Castelo de Almourol. Foto: Paulo Solipa

De todos os géneros da narrativa tradicional, a lenda é o que tem suscitado maior discussão teórica. Todavia, apesar da doutrina se dividir, parecem serem consensuais:

– o género narrativo;

– a estrutura simples ou mesmo fragmentária da narrativa;

– o carácter extraordinário dos acontecimentos narrados;

– a localização da ação no tempo e no espaço;

– a afirmação da veracidade ou da verosimilhança da história narrada.

Assim, procurando uma definição, a lenda será uma narrativa breve em que são narrados acontecimentos extraordinários, apresentados como verdadeiros ou verosímeis e situados no espaço e no tempo.

Por outro lado, as lendas poderão ser classificadas em:

– Lendas sagradas;

– Lendas de forças e seres sobrenaturais;

– Lendas históricas;

– Lendas etiológicas;

– Lendas iconográficas.

As lendas de Almourol são maioritariamente históricas porque remetem sempre para personagens ou factos históricos, ou pseudo-históricos, apresentados como verídicos e situados no tempo e no espaço.¹

Almourol, lendário, pela sua importância histórica, mítica e poética, merece que lhe dediquemos uma pesquisa sobre as suas lendas. Certo que meditação e a investigação fortificam a mente, e com a costumada prudência, faço-me ao caminho deixando aos outros a redescoberta de outras mais lendas!

‘Lendas de Almourol, aura de magia e mistério’, por Fernando Freire

Um sublime castelo tem sempre uma lenda.

O de Almourol tem mais de uma, aliás muitas, o que não parece excessiva fantasia graças à formosura única do lugar, do espírito do mesmo e ao desenho gentil dos contornos deste monumento com a paisagem envolvente. A apropriada localização, castelo solitário no meio do maior rio da Península Ibérica, serpenteando a montante e a jusante por águas agitadas nas noites de tempestade e nos tempos das recorrentes cheias, ladeado de matos fecundos e elevados, árvores de grande porte onde sibilavam diferentes sons, causaram temor aos nossos antepassados e, certamente, muita imaginação épica caldeada com factos reais. Este castelo serviu para glorificar o passado de um povo heroico e vigoroso.

Sabendo que o castelo foi reconstruído por Gualdim Pais em 1171, sobre um castro romano, dizem as lendas que seria, antes da reconquista, propriedade de diferentes povos que aqui passaram como visigodos (godos), almorávidas, etc.

A lenda de Dona Beatriz e o Moiro ocorre no reinado de D. Ramiro. Seria, naquele tempo, o senhor de Almourol. A fortaleza é testemunha de porfiados e sangrentos reencontros entre diferentes povos e cristãos. Certo é que no castelo foi recolhido um jovem mouro, o qual, para vingar o assassinato da mãe e da irmã por cristãos, envenenou a esposa e seduziu D. Beatriz, filha do cavaleiro.

A tradição assegura que o jovem e a donzela aparecem na noite de São João, na torre mais alta do castelo, renovando, cada ano, a maldição que perdurará até ao dia do juízo final.

— Por que choras, bom romeiro

Porque vens tão magoado?

— Choro a ausência de uma filha,

Que me deixa abandonado.

— Por que se foi vossa filha.

Bom romeiro, me dizei.

— Levou-ma um moiro descrido

E al dizer-vos não sei.

— D’onde fugiu vossa filha.

Bom romeiro, me dizei.

— Do castelo de Almourol,

Que me havia dado el-rei.

Lenda de Dona Beatriz e o Moiro

“Aí pelos séculos IX ou X, era dono do castelo um senhor Godo chamado D. Ramiro, casado e tendo uma filha única de nome Beatriz.

Valoroso soldado era, todavia, rude, orgulhoso e cruel como a maioria dos senhores de sangue gótico.

Ao regressar de uma das suas sortidas de guerra e orgulhoso dos seus feitos que, em grande parte, se cifravam em inúmeras atrocidades, encontrou já próximo do castelo duas moiras, mãe e filha, que, embora infiéis, reconheceu serem lindas como sua esposa e filha, que deixara em seu solar.

