Uma menina de sorriso aberto. Veloz. Segura daquilo que quer. Jogava futebol com o irmão. Quis fazê-lo num clube mas não foi aceite “por ser rapariga”. Decidiu experimentar o atletismo e apaixonou-se pela modalidade “desde o primeiro dia”. Correr e saltar “é aquilo com que mais me identifico”, diz ao mediotejo.net. Na pista, treina por prazer. O atletismo ajuda a esquecer “as preocupações, da vida, da escola”. Em exercício Laura Agostinho diverte-se.
O pai, Moisés Agostinho – que jogou futebol e é hoje treinador de guarda-redes no Benfica de Abrantes – é o grande responsável pelo gosto que a filha afirma ter pelo desporto.
A menina, batizada pelos amigos de “torpedo de Abrantes”, tem 14 anos, faz 15 no dia 9 de outubro, e tem competido nos escalões de Iniciados. Mas recentemente na Roménia, onde conquistou as suas primeiras medalhas internacionais, arrecadando a medalha de ouro nos 100 metros, competiu nos Juvenis, com atletas mais velhas, com 15 e 16 anos, mas tal não a intimidou.
VIDEO/ENTREVISTA/LAURA AGOSTINHO E SUSANA ESTRIGA:
Susana Estriga, a sua treinadora há cerca de três anos, não nega as qualidades que, de imediato, viu naquela miúda incansável, sempre pronta para repetir, seja salto ou corrida em velocidade, “e barreiras, que entra dentro da velocidade”, explica Laura.
Laura Agostinho explica que, sua idade, os atletas não podem ter foco “apenas numa coisa e acabamos por fazer um bocado de tudo. Ainda faço o atleta completo que inclui todas as provas: salto em altura, dardo, peso. Acaba por ser um gosto mas não tanto quanto a velocidade”.

Desde que se lembra que “tem noção” de correr rápido, até pela participação desde cedo em provas infantis e escolares. “Mas não era o que queria; era futebol e pronto! Tinha uma noção mas não sabia aquilo que hoje consigo fazer”.
Laura Agostinho, ex-atleta do Sporting Clube de Abrantes, compete agora como individual embora na próxima época seja treinada pela Academia Susana Estriga Sport – novo projeto da docente e também atleta veterana de Tramagal, campeã nacional e europeia em diferentes provas de atletismo.
A Academia, que tem como objetivo “investir no atletismo” é constituída por nove pessoas, ex-atletas e pais de atletas, ligadas à área da Saúde e à área Desportiva. Mas Susana confessa um problema: “não há treinadores, pessoas com formação, na cidade de Abrantes”. Em setembro Laura inicia como Juvenil, tendo feito três épocas: uma como Infantil e duas nos Iniciados.

Na motivação para continuar contou muito o peso das vitórias. Só em 2024, em fevereiro Laura Agostinho, enquanto atleta sub-16 do Sporting Clube de Abrantes, conquistou dois títulos de vice-campeã nacional sub-18, no Campeonato Nacional de Atletismo em Pista Coberta, que se realizou em Braga.
Em março, sagrou-se campeã nacional no 22º Triatlo Jovem, realizado em Pombal. Também este ano sagrou-se campeã de atletismo sub-16 nas modalidades de 80m e salto em comprimento, no 41º Torneio Nacional Olímpico Jovem, que decorreu em Lagoa, no Algarve. Conseguiu um terceiro lugar no salto em comprimento no campeonato nacional sub-18.
E em julho, lá foi Laura até à Roménia para conquistar uma medalha de ouro ao vencer os 100 metros planos e alcançar o bronze com o 3º lugar na estafeta 4x100m femininos. Mais duas para a coleção que cresce praticamente a cada competição. E tem mais, muito mais para conquistar.

“É a partir das vitórias, da família, da treinadora… é a esses aspetos que me agarro para continuarmos, para querer mais, sempre mais. Há uma prova e até consigo bater um recorde, mas nunca me chega. Quero mostrar que sou capaz de ganhar esta e aquela prova mas que também sou capaz de perder e felicitar a pessoa que ganhou e dizer: parabéns foste incrível! Mas depois vou para casa e penso no que fiz mal e em que posso melhorar para ganhar”, refere Laura, admitindo que a família, a treinadora e os colegas de treino são determinantes nessa motivação de se superar a si própria.
Sobre a conquista das suas primeiras medalhas internacionais na modalidade de atletismo, na Roménia, a atleta abrantina, que representou Portugal no âmbito do Desporto Escolar nos Jogos FICEP-FISEC, manifestou surpresa.
“Não estava à espera. Porque lá é outro mundo, outros países, como a França, Alemanha, Bélgica normalmente muito fortes… ainda por cima fui para lá sem saber tempos”, confessa.
Na final “foi agarrar a oportunidade, chegar à meta e a minha única resposta foi levantar os braços e rir-me. Tinha conseguido!”, conta, afirmando também o interesse em conhecer atletas estrangeiras, meninas com idades próximas da sua e “com os mesmos sonhos”. Na subida ao pódio “só me cai a ficha depois. No início é quase como um choque”. E ri-se. Feliz. Consigo e com a vida.

