Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

Na confluência da ribeira da Lampreia com o rio Tejo, na freguesia de Alvega, concelho de Abrantes, encontrou-se no século XVII uma placa de bronze que tinha gravado um juramento de fidelidade dos Aritienses ao imperador Calígula, feito em 37 d.C., no oppidum de Aritium Vetus. Este é o início de uma velha discussão: se Alvega será a velha Aritium, do tempo da ocupação do Império Romano. De Alvega diz-se que foi outrora uma cidade da Lusitânia, pela qual passava a via militar romana que ia de Lisboa para Mérida. Não é teoria pacífica entre os historiadores.

Sabe-se no entanto que “em 1659 foi encontrada nas areias da ribeira da Lampreia uma placa quadrada retangular de bronze contendo um texto de que, até ao momento, não se conhece paralelo em toda a Europa ocidental”, assegurou ao nosso jornal o historiador Joaquim Candeias Silva, a propósito do tema.

Lamentavelmente, a placa sumiu-se, decerto com o terramoto de 1755, mas dela ficaram duas cópias, uma tomada por Jorge Cardoso, pároco de Abrantes e historiador português (1606-1669), que a teve em seu poder; e outra dada por um viajante francês, que a leu em casa de Cardoso e acabou por levar a placa para Lisboa.

Um dos ribeiros em Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

“Apresentava campo epigráfico moldurado, dois palmos e meio de comprimento e mais de um palmo de altura, com um orifício em cada canto – sinal de ter estado pregada nalgum sítio público. O texto, bastante extenso, em latim clássico, oferecia algumas letras já gastas em parte, mas inteligíveis no seu conjunto”, lê-se no ‘Catálogo da Epigrafia Romana de Abrantes’, da autoria de José D’Encarnação e de Joaquim Candeias Silva.

Por isso, Jorge de Alarcão conclui ser “muito possível que Aritium Vetus tenha sido capital de civitas, dada a importância das ruínas a que os nossos antiquários fazem referência”.

Tradução da placa romana encontrada junto à Lampreia, em Alvega no ano de 1659.

Certo é que em 1666 Lampreia já existia, senão como povoação, pelo menos como ribeira, descrita pelo padre Jorge Cardoso como “caudalosa”, a tal onde foi encontrada a placa de bronze que tinha gravado um juramento de fidelidade dos Aritienses ao imperador Calígula. O padre Luís Cardoso reproduziu o texto de Jorge Cardoso em 1747, e nas “Memorias Parochiaes de 1758” de Azevedo, encontra-se a notícia sobre Alvega, onde se lê:

“Não tem privilegio algum; antiguidades, ou couzas dignas de memoria que há, são que antiguamente fora chamada esta freguezia de Alvega a cidade de Euricio, como querem alguns, outros dizem que fora chamada a Cidade de Celeuco, porque tomou o nome do sobredito Martir, que na mesma padeceo, e que foi habitada de mais de sinco mil vizinhos e que por meyo della hia o caminho para a Mérida e que disto se vem ainda muitos vestigios, tambem serem ainda huas pilares feitas de pedra e cal que tem ainda, estando demolidos, mais de quarenta palmos de altura, obra de grande custo por onde passava emcanada sobre hum grande braço do Rio Tejo a agua de hua ribeira chamada a Lampreia, para regar hua Lezirea ou campo, que no tempo do Inverno se ve circumdado do mesmo Tejo […]”.

Como toda a gente saberá, lampreia é o nome comum dado a diversas espécies de peixes ciclóstomos de água doce, em forma de enguia, cuja boca é uma ventosa circular, muito comum no Tejo… pelo menos, até um passado recente. Atualmente, quer devido a episódios de poluição, quer pelas barreiras artificiais que impedem a sua migração e desova ou por causa dos baixos caudais do rio, o peixe deixou de abundar nestas águas, segundo afiançam os pescadores das localidades ribeirinhas.

Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

Mas nesta história deixamos o peixe e o Império Romano de lado para nos debruçarmos sobre o curioso topónimo da povoação Lampreia, a última no sentido Sul da União de Freguesias de Alvega e Concavada, encostada que está a outro concelho, a outro distrito e até a outra região: no caso, o Alto Alentejo.

Ao que parece, nas “Memorias Parochiaes de 1758” Lampreia dava nome à ribeira, que provavelmente se estendeu ao aglomerado de casas, de uma “terra muito diferente do que é hoje”, garante ao nosso jornal José de Matos Diogo, de 75 anos. A ribeira, que corre (ou corria) de Lampreia Cimeira – um monte que depois de desabitado voltou a ter gente, após o abandono de Casalinho, lugar que se seguia a Vale das Cevadas –, secou pela primeira vez este ano, garante.

Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

Na verdade, Lampreia foi, na meninice dos habitantes mais velhos, uma terra de médicos, veterinários e professores. Quanto ao número de habitantes, José Diogo contabiliza hoje cerca de sessenta.