Fatigado da viagem e sedento, D. Ramiro interpelou as moiras para que cedessem a água que a mais jovem transportava na bilha. Assustada pela figura e tom de voz do feroz cavaleiro, a pequena moira deixou que a bilha se lhe escapasse das mãos e quebrando-se, perdeu o precioso líquido que D. Ramiro tanto desejava. Encolerizado e cego de raiva, este de pronto enristou a lança e feriu as duas desgraçadas que antes de morrerem, o amaldiçoaram. E porque surgisse, entretanto, um pequeno moiro de 11 anos, filho e irmão das assassinadas o tornou cativo e trá-lo para o Castelo. Chegado que foi a Almourol o moço viu a mulher e a filha de D. Ramiro e jurou fazer nela a sua vingança.

Passaram anos. A castelã adoece e, pouco a pouco, se foi definhando até morrer, em resultado do veneno que lhe vinha ministrando o cativo agareno.

O desgosto do evento leva D. Ramiro a procurar na luta contra os infiéis, refrigério para a sua desdita, e parte confiando a guarda da sua filha ao jovem mouro, que fizera seu pajem, dada a docilidade e cortesia que o mesmo sempre, astuciosamente, revelara. Aconteceu, porém, que os dois jovens ignorando as diferenças de condições e de crenças, em breve se enamoraram, paixão contra a qual o mancebo lutou desesperadamente, mas em vão, dado que tal amor lhe impedia de consumar a sua vingança. Mas não há bem que sempre dure e o enlevo e a felicidade dos dois jovens são desfeitos pelo regresso de D. Ramiro que se fazia acompanhar por outro castelão, a quem prometera a mão de sua filha.

O moiro, então alucinado e perdido, contou tudo a Beatriz: as crueldades do pai, as promessas de vingança, o envenenamento da mãe e a luta que travara entre o amor e o juramento que fizera.

Não se sabe o que se seguiu a esta confissão. Diz, entretanto, a lenda, que Beatriz e o moiro desapareceram sem que mais houvesse notícias deles. E D. Ramiro, cheio de remorsos e de desgosto morreu, pouco depois, ficando abandonado o Castelo.

Conta a lenda que nas noites de S. João se vê o moiro abraçado a D. Beatriz e Dom Ramiro a seus pés, a implorar clemência sempre que o moiro solta a palavra “maldição”.

Deste modo, o viajante que por ali deambule, não deverá surpreender-se se vir passar, por entre as ameias de Almourol, as vestes brancas dos templários com a cruz de sangue sobre o peito de D. Beatriz e o moiro, unidos por um abraço eterno.

Talvez consiga ouvir mesmo, por entre o rumorejar das águas, os soluços de D. Ramiro.”

‘Lendas de Almourol, aura de magia e mistério’, por Fernando Freire

O castelo pouco a pouco

Começou a desabar,

Ficando só as ruinas

Para o castigo lembrar;

Ainda hoje as águas dizem

D’aquelles dois a paixão;

E os destroços pardacentos

D’esses paços opulentos

Desmantelados no chão,

Indicam ao viajante

Os crimes do castelão.²

Outra lenda, a de Al-Morolan, narra que era Senhor de Almourol certo Emir, famoso guerreiro de hercúlea força. Era pai amantíssimo de encantadora donzela que se viria a apaixonar por um guerreiro cristão. Aconteceu que a fascinante e fervorosa filha do Emir introduziu no castelo, pela calada da noite, o seu dileto amante, o que provocou a conquista do castelo pelos cristãos, então na posse dos mouros.

Lenda de Al-Morolan

“Do terraço do alto da torre de menagem descera Al-Morolan nos adarves do castelo, a conversar com um dos seus bucelários sobre a defesa e segurança da sua moradia contra os irrequietos dos cristãos da Ibéria.

Na fronte do árabe vincava-se naquela tarde uma profunda ruga denunciadora de qualquer e grave preocupação. Fizera, havia poucas horas, com os seus homens de armas, uma exploração pelas cercanias, esquadrinhando cerros e vales, e tudo levava a crer que os cristãos de perto vigiavam avidamente o seu ninho vetusto.

Era preciso redobrar de vigilância para não deixar acercar o inimigo, recomendava o velho emir de longas barbas de profeta, enquanto o seu olhar inquieto perscrutava, através das guias seteiras da muralha, as terras em redor.

As sombras desciam.

