João de Araújo Correia Foto: DR

As conversas são como as cerejas e a escrita como as conversas. Vamos mastigando, engolimos um ou outro caroço, que mal não fará, entra pela boca e sai algures, pelo sítio certo. E conversamos, e escrevemos, vão-se os caroços, aproveita-se o sumo.

Entre a espuma dos dias e a espuma do Tejo, tropecei num bom texto que esta semana circulou por aí, de quem sabe da poda, da sua, que é a de tratar da saúde a quem dela precisa (1). Chegou-me às mãos, ou melhor, aos olhos, pela página da Rita Serras Jorge, também ela médica, tal como o autor do texto, João Araújo Correia, Director do Serviço de Medicina e Chefe de Equipa de Urgência do Centro Hospitalar do Porto. Não sei se o teria lido, não fosse ele o autor. Mas aquele nome só poderia ser de boa cepa. Bisbilhotei. Não me enganei. Era o neto do outro, do “meu” João de Araújo Correia (2).

E lá fui eu, subindo o rio, serpenteando o Douro até à Régua. Ali estava ele, o avô do autor do tal texto, seu homónimo e também médico, nascido nos finais de XIX, por quem o neto tinha uma admiração desmedida, ainda se lembrando de o ter acompanhado em consultas “João Semana” e a quem um dia chamou “Robin dos Bosques”, pois cobrava a quem podia, para aliviar as dores de bolso, a quem os tinha vazios.

Médico de província, de gentes com vinho a mais e comida a menos, de frios e gelos a moerem os ossos, de sopas de cavalo cansado a enganarem o estômago, fazendo das fraquezas forças para uma luta tão desigual. Sim, porque se o Minho será obra da natureza, aquele Douro, foi sobretudo feito pelo homem! Vejam-se aqueles socalcos, anfiteatros de pedra e vinha. Ali sim, tudo é sangue, suor e lágrimas.

À noite, apesar do cansaço dos dias de sol a sol a cuidar desgraças, João de Araújo Correia lá ia passando ao papel as dores daqui e dali. Um parto sem dó mas com dor, uma cavadela mal calculada, mais uma fraqueza de morte.

Escreveu, escreveu muito. Aqueles “Contos Bárbaros” ou os “Contos Durienses”, todos os outros seus contos, só ele os poderia ter escrito. Como diria Vergílio Ferreira “… um conto bem realizado, excede em importância um mal realizado romance…”. E, na sua obra, ali está a toda a sensibilidade de quem, estudando medicina, se viu forçado, por doença, a interromper o curso durante vários anos. Curiosa e paradoxal situação: um médico que por ter sido doente, veio a revelar-se um escritor de afectos e de horas mortas, “… em que o galo canta e a raposa se atreve com as capoeiras…”.

Foi ainda um admirável cronista. Talvez porque entendesse que não era preciso escrever muito, para se dizer tudo o que se deve. Revejo-me nele. Como escreveu “… a crónica é a conversa do escritor com o leitor comum… hoje que a língua portuguesa vai por água abaixo, é crível que a crónica, se for exemplar, sirva de dique à perdição da língua. Pode ser modelo de bom gosto na arte de escrever…”

Voltando às cerejas, comecei pelo neto. E falei num bom texto, de quem sabe da poda. Discutível, mas que vale a pena ser lido. E agora, o neto que me perdoe, que o que me apetece mesmo, é retomar alguns dos contos e das crónicas do avô, um dos nossos mestres da escrita, mais um, recolhido e esquecido no seu Douro de sempre, longe dos escaparates mediáticos que nunca procurou. Ou, como alguém disse um dia “o único santo que cumpria promessas” (3).

Notas:

(1) Correia, João Araújo Correia – O tratamento da doença aguda e o Serviço de Urgência. Justnews.pt

(2) João de Araújo Correia – médico e escritor – (n. Canelas, Peso da Régua, 1 Janeiro 1899 – f. Peso da Régua, 31 Dezembro 1985)

(3) In Memoriam de João de Araújo Correia – Francisco Gouveia, pag.43

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *