Jorge Salgado Simões. Foto: mediotejo.net

Jorge Salgado Simões nasceu em Coimbra em 1978. Dois anos depois, deixaria a “cidade dos estudantes” rumo a Torres Novas. O pai, ferroviário, foi deslocado; a mãe, professora, acompanhou-o. Ditou a vida ou o destino que não mais abandonassem a cidade torrejana, onde criaram raízes. Hoje, casado e pai de dois filhos, Jorge Salgado Simões vive dentro do coração da cidade, numa casa recuperada no centro histórico. A terra que o acolheu, onde cresceu, onde fez amizades e onde estudou até regressar à cidade que o viu nascer, quando foi admitido na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Licenciou-se em Geografia. Queria ser professor. Mas a dura realidade da vida docente na altura viria a desviá-lo desse caminho. Depois de dois anos a dar aulas, primeiro na Mealhada, depois em Abrantes, percebeu que insistir na carreira de professor seria idêntico a mergulhar num mundo de incertezas. Queria construir uma carreira sólida e segura.

Em 2002, Jorge Salgado Simões concorreu a um lugar de técnico superior para os serviços de Educação da Câmara Municipal de Torres Novas. Desde então, naquela autarquia assumiu cargos dirigentes em departamentos como a Educação, a Cultura, o Desporto, Associativismo, Turismo e Património Natural. Foram vinte anos ao serviço da comunidade torrejana enquanto funcionário municipal – e é assim que se apresenta sempre).

“Apresento-me sempre como funcionário municipal. Nunca me apresentei pelos cargos. Tenho mesmo algum orgulho em ser funcionário municipal. Em trabalhar para uma comunidade e para o desenvolvimento de um território.”

Jorge Salgado Simões

Duas décadas volvidas, orgulha-se de ter participado em projetos cruciais para o desenvolvimento do território e da comunidade da terra que o adotou e que passou a chamar sua. Destaca a reforma na rede escolar, com a construção e operacionalização dos centros escolares, que considerou como um projeto de real importância, numa altura em que as competências municipais no âmbito da Educação ainda eram curtas. Na área da Cultura, sublinha o trabalho árduo que foi feito no sentido de transformar a Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes e o Museu Municipal Carlos Reis em espaços culturais vivos e visitados, verdadeiramente integrados na comunidade. Acredita que 20 anos depois, o objetivo foi cumprido.

Ainda na alçada da Cultura, aponta em direção ao Teatro Virgínia, que considera estar atualmente a cumprir e a maximizar aquilo a que chama de verdadeiro serviço público. Em todos esses projetos, esteve envolvido direta ou indiretamente. Com todos, ganhou experiência. Tocou várias áreas e responsabilidades. Não se especializou em nenhuma. Mas considera que adquiriu conhecimentos substanciais em todas as vertentes.

Foi desafiado a trabalhar com equipas diferentes e a dominar múltiplos dossiers, possibilidades de financiamento, concursos, candidaturas e uma panóplia de soluções diversificadas para responder às necessidades de uma comunidade e de um território em desenvolvimento.

Entretanto, fez uma Pós-Graduação em Inovação e Políticas de Desenvolvimento, concluiu o Mestrado em Sociologia – Cidades e Culturas Urbanas e encontra-se a acabar um Doutoramento em Geografia, ramo de Geografia Humana. Pelo caminho, publicou cinco livros, dois dos quais para crianças.

Lesbos, uma viagem transformadora

De entre todos os projetos em que participou, Jorge Salgado Simões recorda com sentimento especial uma deslocação em trabalho, no âmbito dos projetos europeus que acompanhou. Uma viagem a Lesbos, no final de 2015, que viria a ter mais reflexos na construção da sua personalidade, do que propriamente a nível profissional.

Um grupo de refugiados sírios na chegada à ilha de Lesbos. Fotografia: Andrew McConnel / Panos

“Há momentos na vida que nos marcam. No âmbito dos projetos internacionais, em 2015, com a Margarida Teodora, da Biblioteca, fomos a Lesbos, no final do verão. Estava tudo a acontecer, aquela questão dos refugiados. Confesso que esse momento teve mais consequências na construção da minha personalidade do que alguém possa imaginar. Quando vês aquele movimento humano desesperado, vens para casa e não consegues estar sossegado. Ver a fragilidade humana… estares numa praia e de repente aparecem-te várias dezenas de pessoas, novos, velhos, crianças… podias ser tu, os teus pais ou os teus filhos. Olhas para eles e percebes que aquilo te pode acontecer a ti. E aí percebes a fragilidade com que também podes deparar-te a qualquer momento. Estar lá, ver e ser confrontado com essa realidade a acontecer à frente dos meus olhos, mudou-me. Essa viagem transformou-me, no sentido de ganhar um grande respeito pelas pessoas que emigram. Pessoas que são deslocadas das suas terras, por motivos económicos, políticos, religiosos… seja por que motivo for. Essas pessoas merecem ser acolhidas em qualquer lugar do mundo, com dignidade. Aliás, há um direito humano que é o Direito à Deslocação. Mas, depois, não há um acolhimento digno”, lamenta.

