” O mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer “
Albert Einstein
Na noite de 13 de Janeiro de 1990 o salão da sede da antiga Cooperativa Agrícola de Ourém (onde hoje está instalada a PSP) encheu de assistentes para ouvir uma palestra proferida pelo Eng.º Pedro Cortes sobre a Ecologia da Ribeira de Seiça e Agroal.
Essa conferência foi o momento formal do início de uma ação de intervenção cívica que irradiou de Ourém para a região do “Ribatejo e Estremadura “e colocou de forma intensa na agenda política as questões da defesa do ambiente e do património.
Foi o momento simbolicamente fundador do núcleo da Quercus em Ourém e o arranque do seu trabalho relevante e contínuo em prol do ambiente e da sustentabilidade na nossa região.
A passagem de mais um aniversário é motivo para partilhar sentimentos e palavras que revisito.
O sucesso da Quercus resultou de uma coesão muito sólida entre os diversos elementos da sua equipa diretiva e colaboradores, aliada a uma complementaridade de competências técnicas que lhe granjearam credibilidade e o estatuto de parceiro social para a sua área de intervenção.
A partir da amizade e cumplicidade de um conjunto de jovens ativistas pelo ambiente foi possível construir um movimento solidário e irreverente, que na altura projetou na região uma perspetiva diferente de ver e pensar o mundo circundante.
O aparecimento desta organização em Ourém foi uma “pedrada no charco” que motivou uma atitude inicial de desconfiança dos atores políticos convencionais, um percalço cívico a que a comunidade não estava habituada, mas que rapidamente foi reconhecida em resultado da seriedade do trabalho desenvolvido e do seu espírito de entrega.
A Ribeira de Seiça e o Agroal com a sua lampreia de riacho, as lontras, os bufos reais, as orquídeas e carvalhos e outras joias naturais permitiram entender problemas ambientais graves, que passavam tão despercebidos perante a indiferença a essas riquezas naturais tão espetaculares e que, talvez por tão próximas, não mereciam a atenção das pessoas.
A partir desses valores ambientais construiu-se uma corrente de cidadania ambiental ativa que passou a barreira de uma geração e hoje continua bem presente nos novos ativistas, com novas linguagens e atitudes e novas organizações.
A ação desse núcleo regional marcou de forma determinante para o futuro a salvaguarda do património natural e cultural, a resolução do problema dos resíduos e das lixeiras, o estado dos recursos hídricos e deu contributo importante para a criação do direito à não-caça e implementação do turismo de natureza.
A educação ambiental desenvolvida por toda a região, em sessões nas escolas, nos campos de férias no Agroal, nos vídeos-educativos e nas inúmeras publicações, exposições, jornadas e debates públicos, constitui um legado de entrega à causa da sustentabilidade de importância fundamental dirigida ao nosso futuro comum!
Olhando para trás para a nossa agenda, à época, temos de ficar satisfeitos pela erradicação das lixeiras a céu aberto, para o avanço significativo na recolha seletiva e tratamento de resíduos, para as melhorias graduais na qualidade dos recursos hídricos, pela dinâmica da educação ambiental nas escolas e autarquias, pela classificação de valores patrimoniais relevantes e pela integração do tema ambiente nas agendas politicas locais, entre outros avanços que consideramos civilizacionais.
É com enorme satisfação que vemos esse esforço compensado na classificação das Pegadas de Dinossáurios como área protegida e o Agroal e Ribeira de Seiça integrados na Rede Europeia Natura2000 no designado sítio Sicó-Alvaiázere.
Muito está ainda por resolver, mas o caminho trilhado foi interessante pelos resultados já alcançados.
É preciso consolidar este novo paradigma de afirmação de novos valores ambientais, nas atitudes, na procura de convergência de perspetivas diversas entre a ciência, os recursos naturais, as dinâmicas sociais e económicas, a participação dos cidadãos e as organizações em redor do desenvolvimento sustentável.
Este espírito, revigorado, todos os dias, em novos equilíbrios e reencontros, permite-nos continuar a acreditar na inteligência, na vontade dos Homens e na importância da cidadania.
A Quercus nesta região, tal como no País, foi responsável por afirmar a importância dos valores do ambiente e do desenvolvimento sustentável promovendo uma grande sensibilização e informação dos cidadãos comuns relativamente a estas questões.
É contudo urgente manter e pôr em prática ações concretas que visem a salvaguarda desses valores enfrentando os novos problemas, mas também os novos desafios que se colocam na região e no Planeta, pois as razões para a mobilização mantêm-se e renovam-se como por exemplo em torno das alterações climáticas à escala global ou do rio Tejo numa perspetiva mais regional.
Registo este bom exemplo que foi dado na participação pública séria e no contributo para a consolidação do movimento ambientalista português.
A todos os que participaram neste movimento um reconhecido agradecimento e o desejo que este espírito de entrega ao bem comum prevaleça durante muitos e longos anos, independentemente das organizações onde hoje fazem a sua participação.
