ser corrigida a postura perante os combatentes portugueses na Grande Guerra, crendo que há muita informação ainda por descobrir e que as instituições deveriam preservar melhor a memória.
“Se todos nós formos construindo, e se todos os concelhos forem fazendo isto, penso que a História vem ao cimo e aparece o valor do português”, afirma, defendendo “os bravos homens” que participaram na guerra.
Da investigação levada a cabo foram destacados ainda três soldados do concelho de Mação: Manuel Marques (condecorado), José de Oliveira (prisioneiro de guerra) e Joaquim da Silva Sobreira (primeiro combatente do concelho de Mação a falecer na I Guerra).
Manuel Marques, da localidade de Serra, no Penhascoso – mesma aldeia de onde era natural João Gaspar – pertenceu ao Regimento de Infantaria nº 22, foi atirador de 1ª classe da 6ª Companhia. Tinha aptidão como telegrafista, embarcou para França a 20 de janeiro de 1917, desembarcou em Lisboa a 28 de maio de 1919. Recebeu louvor pelo comandante do CEP e foi condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª Classe (a Cruz de Guerra é a terceira mais alta condecoração do Exército Português) para premiar atos e feitos de bravura praticados em campanha. Regressou a Portugal, casou e veio a falecer em 1974, estando sepultado no cemitério de Penhascoso.

José de Oliveira, soldado maqueiro da 7ª Companhia de Saúde em França, pertencia à Companhia de Transporte de Feridos nº2. Embarcou para França em abril de 1917, desembarcou em Lisboa a 18 de janeiro de 1919. Natural de Ortiga, foi feito prisioneiro pelas tropas alemãs a 9 de abril de 1918, na Batalha de La Lys, na aldeia de Vieille-Chapelle. Esteve nove meses no campo de concentração de Friedrichsfeld, na Alemanha. Veio a falecer aos 80 anos, a 2 de setembro de 1972, na localidade de Barreiras do Tejo, em Abrantes e encontra-se sepultado no cemitério do Cabacinho, em Abrantes.
Em Ortiga era conhecido por José de Oliveira Fontes ‘Bailarico’ – alcunha que permitiu que fosse reconhecido por familiares e conterrâneos e que utilizou como código para se identificar quando preso pelas tropas alemãs.
Segundo os autores, a comunidade recorda que, quando este antigo combatente passava em Ortiga junto à escola, as crianças à sua passagem metiam-se com ele e proferiam “Às armas!”, situação que deixava o homem transtornado, demonstrando o stress pós-traumático que os militares traziam da guerra. Isolou-se e tornou-se pastor quando retornou, altura em que foi batizado por Fontes em Ortiga, mantendo a alcunha Bailarico da parte da família.
Por seu turno, Joaquim da Silva Sobreira, natural de Cardigos, foi o primeiro militar do concelho a falecer no combate em França. Pertenceu ao Regimento de Infantaria nº22 e embarcou para França em janeiro de 1917. Era o soldado nº320 da 5ª Companhia. Foi ferido em combate a 1 de julho de 1917, tendo acabado por falecer na mesma data, uma semana após ter completado 25 anos.

Foi sepultado no cemitério de Merville, e em 1922 foi trasladado para o Cemitério Militar Português de Richebourg, onde estão sepultados 1831 portugueses. Os investigadores visitaram a campa de Joaquim da Silva Sobreira, no talhão A, fila 8, coval 19.
Integra o grupo de outros soldados que tombaram na I Guerra Mundial, e cujos nomes constam do Monumento aos combatentes da Grande Guerra, no Largo dos Combatentes em Mação, nomeadamente Joaquim da Silva (Amêndoa), António da Silva (Mação), António Antunes (Amêndoa), Agostinho Martins (Cardigos), Manuel Dias Grande (Penhascoso) e Francisco Moleiro (Ortiga).
Durante a palestra foram deixados dados referentes aos militares do concelho de Mação, mas também de outros concelhos da região, que integraram o Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial e que seguiam nomeadamente no Regimento de Infantaria nº22.
Mário Tropa referiu que fez levantamento e pesquisa sobre os soldados da aldeia de Castelo, em Mação, com base em documentação e experiência do seu tio-avô, irmão do avô materno, que combateu na I Guerra Mundial.

Diz que desde cedo conviveu com este tema, pois o seu tio “guardava e escrevia tudo” e até porque herdou as cartas que este trocava com os pais e um diário da guerra, algo que auxiliou a publicação de um livro que irá para a segunda edição brevemente. Mário Tropa diz ter confirmado através dessa correspondência a presença de muitos soldados do Castelo na guerra, o que auxiliou na pesquisa.
Por outro lado, o diário do tio tem relatos na primeira pessoa sobre a experiência da participação na guerra, algo que acaba por ser inédito.
O orador e historiador apresentou alguns dados, nomeadamente sobre os soldados mobilizados das freguesias no Corpo Expedicionário Português (CEP), confirmando que saíram do concelho um total de 226 soldados: 9 de Aboboreira; 24 de Amêndoa; 31 de Cardigos; 28 de Carvoeiro; 32 de Envendos; 61 de Mação; 10 de Ortiga; 30 de Penhascoso.

