Generoso e altruísta, o velho médico havia saído da pena do novo escritor, também ele médico, mas já doente.
Júlio Dinis, aliás, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que nascera no Porto a 14 de Novembro de 1839 (faz hoje precisamente 178 anos), dera-lhe vida numa das suas populares crónicas de aldeia, “As Pupilas do Senhor Reitor”. Chamou-lhe João Semana. O escritor estudara medicina, mas entretanto adoecera. Vingou-se então naquela escrita de afectos, das gentes e terras que percorreu ou sonhava ter percorrido.
Escrito com apenas 27 anos, um livro daqueles, qual espargata com um pé no romântico outro no realismo é uma acrobacia que se faz sem aquecimento nem alongamentos. Escrever fácil é difícil. Lê-lo hoje, é assim como que uma viagem a Bedrock dos Flintstones. Para a época, aquilo é que era escrever. Com sentimento, pontos e vírgulas. Com paixão, parágrafos e tudo. Com conhecimento de causa(s). Tudo no sítio e lugares certos. Amores, desamores e assédios q.b., bons costumes, maus conselhos e coisas assim.
E as personagens? O Reitor e as pupilas de quem já ninguém sabe o nome. O José das Dornas, lavrador abastado, pai do robusto Pedro e do franzino Daniel, das medicinas também. O João da Esquina, que vendia de tudo um pouco, até má-língua à mistura. E o barbeiro, também ele curandeiro, que eram mais as mezinhas botadas, que as vezes que a navalha servia.
E, claro, o inevitável João Semana, cirurgião octogenário, anos a fio descobrindo moléstias, remediando maleitas, cicatrizando feridas de todas as vidas.
Morreu novo o escritor, com 31 anos apenas. Tinha ascendência irlandesa. Pelo contrário, o velho médico, resistiu ao tempo e ainda hoje é recordado como símbolo de generosidade e devoção à causa, de disponibilidade total, sobretudo para quem dele mais precisa. Tornou-se uma personagem imortal.
Sem que o soubesse, cento e cinquenta anos depois, um outro irlandês, resolveu desafiá-lo para um grande evento na capital do país. João Semana aceitou. Montado na sua inseparável égua, fato de linho cru, chapéu de palha e botas à lavrador, entrou naquele pavilhão pleno de gente moderna, inteligente, robotizada e ruborizada. Olhou, ouviu e assistiu ao que prometem os novos John Week. Estremeceu, ajeitou as rédeas e saíu.
E quando o convidaram para o jantar num sítio especial, com Almeida Garret, Guerra Junqueiro e gentinha da sua época, deu esporas à égua e partiu, gritando:
– Regresso à aldeia, vou ter com os meus. Que no tempo das perdizes, tanto mentes, quanto dizes…