Agora, “a terra está morta”, lamenta o homem que emigrou para França em fevereiro de 1973 e por lá continua a ter residência, apesar de reformado. Lampreia é local para passar o verão, também nas férias dos filhos, que são dois, ambos a viver em França, porque naquele lugar da Freguesia de Alvega “pouco há para passar o tempo, a não ser ver os carros a passar na rua, conversar com os vizinhos”, ou observar os gatos a dormitar nos telhados, refere.

Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

Luísa Vicente dá conta de “muitas casas vazias”, sem ninguém para as habitar. “Antigamente havia muita gente”, conta. A residir em Lampreia há 56 anos, embora tenha nascido nos Carregais, casou para aquela povoação. Agora, com 76 anos, passa as tardes sentada à porta de casa, vai apanhar lenha, embora as pernas já recusem grandes caminhadas, ou vai até à horta. “Mas está tudo seco. Este ano não tive nada”, lamenta.

A seca é uma palavra recorrente na boca dos moradores de Lampreia. Inclusive sublinharam a necessidade da nossa visita a uma fonte, situada numa zona elevada da povoação e que, segundo Luísa, “há mais de 100 anos que corria com forte cano de água” e “este ano secou”.

Manuel Rodrigues, também ele um “forasteiro” a morar em Lampreia há 7 anos, opina que o problema talvez seja “a falta de limpeza da mina”. Também por isso, a povoação viu diminuir o número de pessoas… pelo menos a circular nas ruas, muitas delas inclinadas, que nos levam até pinhais e eucaliptais na envolvente da povoação.

É que, apesar da fonte ter um aviso onde se lê “água não controlada”, Manuel assegura que “vinha gente da Casa Branca buscar água” ali, e de “muito lado”, porque “toda a vida se bebeu daquela fonte”.

Luísa Vicente e Manuel Rodrigues em Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

A queijaria de Maria Helena era outro motivo que levava mais pessoas até Lampreia. Mas encontra-se encerrada. O rebanho mantém-se no Alto Alentejo, mas o queijo deixou de se fazer, tendo o leite outro destino que não os queijos artesanais de Lampreia.

Quando José de Matos Diogo tinha uns 7 anos, as queijarias abundavam naquela terra. “Existiam pelo menos sete rebanhos de cabras. Agora não há nenhum. Nem café, nem nada. Chegou a haver duas tascas, uma mercearia e um pequeno supermercado”, enumera o homem, sentado no alpendre de sua casa, construída quase ao lado da habitação de um médico.

São precisamente “os médicos” que retêm José na França. Em Champiny, a quatro quilómetros de Paris, onde vive, tem “médico de família, médico cardiologista, hospital perto de casa. Por cá… é o que sabe”, lamenta, fazendo referência à falta de clínicos de Medicina Geral e Familiar e dos constrangimentos sentidos no Serviço Nacional de Saúde português.

Um das muitas casas abandonadas em Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

Quanto ao topónimo… ninguém sabe explicar. José sabe apenas que Lampreia era também uma terra de pescadores. “Viviam aqui muitos que pescavam no Tejo e lembro-me que apanhavam muitas lampreias”. Talvez tenha a arte da pesca ligação ao batismo.

Nessa arte usavam uma rede e uma “varela, uma vara muito grande redonda que metiam ao Tejo”, explica. Recorda que esses pescadores “arrendavam as pesqueiras, ou seja, o espaço à beira rio aos proprietários das terras”. Alguns nomes ainda vêm à memória de José, como o do pescador Gabriel, do António Tibúrcio, do Augusto da Tia ou do Manuel Henriques Farrolas.

Vale das Cevadas em Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

Damos uma volta pela povoação, até ao Vale das Cevadas, junto a uma ponte onde começa a estrada de terra batida que leva a Amieira Cova, uma povoação do concelho vizinho de Gavião, já no Alto Alentejo.

Da placa de bronze do Império Romano encontrada na ribeira da Lampreia não há qualquer referência na povoação que, à semelhança de outras aldeias do interior do País, guardará para memória futura o envelhecer, o diminuir, e quiçá, o desaparecer da população.

A fonte secou em Lampreia, na União de Freguesias de Alvega e Concavada. Créditos: mediotejo.net

José talvez tivesse ficado por cá, não fosse “puxado por outras pessoas” para ir para França. País que “não é a maravilha que dizem”, assegura. Conta não ter tido “uma vida ruim”, mas teve de trabalhar muito. “Se tivesse cá ficado, talvez tivesse uma vida melhor”, pondera. Afinal, trabalhava na Hidroelétrica do Alto Alentejo – mais tarde EDP –, era eletricista e andava de bicicleta a “contar a luz” por Alvega, Concavada e Barrada.

Hoje conta os dias para regressar a França, porque se entristece com as casas vazias. “As pessoas morreram e os filhos estão fora, em Lisboa, no Porto ou emigraram” para outros países. Cada vez mais, Lampreia também se define, como o ciclóstomo que lhe dá nome, pela migração.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comentário

  1. Lampreia… minha terra natal. Gostei imenso de ler e recordar os verídicos depoimentos apresentados pelas pessoas intervenientes.

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