João Espanhol a empunhar um megafone na homenagem ao General Humberto Delgado em Brogueira, Torres Novas, 22 de Setembro de 1974 | Foto: Arquivo RTP

Não me recordo quando o conheci, nem em que circunstâncias. Sempre me lembro dele em Torres Novas. Nas sessões de cinema e culturais para crianças organizadas pelo Cineclube de Torres Novas no início dos anos de 1970 (onde até os mais novos sentiam o ambiente oposicionista e resistente sempre presente em todas as palavras, gestos e atitudes dos mais velhos), especialmente a dedicada a Charlie Chaplin em Dezembro de 1973, em que pela primeira vez assisti aos “Tempos Modernos”.

Lembro poucos meses depois a presença infalível do João Espanhol (João José Lopes) em todas as manifestações populares a seguir ao 25 de Abril e 1º de Maio de 1974 em Torres Novas, na rua, num palco improvisado na Praça 5 de Outubro, ou na varanda do Teatro Virgínia.

Revejo como se fosse hoje a homenagem ao General Humberto Delgado realizada na Brogueira, em 22 de Setembro de 1974, organizado pela então Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Torres Novas, onde o João Espanhol perante uma multidão de vários milhares de pessoas empunhou bem alto o megafone para que as palavras dos oradores a todos pudessem chegar.

Recordo a grande e profunda amizade e respeito mútuo que unia o meu pai ao João Espanhol. Essa amizade resistiu até ao final dos seus dias e saiu reforçada nos momentos difíceis políticos e pessoais que ambos atravessaram.

Quando estudei na Universidade em Lisboa e vinha de comboio para Torres Novas foi buscar-me dezenas de vezes à estação da CP do Entroncamento, quando o meu pai por razões profissionais estava impedido de o fazer. Sempre pontual, sempre afetuoso, sempre generoso, sempre com energia, sempre com um sorriso.

João Espanhol era um músico de grande valor e mérito e por isso possuidor de uma enorme sensibilidade que transformava em afecto, alegria e generosidade que transmitia a todos os seus amigos.

O João Espanhol olhava nos olhos, apertava a mão com força e abraçava com vigor. Era um amigo genuíno.

Quando comecei a minha vida de advogado em Torres Novas, em 1992, acompanhei um processo judicial com alguma complexidade em que ele era parte. Apesar de ser ainda um novato naquelas andanças sempre senti a confiança dele no meu trabalho. Desde aí os nossos laços de amizade e respeito mútuo estreitaram-se ainda mais, a ponto de nunca mais me querer cobrar qualquer trabalho seu que lhe pedisse.

João Espanhol era um homem de convicções, um democrata, um lutador pelos direitos dos mais desfavorecidos, um homem do 25 de Abril.

Era um homem de uma honestidade inabalável, de uma verticalidade intocável e de uma correção excecional.

Sabia que o seu estado de saúde se tinha agravado muito nos últimos meses.

Ironicamente tive conhecimento do seu falecimento através do cantor Paulo de Carvalho, que anunciou tristemente a sua morte a meio do espetáculo que deu no Teatro Virgínia, no passado dia 9 de Fevereiro, em Torres Novas.

O resto deste concerto, de uma das melhores vozes da música portuguesa das últimas décadas, transformou-se para mim numa justa e digna homenagem a outro grande cantor e músico torrejano e a um grande homem.

João Espanhol expôs no vidro da montra da sua Casa Espanhol durante muitos anos um póster com uma fotografia em tons de vermelho de uma personalidade política portuguesa, onde na base tinha escritas as palavras: “UM HOMEM”.

São as palavras a que associo o João Espanhol: “UM HOMEM”.

Neste momento de difícil perda, apresento a título pessoal e como Presidente da Assembleia Municipal de Torres Novas as minha sentidas condolências à sua filha Dulce, a toda a restante família e amigos e ao Partido Comunista Português.

Presidente da Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Assembleia Municipal de Torres Novas. Mestre em Gestão e Conservação da Natureza e Doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa. Foi assessor jurídico do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e da Reserva Natural do Paul do Boquilobo durante cerca de quinze anos. Advogado há mais de 25 anos, participa ativamente em vários
órgãos e institutos da Ordem dos Advogados Portugueses.

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