Nestas terras de areia da Carregueira e do Pinheiro, entre a charneca e o campo, inclinadas a poente e onde água não falta, multiplicaram-se as hortas e, entremeadas com elas, foram crescendo os laranjais.

Dizem os entendidos que a laranja é rica em vitamina C. E que consumi-la regularmente ajuda o organismo a resistir às infeções, na formação dos ossos e dos dentes, a cicatrizar as feridas e a debelar as queimaduras, dá vitalidade às gengivas, evita hemorragias e conserva a juventude. Vamos, pois, comer laranjas, ou beber o sumo delas, e teremos vida mais longa e por certo mais feliz. Soubessem disto os marinheiros, no tempo das descobertas, e não teriam morrido, inutilmente, vencidos pelo escorbuto.

Há laranjas de muitos tamanhos e de variados aspetos e gostos. As de que aqui falo, criadas à beira Tejo, poderão não ser bonitas, nem grandes, nem luzidias como as que, vindas de longe, se nos insinuam quando vamos ao supermercado. Mas são doces, muito doces. E são nossas, trazem em si o nosso gosto, o sabor que vem à memória quando em laranjas pensamos. A gente sabe ao que sabem, sem precisar de as abrir.

Apanha da laranja no painel de azulejos de uma paragem de autocarro – Pinheiro Grande. Foto: Foto Romão

São famosas as laranjas das terras do Pinheiro e da Carregueira, que ainda há quarenta anos eram a mesma freguesia. Em especial no último século, muitas famílias foram cuidando das hortas e dos pomares, tratando da terra e das árvores, abrindo poços, tantas vezes apetrechados com noras ou com picotas, antes de chegarem a eletricidade e os motores que tudo simplificaram.

Está tão presente a laranja que o cancioneiro de ambas as comunidades regista o apreço por ela, fruto principal da sua cultura, elevado a elemento significativo do versejar popular[1]:

Laranjinha do Pinheiro

Vira aqui na minha mão

Que a virar a gente goza

Dá saúde ao coração

Ou esta sextilha da Carregueira, recolhida em 1989, tão elucidativa do tipo de laranja que, apesar das modas comerciais, o povo verdadeiramente aprecia:

Menina que vai andando

Com a sua canastrinha

Deixe-me ver sua fruta

Se é verde ou madurinha

A laranja p’ra ser boa

Há de ter casca fininha

Pois há de. E tem.

É tão forte a ligação da Carregueira às laranjas que a freguesia as puxou, orgulhosamente, para o escudo das suas armas, duas, de ouro, uma de cada lado.

As laranjas, de ouro, no brasão de armas da freguesia da Carregueira (Chamusca)

Veio da Ásia a laranjeira. Foram os árabes que a trouxeram para o norte de África e depois para o sul da Europa. Mas não foi pelos frutos que a trouxeram, muito azedos para se gostar deles, mas por ser árvore ornamental, própria para pôr no jardim. Povo do deserto e de terras a caminho dele, os Árabes tinham o culto da água e apreciavam os pátios interiores com uma fonte ou um lago e árvores por perto dele. A laranjeira era perfeita para compor esse quadro, refrescante e perfumada.

Foram-se os Árabes embora, nos tempos da Reconquista, daqui a pouco há mil anos, mas deixaram marcada a terra e a cultura da sua gente. Ficaram as laranjeiras, frequentes na paisagem do sul, que se veem por todo o lado, às vezes até nas ruas, em renques pelos passeios, dando sombra, fruta e cheiro. E ficou o jeito árabe de cuidar delas, em especial de as regar, com cegonhas e alcatruzes.

A laranja doce veio da China, parece que no século XVI, e quem a trouxe foram os Portugueses. Foi tal o sucesso dessas laranjas que muitos povos do sul da Europa, em especial dos Balcãs, que então no-las compravam, as conheciam por portuguesas e, por esse motivo, ainda hoje à laranja chamam portokali na Grécia, portokall na Albânia, portocala na Roménia, portokal na Bulgária e portakal na Turquia. Como se fôssemos um imenso laranjal…

Daqui as levámos, nós e os espanhóis, para as Américas, em especial para o Brasil que haveria de ser, como já é, o maior produtor do mundo. E da Baía nos chega agora, fazendo concorrência à nossa, como diriam os brasileiros, uma laranja gostosa.

Das folhas da laranjeira se faz um chá aromático que o povo muito aprecia. Dizem que é calmante, diurético, bom para as digestões e para soltar os intestinos. E se o chá for das flores, então é maravilha maior, capaz de nos curar uma gripe, de nos livrar da insónia e até de nos despertar para o amor.

A flor da laranjeira, que é flor de cinco pétalas de uma alvura sem par, cheira como mais nenhuma. Porque representam a beleza, a inocência e a virgindade, há séculos que as noivas as levam no casamento, as flores, enfeitando-lhes os cabelos.

Tão marcante é a laranja na cultura portuguesa que assumiu nome de cor. E nisso se tornou única, não há mais fruta alguma que tenha direito a entrada no espetro do arco-íris.

Nestas terras do Pinheiro e da Carregueira vizinha há um perfume no ar em chegando a primavera que anuncia boa fruta quando for o tempo dela. E havendo laranja madura, hão de vir os donos mostrá-la à borda da estrada, oferecendo-a a quem passa. Quem pela estrada vem, se vier com algum vagar e vontade de descobrir, há de ver, não longe dela, mulheres e homens que apanham, com a ajuda de escadas, para um cesto ou uma grade, a melhor laranja do mundo. Pare e prove e depois verá se temos razão ou não[2].

[1] Os versos aqui transcritos foram publicados no texto do autor sobre os laranjais nos Cadernos da Ascensão: A Terra, publicados pela Câmara Municipal da Chamusca em 1996, p. 28-29.
[2] Este texto, no qual se introduziram agora muito ligeiras alterações, foi originalmente publicado no livro do autor Os Abrigos da Memória, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 39-42.

António Matias Coelho

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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