Foi precisamente na sequência dessa viagem transformadora a Lesbos, que Jorge Salgado Simões escreveu o livro “Para melhorar a situação. Os processos da Junta de Emigração no Arquivo Municipal de Torres Novas”. Uma obra sobre os emigrantes torrejanos que nas décadas de 60 e 70 partiram para a Europa à procura de melhores condições de vida.

“De Torres Novas saíram cerca de duas ou três mil pessoas. E nós somos indiferentes a isso? Na altura, os portugueses sofreram bem na chegada a França. Todos temos na cabeça as imagens dos “bidonvilles”, [que, arredores de Paris, albergaram milhares de portugueses que nos anos 60 trabalhavam na construção civil]. Tudo o que nós não precisamos neste momento é de coisas dessas a acontecerem no século XXI. No fundo, com esse livro, quis deixar a mensagem de que ‘o mundo é redondo e cabemos cá todos’. Volta e meia, temos uma crise humanitária, social ou económica, que faz com que as pessoas tenham que se movimentar. E nós temos de ter muito respeito por todas essas pessoas.”

De tudo o que lhe conferiu maior preparação profissional, Jorge Salgado Simões não tem dúvidas de que foram precisamente os projetos de internacionalização em que esteve envolvido e que lhe possibilitaram ter uma visão mais precisa do que acontece além-fronteiras, à escala europeia, por forma a encontrar soluções de valor acrescentado, possíveis de implementar em projetos locais. Uma alavanca forte para que se sinta hoje preparado para avançar com confiança para o desafio que se segue.

Jorge Salgado Simões assumiu no dia 3 de janeiro, o lugar de 2º Secretário da Comissão Executiva da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT).

Depois de mais de uma hora a falar sem reservas sobre a sua formação académica e os projetos que tem vindo a assumir, eis que surge “a  pergunta mais difícil de responder”: Quem é Jorge Salgado Simões, aquele que agora entra ao serviço da CIMT?. Sorri. Não demora na resposta, mas também não se precipita. A ponderação será uma das suas características. Percebe-se que mais facilmente fala de competências profissionais e dos projetos que lidera do que de atributos pessoais. A sua resposta é prova disso. Ainda antes de se assumir como “uma pessoa simples”, afirma-se como alguém “de perfil muito técnico”, não obstante preocupado com as causas sociais e ambientais.

“Sou uma pessoa com um perfil muito técnico, decorrente das funções. São vários anos de funcionário público. Mas também sou uma pessoa simples, acho eu. Tento ser uma pessoa simples. E sou uma pessoa com preocupações ambientais e sociais.”

Jorge Salgado Simões

Quanto a características profissionais, para além do perfil técnico desde logo mencionado, Jorge Salgado Simões diz que gosta de trabalhar em equipa. Aliás, defende que só assim é possível encontrar as melhores soluções. Anteriormente, o seu foco estava num único município; agora, estará em treze. O que, na sua opinião, tem muitas vantagens: “Será muito difícil fazer a diferença isoladamente. Não estou a dizer que é impossível, mas é muito mais fácil se os municípios estiverem juntos em algumas áreas estratégicas. Na questão dos fundos comunitários é essencial”, afirma.

Jorge Salgado Simões vai trabalhar diretamente com Miguel Pombeiro, 1º Secretário da Comissão Executiva da CIMT, a quem reconhece “competência, eficiência, ponderação e organização”, o que acredita ser um bom ponto de partida “para que as coisas corram bem”. Ainda não sabe, no entanto, que responsabilidades irão dividir. Isso, deverão “decidir em conjunto”.

Depois de 20 anos ao serviço do município de Torres Novas, foi eleito 2º Secretário da Comissão Executiva da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT), com 28 votos a favor, 1 voto contra e 6 abstenções na Assembleia Intermunicipal, e aprovado por unanimidade no Conselho Intermunicipal.

Da crise económica à crise demográfica, os desafios para o território do Médio Tejo

Sobre a sub-região para a qual vai trabalhar, agregando os 13 municípios da CIMT, Jorge Salgado Simões diz que é “um território com constrangimentos, mas também com potencialidades gigantescas”, com “uma localização muito interessante, boas acessibilidades e um contexto de património natural e cultural, invejáveis” e vários recursos “com possibilidade de serem trabalhados para que se encontrem as melhores soluções em resposta às necessidades das populações, que são muitas”.