O atletismo de alta competição e o plano B nas Ciências
Falta pouco para o sol começar a baixar quando Laura Agostinho chega ao Estádio Municipal de Abrantes para mais um treino diário, de duas horas, dos três semanais. Leva os auscultadores para colocar música na cabeça enquanto corre pela pista. Prática que complica a vida à treinadora quando quer comunicar com a atleta, mas compreendendo a necessidade de abstração.
Laura não é a única atleta que está no interior do Estádio a preparar-se para alcançar objetivos. A professora Susana Estriga conta com cerca de 20 miúdos na sua nova Academia, que já está formalizada e criada, depois de sair do Sporting Clube de Abrantes, e a postos para a nova época.
A jovem promessa abrantina e do desporto nacional conta que sempre teve “várias ambições” mas que o o atletismo está no topo, a par do ensino superior na área de Ciências. “Quer ser atleta de alta competição”. Acredita que o resto virá por acréscimo.

Tal prova de fundo implica “muito esforço e capacidade de organizar o tempo”. Tal sistematização de tarefas não estava entre as preocupações aquando da realização desta entrevista, em pleno verão, em plena pausa escolar.
“Agora não, porque estamos de férias sempre é mais fácil de organizar. Mas na altura de testes, de exames, e de tudo e mais alguma coisa, sei que é preciso gerir. Sei que tenho de sair da escola, treinar e a seguir estudar. Na altura de testes quase não tenho tempo para fazer outras coisas: é treinar e estudar”, diz.




A jovem atleta é aluna da Escola D. Miguel de Almeida, em Abrantes. Terminou o 9º ano e segue para a Escola Dr. Solano de Abreu onde fará o 10º ano na área de Ciências. Manifesta-se satisfeita com os resultados escolares que, diz quem sabe, são tão bons quanto os resultados desportivos.
“Sou uma pessoa muito exigente comigo própria, quero muito bons resultados, quer no atletismo quer na escola. Não tenho hábito de sair com amigos, estou com eles na escola. A minha mãe sempre me disse que há tempo para tudo”, revela, conselho que não esquece e tenta seguir.
Por seu lado, a treinadora conta que quando Laura chegou ao Estádio Municipal para ser treinada por Susana Estriga percebeu imediatamente que tinha “jeitinho”.
Nesse primeiro dia “colocámos o bloco e ela conseguiu partir logo, era inato! Há miúdos que caem na primeira vez que fazem partidas e ela adaptou-se logo. É uma miúda que aprende rápido. Em poucos dias disse que a Laura era um misto da Mariana António – que chegou a ir ao campeonato do mundo de juniores – e da Larissa. Esta miúda vai ser uma surpresa nos próximos anos porque vai conseguir, de certeza absoluta, com empenho e trabalho, obter bons resultados. E é o que está a acontecer”, refere.
Estriga admite que “a genética é fundamental” mas é também “fundamental que os miúdos criem rotinas, que se dediquem bastante e que sejam bastante concentrados. A Laura é muito trabalhadora. Às vezes até temos de pedir: não faças mais! Às vezes não tem a noção do limite e tem de ter, em termos físicos. É muito jovem”. Mas muito determinada, também, acrescentamos.