Adormecia a paisagem.

Giganteio e altaneiro, o castelo parecia, àquela hora silenciosa, desafiar desdenhosamente o inimigo.

Toda a ilha, sobre o qual que erguia o seu vulto cheio de majestade, estava em silêncio agora.

As águas do Tejo, abraçando amorosamente os penhascos daquele alcantilado solo, pareciam ter adormecido também, sobre a carícia suavíssima do sol na despedida.

Por Alá! – rugiu de repente o árabe, espreitando para a margem próxima enquanto levava intuitivamente a mão ao seu alfange – mas quem usa aproximar-se?

E em vão o Al-Morolan procurava agora divisar o vulto que lhe parecera ver sumir-se como uma sombra por entre a ramaria do vale fronteiro, já muito escuro àquela hora. Toda a noite e durante muitas noites o castelo foi constantemente vigiados pelos agarenos desconfiados e ferozes, como se o próprio Mahomet ali estivesse a incitá-los para a luta.

Al-Morolan tinha uma filha, uma donzela formosa que era a luz dos seus olhos.

Por ela, jurava ele, sobre o Alcorão que defenderia até a última gota de sangue a altiva moradia e que só morto, ele, os inimigos atravessariam o rio que servia de fosso ao castelo e poderiam subir os seus flancos, transpor aquelas barbacãs.

Pela cabeça adorável da sua linda filha seria ele capaz de desafiar todos os nazarenos das Espanhas, se porventura usassem disputar-lha.

E não queria menos a seu pai aquela formosa filha do Islão.

Mas a donzela tornava-se agora dia-a-dia mais pálida, e Al-Morolan, a quem essa palidez começava a assustar, ficaria angustiado se pudesse ver as correntes de lágrimas que, a ocultas, chorava a moira, por amor de um gentil cavaleiro cristão, que um dia, estando Al-Morolan ausente, conseguira aproximar-se dela e prender-lhe o coração indefeso.

Rondava o jovem, cautelosamente, o Castelo às tardes; e quando a escuridão tinha descido, ele vinha, como sombra, coleante, dizer-lhe, em sítio oculto e combinado, sob aquelas muralhas que pareciam invencíveis, todo o fogo da paixão que o desvairara, suplicando-lhe se amerceasse do que sofria deixando-o ir bem junto dela, uma vez ao menos, mostrando-lhe a veemência do seu amor, jurando-lhe que o seu coração lhe pertencia inteiramente. Mas os árabes vigiavam sem descanso o castelo e a linda moira receava o perigo de tão arrojado encontro.

– Venceu enfim o coração apaixonado todos obstáculos que se opunham e, por uma escura noite, quando tudo parecia ter adormecido, o cavaleiro cristão entra no castelo – arrostando todos os perigos de tão temerário gesto. Porém, de perto e avisados, pelo sinal combinado, acorreram após o pérfido namorado os seus companheiros, e, num instante, foi tomado, por aquela vil traição todo o castelo.

Correu o emir como louco em busca da filha que, abraçando-se a ele, soluçava perdidamente, que queria morrer também.

Num relance medira o velho toda a inutilidade de qualquer resistência.

Tomados de surpresa, quando menos o esperavam, e assim tão traiçoeiramente os seus homens de armas não puderam sequer defender-se.

Por momentos contemplou Al-Morolan a filha estremecida, pensando no destino que agora a esperava: via-a já nas mãos dos inimigos, maltratada escarnecida!

Oh! Antes a morte – pensou angustiado. E, num ímpeto tomou nos braços aquele pedaço da sua alma que apertou estremecidamente contra o peito, descendo apressadamente até ao rio. Ajoelhou então ali, numa última invocação a Alá, e, estreitando alucinadamente o corpo da filha que o abraçava, precipitou-se com ela no abismo fundo das águas, enquanto no castelo o Cavaleiro traidor procurava, em vão, o velho emir de longas barbas do profeta e a pálida moira que, por ter amado muito se perdera, arrastando consigo aquele que para ela vivia e que por ela morrera como Alá havia jurado.”

Em síntese, nestas duas lendas de lutas mesclou-se sangue godo e mouro ao sangue cristão. Nas pedras graníticas de Almourol, deixou a alma portuguesa a prova veemente do seu valor e o epopeico heroísmo na defesa do solo dos nossos antepassados.

