São 21 metros de comprimento por três metros de largura, de pintura, que retrata uma Constância mais antiga detalhada pelo artista que fomos conhecer.
Por certo já houve quem entrasse nos jardins do Museu dos Rios e das Artes Marítimas, em Constância, só para ver de perto o mural com 21 metros de comprimento por três metros de largura – embora no topo esquerdo conte 2,5 metros -, para explorar as tonalidades das cores, observar as linhas do desenho, tirar fotografias. E se os pintores por vezes desenham fórmulas de salvação da alma, certo é que várias correntes artísticas estão por todo o lado e desde sempre, em todas as culturas e em qualquer lugar humanizado. Em Constância, José Paulo Nobre, um artista nascido há 60 anos na Vila Poema, aceitou compor uma pintura com uma dimensão historiográfica definida à luz da investigação patrimonial feita pelo próprio.
Para a obra, o autor procurou “documentos antigos, fotografias anteriores e posteriores a 1900, até 1940. Foi pegar nessas imagens, fazer uma montagem, ou seja quem está do lado do Tejo ver o Zêzere e quem está do lado do Zêzere ver o Tejo. A elaboração do esboço para passar para o real foi o mais complicado porque a parede, comprida, tinha de ser proporcional à temática que me foi dada, portanto, aos dois rios”, começou por explicar José Paulo Nobre ao nosso jornal.

Um desenho feito à escala, com um centímetro a equivaler a um metro em comprimento e meio metro em altura. O que obrigou à construção de uma estrutura com linhas horizontais e verticais, no sentido de passar o desenho para o muro.
O trabalho demorou cerca de três meses a realizar. Retrata uma Constância do final do século XIX, início do século XX, onde os festejos da Nossa Senhora da Boa Viagem, organizados pelo marítimos e confrarias existentes na época, são o mote para contar uma história em forma de pintura onde se podem ver varinos, barcos-de-água-acima e outras embarcações que há mais de um século cruzavam os rios e desciam o Tejo com mercadorias – cortiça, cereais, vinho , azeite – até Lisboa. Na foz do Zêzere construíam-se as embarcações, num rio muito diferente do atual, ainda sem a barragem de Castelo de Bode.
“Havia muito pinhais e aproveitavam as madeiras para construir embarcações. Inclusivamente existia uma indústria de madeira em Praia do Ribatejo, onde se cortava a maior parte das madeiras”, explica o pintor.
No mural, inaugurado no dia 23 de setembro de 2023, também não faltam os peixes. Sendo mais de 40 as espécies de peixes de água doce alguns escolheram o Tejo como lar, como a fataça, a saboga, o sável ou o barbo.


O convite para tal desafio surgiu através de Anabela Cardoso, responsável pelo Museu dos Rios, “perante uma temática; do comércio, da construção naval e da religião, ou seja a Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem padroeira dos viajantes e, principalmente, dos navegantes”, refere.
José Paulo Nobre é um artista que se dedica às artes plásticas, à cerâmica e à escultura em madeira, embora a sua principal atividade seja a Conservação e Restauro de Património. Quase toda a vida viveu da arte, após uma passagem, como operário, por uma empresa de celulose, optou em 1990 por um curso que lhe permitisse acesso ao mundo das artes. Possui atualmente, em conjunto com a sua companheira, uma loja de artesanato no centro histórico de Constância, dando também a conhecer o seu trabalho na rede social Facebook em ‘Arte Constância’.
“Todas as peças da loja são de nossa autoria. Feitas a partir de produtos naturais, por exemplo de madeiras que encontramos à beira do rio quando vamos dar uma caminhada. Com as pedras do Zêzere também tenho feito alguns trabalhos com sucesso. Estamos num ponto de viragem para as coisas mais naturais há muita procura de peças originais. É um privilégio estar sempre a criar coisas. Sempre sonhei em trabalhar por conta própria, em algo que gostasse. Foi nessa ideia que me foquei e desde 1993 que vivo das artes”, detalha.






A sua capacidade para se emocionar com a beleza começou em criança teria uns quatro ou cinco anos, ao passar pela casa de um pintor em Constância, no trajeto a que o recado encomendado pela mãe o obrigava. “Descia as escadas, ia à mercearia e no meio ficava a casa desse senhor, no rés do chão, de portadas abertas. A janela tinha umas grades de ferro mas dava para espreitar lá para dentro. Metia os braços em cima do pial da janela e maravilhava-me. Ver os pincéis, as tintas, as paletas, os quadros, os cavaletes. Aquilo mexeu comigo” e disse para si próprio “é isto que quero ser!”.
Portanto, dedicou a sua vida profissional à Conservação e Restauro, designadamente frescos, pintura em tela, decorações, talha dourada, restauro de imagens. Por causa dessa sua profissão José Paulo diz ter andado “com a casa às costas” desde o Gerês passando por Braga, Póvoa de Lanhoso, Porto, Coimbra, Lisboa, Algés. “Há muito património e não se pode deslocar e é um trabalho moroso, pode demorar meses ou mesmo anos. Já estive num espaço reduzido dois anos, desde o chão até ao teto, tudo intervencionado. É um mundo!” afirma.
Afirma existir em Portugal “um património fabuloso” mas, por outro lado, “é o parente pobre, nas questões financeiras. Não há muita sensibilidade”, critica.
Conta de durante 20 anos trabalhou, e ainda trabalha, no Convento do Louriçal (ou Mosteiro do Desagravo do Santíssimo Sacramento), mandando erigir por D. João V, em Louriçal, uma localidade entre Pombal e Figueira da Foz, sendo a necessidade de conservação e restauro deste património uma das razões que o fez andar com a “casa às costas”. Classifica-o como “convento mãe” porque “de lá saíram muitas religiosas para fundar outros conventos inclusive o de Montalvo” em Constância, refere.
Mas no seu currículo encontramos, por exemplo, trabalhos na Casa do Corpo Santo, em Setúbal, Igreja do Pópulo e Igreja de Santa Cruz, em Braga, ou Sé Nova de Coimbra. Além de parcerias, como a intervenção no teto da Igreja Matriz de Constância, na recuperação do medalhão da pintura do pintor José Malhoa, retratando Nossa Senhora da Assunção.


