Sabemos que neste mundo de informação, de contra-informação e, agora, de uma suposta pós-informação…
Desculpa! Espera! Posso rir?
Claro que podes, mas talvez nem todos percebam. Adiante, até porque o problema é mesmo esse: as mensagens são frequentemente percebidas de formas muito diferenciadas e outras nem chegam a ser percebidas.
Exatamente…
Bom, neste mundo em que a informação circula por todas as formas e assumindo todos os feitios, dei comigo a comparar os comentários dos supostos especialistas dos programas televisivos da manhã a propósito daquela criança que esta semana foi atirada de um 2º andar.
É um excelente exercício! Um bom passatempo…
Mantendo o necessário distanciamento, é isso tudo. Mas a verdade é que aqueles programas provavelmente são a única fonte de informação (seja ela de que tipo for) de muitas pessoas deste país. Por isso, têm uma obrigação acrescida em relação ao que dizem e como dizem. São, na verdade, uma interessante e eficaz forma de passar informações relevantes sobre aspetos tão distintos como a violência doméstica ou os hábitos de alimentação saudável.
Reconheço que fazem um trabalho de cidadania e de uma certa pedagogia que são realmente importantes, porque chegam a camadas da população que valorizam o meio televisivo e que interiorizam o que lhes é mostrado nesses canais. Mas também vemos muitas coisas… direi… estranhas.
A questão é exatamente essa! Hoje fiquei com a impressão que, enquanto num canal se dizia que, sendo a pessoa que atirou a criança da janela alguém com uma doença do foro psicológico, deveria ter sido acompanhada e tratada, mas que nada justificava o comportamento. Noutro canal, pareceu-me que, avançando-se com a possibilidade de ser alguém com esquizofrenia, se deveria atenuar, uma vez que o ato terá sido consequência da patologia e não da vontade do próprio.
Então, mas isso revela que estará a ser feita uma certa pedagogia em relação à doença…
Ai sim? Então e se tivesse sido o filho da pessoa que disse isso a ser atirado da varanda? É que a resposta dada a isso é que a família em causa teve o azar de abrir a porta de casa a alguém que sofre de uma doença mental… Azar?
A verdade é que, na nossa vida, passamos por muitas situações que são responsabilidade de outras pessoas. O melhor exemplo são os acidentes rodoviários.
Certo, mas a desculpa das perturbações mentais faz-me sempre lembrar os alegados incendiários. A ideia do que ‘estão doentes, não sabem o que fazem’ até pode colher alguma simpatia, mas deixa-me sempre angustiada.
A questão é que se pessoas com esse perfil, já diagnosticadas, cometem esse tipo de crimes – porque é disso que estamos a falar – há todo um sistema que falhou.
Precisamente! Mas isso não justifica a existência de uma certa ligeireza que desculpabiliza os autores desses crimes. Porque quem sofre as consequências desses atos dificilmente aceitará justificações para a violência do que sofreram. Querem é que se faça justiça!
Nestes casos, a justiça será sempre muito relativa. Mas, a ser verdade que a pessoa em causa não tinha consciência do que estava a fazer, não pode ser colocada ao mesmo nível de alguém que planeia um ato cruel com um objetivo claro.
Mas as consequências para as vítimas podem ser as mesmas!
Pois podem, mas tudo depende do lado em que nos colocamos: se nos colocamos no lado da mãe ou do pai da criança que foi atirada pela janela não queremos desculpas, queremos justiça implacável; se nos colocamos no lado dos familiares de quem atirou a criança apelamos à compreensão atribuindo a responsabilidade do ato à doença, difícil de controlar.
O que eu acho é que todos nós, nas nossas vidas privadas e públicas, fazemos demasiadas afirmações com demasiada ligeireza. E quantos mais canais temos, mais o fazemos.
Pois, há sempre o outro lado da moeda…