Francisco de Moraes, na Crónica “O Palmeirim de Inglaterra”, centra o Castelo como ponto de apoio à efabulação da famosa novela.

Lenda de assalto ao Castelo

“Ao Castelo vieram ter as princesas Miraguarda e Polinarda, com as suas donas e donzelas a que o gigante Palmeirim de Inglaterra deu hospitalidade e as tratou com a maior das atenções, ainda que as tivesse suas prisioneiras.

Não tanto pela bela Miraguarda, essa que a natureza fez estremada de bem parecer e formosura, mas antes pela sua dama Polinarda, Palmeirim tenta raptá-las e salta para a esplanada do castelo.

Mas aí estava o Cavaleiro Triste, vencedor dos maiores campeões daquela época e que era apaixonado por Miraguarda.

Desafiando Palmeirim para um passo de armas o feriu, tendo Palmeirim de ser curado das suas feridas em uma vila a 3 Km do Castelo (Paio de Pele).

Entretanto o Gigante Dramusiando que anteriormente Palmeirim vencera, convertido à fé cristã, se fizera seu amigo e companheiro, tendo notícias de grandes forças de Almourol quis medi-las com ele e venceu.

Dramusiando ficou então senhor do Castelo e desde então ficou de guarda às princesas, obrando maravilhas de força e valor.”

 Mas, por sua vez, a imaginação popular também povoou de personagens lendárias as povoações vizinhas do castelo.

Lenda do Arripiado

“Reza a tradição que no século X a ilha de Almourol tinha sido conquistada pelo temido Ibne Baqui, filho do lendário Xurumbaque. Este era um Mouro dotado de forças superiores. Feito prisioneiro pelos nórdicos da Normandia, logrou escapar-se-lhes. Conheceu palmo a palmo a região galega e, mais tarde, as terras taganas. Era já muito velho, quando decidiu marcar os seus domínios e instalar-se, em recônditos e inacessíveis lugares, entre serranias e rios profundos, numa região da antiga Lusitânia, entre Coimbra e Santarém.

A ilha de Al Mourol foi reforçada e dotada de uma zona de residência e de lazeres. Uma luxuosa alcáçova, onde Ibne Baqui dividia o seu tempo entre aventuras guerreiras e os prazeres da música e da poesia. Al Mourol era um lugar de paz e de recolhimento e uma atalaia vigilante. O poderoso muçulmano amava muito a sua mulher, a doce Fata, da tribo de Micnesa. Ambos se orgulhavam de sue filha Ari, uma jovem de rara beleza e invulgar talento. Os seus cânticos dulcificavam o coração dos guerreiros de Alá. A sua elegância e arte de bailarina eram afamados em todo Al Andaluz.

De Beja, por uma madrugada de maio, chegou uma luzida embaixada. Logo, Ibne Baqui mandou que todos os barqueiros e pescadores do rio se preparassem para acolher e transportar para Al Mourol o seu amado e velho irmão e toda a luzida comitiva que de tão longe viera visitá-lo.

Ibne Xurami, senhor de imensa fortuna e invencível poderio militar, ouvira falar de Ari. Por ela, se decidira a vir negociar um casamento que haveria de reforçar ainda mais os descendentes do heroico Xurumbaque.

A doce Ari veio a saber pelo zum-zum das belas mulheres do Pátio das Estrelas o que estava a acontecer. Uma nuvem negra parecia-lhe pairar sobre a sua juventude.

Desde menina que ela amava Mem Roderico, moçárabe influente, mensageiro da paz em muitas questões e rivalidades entre mouros e cristãos. Também ele amava perdidamente a formosa Ari. Esperavam ocasião asada para convencerem os pais de ambos a permitirem o seu casamento.