ÁUDIO | Jorge Salgado Simões sobre os grandes desafios para a região do Médio Tejo

“O Médio Tejo é uma das regiões que menos riqueza produz. Temos, sobretudo, um grande desafio económico para enfrentar. Mas, além disso, temos aqui um problema gravíssimo de interioridade, que tem vindo a manifestar-se nos últimos resultados demográficos. Percebemos que no Médio Tejo (à semelhança do que acontece em todo o interior do país), temos este desafio demográfico pela frente. Um forte envelhecimento. É preciso que o território se prepare para viver com soluções que melhorem e amenizem as condições de isolamento em que a população vive, sobretudo em contextos mais rurais. Isso é importantíssimo. E depois, reforçar a economia, tentar criar emprego… a questão da formação e da educação é crucial para fixar gerações, para reter pessoas mais qualificadas… Todos sabemos isso, o problema são as soluções.”

“Entusiasma-me poder trabalhar para um conjunto mais alargado de Municípios, onde se inclui Torres Novas, mas onde cabem mais 12 concelhos. Cerca de 250 mil habitantes, que esperam melhores soluções para o seu território e para a sua qualidade de vida nas terras onde vivem, sejam elas maiores ou mais pequenas. No fundo, é o desafio de qualquer funcionário público que trabalhe numa Administração Local ou Regional.”

Jorge Salgado Simões

Quanto a uma visão para o futuro da região do Médio Tejo, a médio e longo prazo, não se atreve a arriscar para não falhar. Até porque, a conjuntura não permite dar lugar a grandes certezas ou projeções. “Atualmente é muito complexo imaginar seja o que for a longo prazo. Eu venho da escola da Geografia e era um grande fã dos instrumentos de planeamento. Era e sou, porque nós precisamos de planos que orientem a nossa atividade. Mas, hoje em dia, planear a longo prazo não é eficaz. E nós vemos isso com instrumentos mais longos, como o PDM, por exemplo, que são autênticas desgraças temporais. Fazer planos para 20, 30 anos, acho que é quase impossível. Devemos ter uma ideia para onde queremos ir, mas depois, os próprios planos que desenhamos têm de ser adaptados à possibilidade de ao fim de um, dois ou três anos, consoante o contexto, terem a flexibilidade de se poderem desviar para se adequarem às novas realidades. Porque neste momento é tudo muito volátil”, refere.

Entusiasmado e expectante. Era este o estado de espírito de Jorge Salgado Simões, dias antes de assumir funções. Apesar de não esconder uma “ligeira mágoa” por deixar a Câmara Municipal de Torres Novas, entende que sai na altura certa. “Uma pessoa apega-se às coisas, às pessoas e às matérias com que está. Mas também acho que, ao fim de 20 anos de casa, é o tempo ideal para eu sair e para que Torres Novas possa ter outros protagonistas. Isso também é muito importante.”

“Não quero ser presidente de Câmara”

Filiado no PSD, Jorge Salgado Simões admite acompanhar avidamente os panoramas da política local, nacional e internacional. E reconhece que nutre “um profundo respeito” por todos os políticos, em especial os que da Administração Local.

“Eu gosto muito de política. Neste meu percurso, trabalhei com muitos políticos. E há uma coisa que eu ganhei por todos, que é um profundo respeito. Quem exerce funções políticas, quaisquer que sejam, mas falando à escala local, deve merecer de nós, cidadãos, todo o respeito. Todos são diferentes, uns têm umas qualidades, outros, outras. Uns têm mais defeitos e outros, menos. Mas, o que é verdade é que aquelas pessoas que estão a exercer aqueles cargos, seja numa Junta de Freguesia, seja numa Câmara Municipal,(como vereadores ou como presidentes), têm a sua vida completamente transformada. E o que as move, com certeza, é aquilo que todos nós queremos, melhorar os nossos territórios. Esse respeito, eu ganhei-o.”

Jorge Salgado Simões. Fotografia: mediotejo.net

Ainda assim, “ao contrário do que muitos possam pensar”, garante não ter aspirações políticas. “Gosto muito de política e vivo muito a política. Sou filiado no PSD, já com muitos anos de militância. Mas, não. Não quero ser presidente de Câmara. O que vai acontecer no futuro, não sei. Ninguém sabe. Mas penso que o meu perfil é sobretudo técnico, e é nisso que estou concentrado.”

Carla Paixão

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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