O percurso e a obra do escritor angolano José Luandino Vieira foram celebrados em Ourém em dois dias de jornadas que decorrem na sexta-feira e no sábado. Organizadas pela Câmara de Ourém, através da Biblioteca Municipal, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto Politécnico de Tomar, as Jornadas “Luuandando com José Luandino Vieira – As estórias de ontem, hoje e amanhã” tinham por objteivo divulgar e celebrar a obra de um dos nomes mais relevantes da literatura de língua portuguesa, mantendo viva a ligação ao sítio onde Luandino Vieira nasceu a 04 de maio de 1935.
“Luuandando com José Luandino Vieira” juntou em Ourém especialistas que trabalham a obra do escritor, em dois dias de reflexão sobre “todas as suas particularidades”, desde logo a criação de palavras que cruzam “o português e a língua do povo angolano”, tendo o programa integrado ainda uma leitura encenada, pelo Trigo Limpo/Teatro ACERT, na tarde de sexta-feira.
Este sábado, segundo dia das Jornadas “Luuandando com José Luandino Vieira”, foi dedicado à exploração de temas relacionados com a luta pela independência e o diálogo intercultural, contando uma vez mais com a participação de alunos do concelho de Ourém.

O quinto painel das Jornadas, “Luandino e a luta pela independência”, focou-se na obra “A Cidade e a Infância”, com a intervenção de Ana Paula Tavares (Universidade de Lisboa), sob moderação de Luís Ricardo Duarte, jornalista do Jornal de Letras. A importância da memória coletiva e da literatura na construção da identidade nacional foi um dos temas em debate.
O sexto painel, “Línguas e culturas em diálogo: O Livro dos Rios”, teve como moderador Carlos Ascenso André (Universidade de Coimbra) e contou com as contribuições de Richard Zenith, escritor e tradutor, e Joana Passos (Universidade do Minho). A discussão abordou as tensões e riquezas culturais expressas na obra de Luandino.
A tarde foi marcada pelo sétimo painel, “Luuandando pelas escolas de Ourém”, que trouxe ao palco o talento e a criatividade de alunos do concelho. Moderado por Pedro João Santos, jornalista do Público, o painel destacou trabalhos artísticos e literários inspirados na obra de Luandino Vieira.
A exposição “Luuandando pelas escolas de Ourém”, patente na sala estúdio do Teatro Municipal de Ourém, foi visitada pelos participantes, que puderam apreciar o resultado do envolvimento dos alunos na interpretação criativa das estórias do escritor.
Coube à vice-presidente da Câmara Municipal de Ourém encerrar as jornadas. Isabel Costa, na sua intervenção, destacou a importância do evento na valorização cultural do Município, destacando a perceção profunda do universo literário do autor marcado pela intervenção cívica e política transversal a épocas e dinâmicas.

Reforçando a importância da obra de Luandino na preservação da memória histórica e na construção de novos horizontes narrativos, a vice-presidente encerrou o evento com uma nota de agradecimento a todos os participantes e organizadores, reiterando o apelo à valorização da cultura lusófona e oureense em particular.
Nesse sentido, renovou o compromisso de continuar a promover iniciativas culturais que destaquem os valores culturais comuns e a história, com uma alusão clara a José Luandino Vieira e ao seu poder de unir gerações e culturas com uma noção de intemporalidade. A sessão de encerramento contou ainda com a presença da vereadora Micaela Durão.
Natural da Lagoa do Furadouro, na freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, José Luandino Vieira saiu ainda criança de Ourém, passando a infância e juventude em Luanda, Angola.
Naturalizado angolano, envolveu-se na luta pela independência de Angola e esteve mais de uma década preso durante o regime salazarista, passando oito anos no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde.
Em 2006 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, distinção que recusou por estar então há 30 anos sem escrever – “considerei que era uma injustiça para com os colegas que trabalharam e se esforçaram ao longo desses anos” – e “por não gostar de dinheiro”, disse o escritor à agência Lusa em 2009.

O percurso, a obra e também a personalidade de Luandino Vieira foram recordados em Ourém nos dias 24 e 25 de janeiro, em jornadas que fecharam vários meses de trabalho de muitos alunos do concelho.