Mário Tropa deixou o apelo para que “não se deite fora a documentação”, o que permite pesquisa e registo para memória futura sobre as pessoas e os lugares, sendo um património que importa preservar e que, de outro modo, se perde para sempre.
Abordou a forma como se encontrava distribuído o Sector Português na frente, na Batalha de La Lys a 9 de abril de 1918, junto ao rio, e abordou as baixas de 614 oficiais e sargentos e praças, com um número bem mais elevado dos que foram presos em cativeiro (6585). Em cativeiro faleceram 233 militares.
O seu tio-avô estava a dirigir as oficinas automóveis do Exército Português e circulava por toda a zona portuguesa e inglesa, tinha autorização para passar e conhecia bem o que ali acontecia. Nunca esteve muito tempo na frente de batalha, ia e voltava, mas foi o único soldado do Castelo que sofreu com o gás. “Nunca dormia deitado, tinha que dormir sentado. Porque sufocava. Só de respirar o ar com gás, casualmente. Agora imagino os outros que estavam nas trincheiras, ainda por cima o gás era mais pesado que o ar, depositava-se nas trincheiras”


O retorno dos soldados com as famílias sem saber como estavam e a que se referiam na correspondência, porque as notícias eram censuradas. “De repente, começaram a surgir e a virem depois do Armistício doentes, muitos com problemas respiratórios, muitos traumatizados… como é que as famílias depois receberam este choque e como reagiram… O mesmo aconteceu com a Guerra do Ultramar em que chegam a casa muitos da minha geração que estão completamente com os nervos em franja, estropiados, mas conseguiram o levantar da moral desses soldados”
Já o professor e historiador António Alpalhão apresentou a viagem do Regimento de Infantaria nº 22 e o caso de Abrantes, conforme a sua obra publicada “Memória Abrantina da Grande Guerra”.
Neste dia de aniversário da viagem do Regimento de Infantaria nº 22 para França, no primeiro contingente, e dando algumas referência sobre o primeiro confronto três semanas depois de estarem nas trincheiras, na noite de Santo António, de 12 para 13 de junho de 1917, onde ocorreram grandes baixas e o batalhão teve que ser completado com companhias vindas do Regimento nº 28 da Figueira da Foz.

Falou no facto de a guerra não ter sido consensual, e na viagem atribulada com os primeiros soldados a desembarcar em França e no facto de os portugueses não estarem preparados para o conflito e serem ali vistos como elo mais fraco, sendo considerados dispensáveis. Falou nas caraterísticas e fragilidades destes soldados e nas diversas trocas de oficiais e comandos, além de ter deixado diversas curiosidades sobre o perfil do soldado português, o “le petit portugais”, e as palavras afrancesadas e gíria militar que trouxeram para Portugal.
Sobre Ortiga, também os investigadores José Carlos Durão e Sérgio Durão produziram um lista sobre os militares da freguesia que participaram na I Guerra Mundial, sendo que muitos estão sepultados no cemitério de Ortiga. Da lista reunida surgem nomes como Artur Maia Consolado, Ezequiel Cadete, Francisco Moleiro, Luís Joaquim ‘Patinho’, Manuel de Oliveira Fontes ‘Patacas’, Manuel Maia Rito, Manuel Mendes Raimundo ‘Manel Polícia’, Sebastião de Matos e Serafim de Matos.
“Foi um trabalho longo, intenso, meticuloso. Nós cruzámos fontes de vários arquivos, desde o Arquivo Histórico Militar, Arquivo Histórico do Exército, o Arquivo da Liga dos Combatentes, Arquivo Pas-de-Callais em França, Arquivo Britânico da Grande Guerra. Contactámos familiares, amigos, conhecidos destes soldados. Estivemos em França três dias no antigo Sector Português. Consultámos relatórios de operações, ordens de serviço dos batalhões, do CEP, da Brigada, relatórios do serviço de saúde, e consultámos informações em bibliografia e artigos de imprensa”, enumerou José Carlos Durão.
A cerimónia contou com presença de Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, bem como com a vice-presidente Margarida Lopes, e o presidente do Núcleo de Abrantes da Liga dos Combatentes, Coronel Fernando Lourenço, o diretor do Agrupamento de Escolas de Mação, José António Almeida, e o presidente de junta de Ortiga, Rui Dias.
Vasco Estrela reconheceu a importância desta iniciativa para a preservação da memória e da História, e deixou palavras de “homenagem e gratidão” aos que têm feito por preservar a História do concelho, fazendo “um esforço importante para termos bem presente o que foi a História e das pessoas do nosso concelho que foram militares e que participaram nomeadamente nas grandes guerras que o Mundo já viveu”.
Mais informações estão disponíveis no livro alusivo à vida de João Gaspar e na investigação referente aos militares ortiguenses e maçaenses na Grande Guerra, pelo que os interessados poderão contactar os autores através da Associação Os Amigos da Estação de Ortiga.


























Parabéns ao “médio tejo” e à jornalista Joana Rita Santos… pela capacidade de desenvolver uma temática que poderia já pertencer à “noite dos tempos”, tornando-a uma actualidade de importância para o conhecimento histórico do envolvimento humano e social das comunidades em acontecimentos esquecidos.
É este jornalismo de proximidade que certamente permanecerá vivo entre as comunidades humanas, pelo que ele transmite de coesão e memória sociais. Este jornalismo, acredito depois de quase três décadas no semanário EXPRESSO, é o que persistirá e não será engolido pelas ditas “redes sociais”. Permaneçam… nada de desânimos. Para mim, valeu a pena ler uma reportagem de 2024, tanto mais que desconhecia este facto.
Obrigada pelas suas palavras, Mário.