Já se sabia. Ele não. Já se falava. Ele não. Já se despediam. Ele nunca. Nunca poderia dar a volta a chave, alguém que passou a vida a fazer milhares delas. Nunca poderia largar o tesouro, quem passou anos a amolar sonhos, afectos e tesouras, mesmo que agarrado à bengala da vida. Quem tanta liberdade cantou, nunca poderia libertar-se assim das amarras daquela sua misteriosa gaiola. Confessional, conspiratória, inspiradora.
Não serei a pessoa certa para falar dele. Outros, muitos outros que o conheceram noutras vidas, cumplicidades e camaradagem o farão certamente, quando a porta não abrir. Amigos e camaradas. Ou só amigos. Ou camaradas. Ou nenhuma das coisas. Eu, sou “apenas” e orgulhosamente, “o seu vizinho”. E encosto a cabeça ao seu ombro, sem que ele dê por isso. Sabe-me bem e ele não sabe. Ou faz que não sabe, que é sempre um sinal de sabedoria.
É por tudo isto que agora, antes do adeus, lhe agradeço o ombro, a vizinhança e tudo. E também as lembranças com que ele, o João e a sua Celina me mimaram: dois cabos de velhos guarda-chuvas ao qual faltam varetas, que não a patine das mãos que os afeiçoaram. E ainda, as duas velhas chaves às quais sobraram as gavetas da memória. Representam simbolicamente os dois e a sua união. Fiz deles o coração amigo como testemunho.
E a partir de hoje, 1º de Maio, ficarão junto a mim e aos meus livros.
Obrigado, vizinhos. Até sempre companheiro, camarada ou amigo. E depois do adeus ficará, sempre que queira, um sofá à sua espera. Para dois dedos de conversa, sem arestas para limar.
Um abraço do Adelino.
