Há acontecimentos que nos marcam, que nos deixam com orgulho, em que nos revemos na coragem, na entrega, na solidariedade. A viagem e a “Missão de Paz” do Lusitânia Expresso foi um desses acontecimentos para mim. Acompanhei à distância, tinha amigos no barco e a convicção firme de que era preciso colocar Timor na agenda internacional e alargar os apoios para que se tornasse um país independente.
E tudo isto me veio à memória porque há um barco a caminho de Gaza, o barco Madleen da Flotilha pela Liberdade. Também leva a bordo jovens generosos que querem chamar a atenção do Mundo para o genocídio em curso e para o cerco que impede a entrada de mantimentos em Gaza. A fome e sede matam lado a lado com os bombardeamentos e as doenças.
Quem vai no barco quer furar esse cerco e quer que os responsáveis políticos de todo o Mundo se deixem de declarações hipócritas e façam com que Israel retire da Palestina. Não há mas, nem meio mas. Trata-se do genocídio de um povo. Tem de parar.
Estão preparados para ser intercetados pelo exército israelita. Tal como em 1992 quando as 3 fragatas do exército indonésio impediram que o Lusitânia Expresso continuasse a navegar até Timor e ameaçaram com represálias. A força das armas contra os barcos da Paz!
Não é a primeira vez que um barco se dirige a Gaza e é impedido de chegar pelo exército israelita. Agora juntam-se também milhares de pessoas que se vão concentrar na fronteira de Rafah exigindo a passagem da ajuda humanitária. O protesto ganha novas formas e novas geografias.
A primeira lição de 1992 e dos anos que se seguiram é que a convicção e os direitos humanos podem vencer. Muito pouca gente conhecia a situação de Timor, lembro-me de falar com amigos estrangeiros que não faziam ideia de onde se localizava. E a segunda lição é que um povo quando se une consegue vencer.
Portugal conseguiu levar Timor a todo os continentes, a todas as instâncias internacionais e o referendo para a independência aconteceu e Timor que nunca deixou de lutar e resistir nas montanhas e em condições muito duras e nas prisões indonésias deu uma lição ao mundo ao votar pela independência. A missão foi até ao fim. Timor é um país independente.
Por isso me custa entender e não consigo aceitar que existam pessoas, como os nossos governantes e o nosso Presidente da República, que ainda titubeiam no apoio à causa da Palestina e impedem, por exemplo, que Portugal se junte aos países do Mundo que já reconheceram o Estado da Palestina. Logo nós, que tanto lutámos por Timor!
Nota: Esta missão “Paz por Timor” foi organizada após o massacre no cemitério de Sta. Cruz em Dili que ocorreu no dia 12 de Novembro de 1991 e onde foram mortas mais de 300 pessoas e outras tantas ficaram feridas. Foi organizada pela revista “Fórum Estudante”, liderada por Rui Marques. Em Darwin, Austrália, entraram 120 passageiros, a maioria estudantes, de 23 países. A bordo seguiam também jornalistas e o General Ramalho Eanes, antigo Presidente da República. Os jornalistas portugueses fizeram uma cobertura alargada desta viagem existindo inúmeros registos, nomeadamente nos arquivos da RTP.