E nessa arte de arriscar transformar o mundo… pelo menos mediante o seu olhar, aplicando essa metamorfose às suas peças, José Paulo dedica-se, como disse, às artes plásticas, à cerâmica e à escultura. Todas diferentes mas que segundo ao artista se complementam. “Até a música é prima da pintura. É uma coisa que gosto e dá-me prazer e tenho tido sucesso com isso… não tanto como gostaria, mas dá para viver”.
Quanto a feiras, com o objetivo de mostrar o seu trabalho, apenas no último ano foi convidado para participar na Feira Internacional de Artesanato e convidado pelo Município de Constância para representar o concelho na Feira Mostra de Sardoal.
Nos seus trabalhos artesanais diz gostar mais de idealizar e conceber peças ligadas à tradição e ao histórico de Constância como placas de barro gravadas e pintadas, imitando azulejos, bonecas de trapos, de perna de cana ou ímans e peças que lhe peçam por encomenda. “Os visitantes reagem com espanto. Aliás, os de fora são quem dá mais valor. Tenho tido um feedback positivo, melhor não pode ser. Não esperavam encontrar um espaço em que há criatividade… mas não posso ser presunçoso”, sorri.





Cada peça é, em si mesma, considerada por quem compra “bastante interessante”, quer pela criatividade quer pelo apelo ao naturalismo e à tradição, uma prova da versatilidade do meio ambiente e da capacidade de fazer diferente saída das mãos de artesãos irrequietos e inventivos.
Portanto, a profissão de artesão é para dar continuidade? “Sim. O que é que eu vou fazer? Até morrer se tiver mobilidade e se tiver cabeça para isso, não estou a ver-me reformado. Sinto-me ativo e faço tudo aquilo que fazia e quero fazer coisas que ainda não fiz. Tenho muita coisa na minha cabeça”, admite.
Um dos projetos em mente é a abertura de uma Oficina de Artes. Confessa que ambicionar ter, em Constância, um espaço onde se aprendesse e trabalhasse em escultura, pintura, cerâmica, para “qualquer pessoa que quisesse aprender, ver o processo todo, desde a conceção até vidrar uma peça. Ando há anos a batalhar para ter um espaço, com esta ambição, mas não encontro. Tenho uma oficina pequenina, só com 22 metros de área coberta, e está cheia até ao teto, com ferramentas de trabalho e o forno para cozer as peças em cerâmica. Não trabalho com moldes”, assegura.
Outra ambição passa por pintar em tela “enquadramentos que me apetecesse. Mas para fazer isso precisava de ter mais rendimentos e não tenho. Não é fácil ser artista. Inicialmente foi muito complicado, mesmo a trabalhar na conservação e restauro. Nesta zona não há muito trabalho nessa área… há muito património mas não há dinheiro para fazer intervenções”, revela.
Gosta de naturalismo e de abstrato na pintura e da escultura em madeira que considera ter “um potencial tremendo”, e a cerâmica pela sua plasticidade que permite desenvolver diversos trabalhos.
Estabeleceu contactos com outros técnicos em conservação e restauro, muitos deles formados no Instituto Politécnico de Tomar, e realizou parcerias de Norte a Sul do País. Recorda uma intervenção num palacete estilo colonial, na rua do Breiner, na cidade do Porto, “com muitas decorações estilizadas” e em Vila Nova de Gaia, onde foi responsável pela conservação e restauro de frescos de um palacete propriedade de um português que fez fortuna no Brasil.

Voltando ao mural, reforça que a maior dificuldade da pintura encontrou-se na realização do esboço num papel de dois metros e 10 cm em comprimento por 50 cm de altura. Esse esboço foi oferecido ao Museu. E agora olha para a obra como algo concluído. Lembra que o trabalho no muro também obrigou à utilização de um andaime com rodinhas, mas manifesta-se “satisfeito” com o resultado.
Agradou-lhe igualmente o “positivo feedback” do público. Entende que o mural encontra-se entre a arte e a mensagem. “Ninguém me disse que faltava isto ou aquilo. E os mais novos, que não sabem o que foi Constância, podem observar e compreender” como alternativa didática.
Contudo, José Paulo Nobre, no referido mural, não foi um estreante em quadros de grande dimensão, uma vez que já havia pintado, para o Campo Militar de Santa Margarida, um painel com oito metros de comprimento por cinco de altura, por ocasião de uma festa de Natal. Na Base Aérea de Tancos também deixou o seu traço no bar dos praças e uma pintura mural na aldeia de Santa Margarida da Coutada por ocasião de uma tertúlia. Conclui que o prazer esteve na ação que designa como “a mais desafiante”, no que toca a colorir paredes.