Depois de um longo serão de festejos, Ari esperou que o pai e a mãe se dirigissem para os seus aposentos e pediu-lhes para a ouvirem. Confiada no amor dos seus progenitores, Ari confessou-lhes o seu romance com Mem Roderico. E, rojando-se no lajedo, jurou-lhes que não suportaria nunca se casar com o velho tio. Irado, Ibne Baqui mandou que metessem a filha na mais alta torre da fortaleza. E, para que não tentasse fugir, dizem as pessoas antigas, que pearam-na, isto é, ataram-na pelos pés como se fazia às cavalgaduras ruins de amansar. Ari peada, morria de saudade e paixão. Certo dia, por uma estreita fresta, entrou uma pomba branca que trazia presa a um laço no pé uma mensagem. Era a notícia de que o seu amado Mem Roderico tinha sido morto numa cilada pelos soldados de Ibne Baqui. Nesse mesmo instante a alma pura da infeliz Ari deixou o seu formoso corpo. Ari peada voou no corpo da pomba branca e foi poisar na campa de Roderico, lá em baixo, frente a Tancos, no branco cemitério da povoação que o povo passou a chamar de Aripeada, a branca e bela povoação do Arripiado.”

Por outro lado, uma bela lenda de Gonçalo Velho Cabral, Comendador de Almourol e da Cardiga, arrojado navegante, fidalgo português que ao serviço do infante D. Henrique, deixava, em 1453, o seu histórico castelo para, lançando-se nos mares tenebrosos do fim do mundo, descobrir ou confirmar a existência das ilhas atlânticas de Santa Maria e São Miguel.

Lenda de Almourol e Cardiga

(Descoberta dos Açores)

“Sussurrava-se em Sagres que, há séculos, quando os moiros foram senhores da península, era alcaide de um Castelo roqueiro, erguido a meio do Tejo, o sarraceno Almourol, que ali vivia com a sua mulher Cardiga e a filha Miraguarda, de olhos sonhadores e negros e de tanta beleza, que era capaz de cativar a alma de um cristão.E assim sucedeu.

Nas pelejas entre moiros e cristãos nas vizinhanças do Castelo, intrépido e romântico cavaleiro cristão, das hostes de Afonso Henriques, divisou nas ameias da fortaleza o moreno e encantador rosto da adepta do Islão de nome Miraguarda, filha de Almourol e Cardiga. E tão enfeitiçado ficou de suas raras graças e belezas, que se esqueceu que profanava a religião professada, ousando olhar cobiçosamente para a filha dos infiéis.

Mas o amor não consentiu estorvo, chegado à fala com Miraguarda, cosido com as cortinas das barbacãs, planearam a fuga. E o amoroso cavaleiro raptou a moira encantada, levando-a para longes terras, cingida a si, em fogoso corcel. No momento da fuga, as hostes cristãs aproveitaram o ensejo para penetrar no Castelo, tomando-o aos Sarracenos.

Foi então que Almourol e Cardiga, não podendo suportar a afronta da dupla traição e o degradante cativeiro que lhes imporiam os assaltantes inimigos, decidiram subir à torre de menagem e precipitaram-se no Tejo. E assim puseram termo à cruciante dor que lhes avassalara as almas.

Os cadáveres dos 2 sarracenos, sobre nadando as águas do rio, foram Tejo abaixo impelidos pela corrente e internaram-se no oceano, perdendo-se entre as brumas e neblinas do além-mar, onde, petrificadas, se transformaram, diz a lenda, em 2 ilhas de maravilha.

Quando os Portugueses, séculos depois, descobriram a ilha de Sta Maria, e 12 anos após a de S. Miguel, o povo tomou como verídica a lenda de antanho, dizendo que Sta Maria era o corpo da Cardiga e S. Miguel o do Almourol, transformados nas 2 ilhas encantadas.”

A par destas lendas outras há de gigantes, de princesas encantadas, de mouros, etc.

As que narrei unem-se a este belo castelo de Almourol, bonito nas sua ameias, garboso nas sua muralhas com a sua imponente torre de menagem, na vegetação da ilha, no curso impetuoso ou brando do Tejo que ali o abraça ou nos dias de nevoeiro ou de luar.

Todos estes cenários são refletidos nas águas, nas penumbras e nas sombras, o que transporta o transeunte para um passado medieval, para romances de cavalaria, para os feitos ousados das descobertas e para os momentos notáveis de Portugal.

¹ Cidraes, Maria de Lourdes, Encantamentos, milagres e outros prodígios, Faculdade de Letras Universidade de Lisboa 2013

² Magalhães, Francisco Bernardino de Sá. O castelo de Almourol, Imprensa Nacional, Lisboa, 1863

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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