Passando para os Juvenis a treinadora reconhece que “as dificuldades vão sendo cada vez maiores. Os objetivos terão de ser ir a um Campeonato da Europa de Juvenis, ir a um Campeonato do Mundo de Juniores. Claro que quando um atleta passa para o patamar de Sénior, e com a entrada na faculdade, é sempre aquele dilema”. A treinadora defende a importância de os atletas, mesmo sendo “muito bons” serem “integrados num grupo de trabalho em Lisboa, num centro de alto rendimento” para conseguirem “continuar a evoluir e obter bons resultados”.
Identifica ainda “grande dificuldades” em Portugal em prosseguir, até para os grandes talentos.
“Estamos a fazer muitas naturalizações com atletas que já tinham bons resultados a nível internacional e estão a ‘tomar’ o lugar dos nossos jovens. Vemos na velocidade, nos saltos, nos lançamentos. em que os nossos melhores atletas são atletas internacionais, com naturalização feita por clubes em Lisboa, Benfica e Sporting”, constata.
Por isso, considera que os jovens atletas portugueses necessitam de “um apoio muito grande para conseguirem continuar a evoluir e conquistar o lugar deles numa Seleção Nacional, como seniores, num Campeonato do Mundo, ou nos Jogos Olímpicos. Se não estiverem integrados num grupo de trabalho em Lisboa ou no Porto, dificilmente chegam lá”, opina.
Em Abrantes, entre os seu alunos, Susana Estriga acredita existirem talentos que “num futuro próximo”, como juvenis e como juniores, possam conquistar pódios. Alerta, porém, para “os muitos fatores que condicionam. Quando são meninas, acaba por ser mais fácil porque não temos a concorrência do futebol. Normalmente os melhores atletas estão no futebol”, nota.
No entanto, considera “enriquecedor” que os jovens experimentem várias modalidades. Refere mesmo o seu exemplo, em que jogava andebol e fazia atletismo. Por outro lado, lamenta que os jovens atletas não tenham qualquer apoio financeiro, a nível federativo, e Portugal perca talentos quando chega a idade de entrarem na universidade e no mercado de trabalho.
“Não há compensação! Não é como no futebol. No atletismo paga-se muito mal, andamos aqui a trabalhar por carolice, por meia dúzia de tostões. Eles sabem que têm de ter um plano B. E tem de haver muita disciplina e abdicar de muita coisa”, conta a professora, experiente, tendo lembrado ainda a importância do atleta ter acompanhamento nutricional e de fisioterapia.
“Só com grande apoio, só com uma grande equipa é que os atletas chegam à alta competição. Em Abrantes é quase impossível, não temos ninguém nem clínicas que façam esse acompanhamento. Andamos aqui por amor à modalidade. Em Abrantes não tem sido nada fácil lutar pelo atletismo. Mas depois aparece, uma Laura, uma Mariana, um Marco, um André…”.

Falando de preparação nutricional, Laura Agostinho afirma que não tem qualquer restrição alimentar “mas a mãe controla”, garante Susana, acrescentando que “a família é fundamental”, não apenas na questão da alimentação mas no apoio emocional e psicológico.
“Laura também já teve muitos insucessos, muitas vezes chorou. É importante ter a família na retaguarda, mesmo nas vitórias, para os puxar à terra e perceberem que têm de continuar a trabalhar. Quando são novos é talento, quando crescem é talento e trabalho. Não basta talento”.
A treinadora explica que um jovem para alcançar o estatuto de atleta de alta competição “tem de ser bom a tudo, não basta correr e saltar. Em termos físicos tem de ser muito bom, muito completo, em termos de coordenação”.
Para tal defende também a prática de outras modalidades, porque “as coisas complementam-se e estão interligadas”.

A professora e treinador avança que o objetivo de Laura Agostinho para 2024 está “quase” alcançado, referindo-se à melhoria do recorde dos 80 metros que “foi conseguido”.
Queria igualmente bater o recorde regional das barreiras e “conseguiu”. E tinha como objetivo fazer o recorde regional do salto em comprimento; “não conseguiu”.
Mas “fez coisas espetaculares em várias disciplinas. Não faz só velocidade, ela faz tudo: barreiras, é relativamente competente a fazer peso, nos lançamentos, saltos. Nestas idades os miúdos têm de aprender a fazer tudo, porque é importante. Todas estas modalidades têm um transfer muito positivo”, defende.
Para o ano Laura será juvenil e os objetivos passam por conquistar um lugar na Seleção Nacional, numa competição internacional, o que em 2025 será o Campeonato do Mundo de Juvenis.
“É muito difícil a seleção porque não basta fazer mínimos. Laura tem de ser mesmo muito boa. Se vai apostar na velocidade, nas barreiras ou nos 100 metros?… acho que ainda é muito cedo”, considera Susana Estriga.
Para já, as expectativas passam por “focar nos recordes distritais e tentar melhorar as marcas ao máximo”, indica Laura, que, humilde, continua a sonhar com grandes voos e com uma vida feliz.
