Foto: Adelino Correia-Pires

Já se sabia. Ele não. Já se falava. Ele não. Já se despediam. Ele nunca. Nunca poderia dar a volta a chave, alguém que passou a vida a fazer milhares delas. Nunca poderia largar o tesouro, quem passou anos a amolar sonhos, afectos e tesouras, mesmo que agarrado à bengala da vida. Quem tanta liberdade cantou, nunca poderia libertar-se assim das amarras daquela sua misteriosa gaiola. Confessional, conspiratória, inspiradora.

Não serei a pessoa certa para falar dele. Outros, muitos outros que o conheceram noutras vidas, cumplicidades e camaradagem o farão certamente, quando a porta não abrir. Amigos e camaradas. Ou só amigos. Ou camaradas. Ou nenhuma das coisas. Eu, sou “apenas” e orgulhosamente, “o seu vizinho”. E encosto a cabeça ao seu ombro, sem que ele dê por isso. Sabe-me bem e ele não sabe. Ou faz que não sabe, que é sempre um sinal de sabedoria.

É por tudo isto que agora, antes do adeus, lhe agradeço o ombro, a vizinhança e tudo. E também as lembranças com que ele, o João e a sua Celina me mimaram: dois cabos de velhos guarda-chuvas ao qual faltam varetas, que não a patine das mãos que os afeiçoaram. E ainda, as duas velhas chaves às quais sobraram as gavetas da memória. Representam simbolicamente os dois e a sua união. Fiz deles o coração amigo como testemunho.

E a partir de hoje, 1º de Maio, ficarão junto a mim e aos meus livros.

Obrigado, vizinhos. Até sempre companheiro, camarada ou amigo. E depois do adeus ficará, sempre que queira, um sofá à sua espera. Para dois dedos de conversa, sem arestas para limar.

Um abraço do Adelino.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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2 Comments

  1. Que bem escrito. Que maravilha! Tanta sensibilidade, quanta ternura, tanto amor. Eles merecem. Há pessoas que são eternas

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