São 28 as personalidades destacadas por João Carlos Lopes na obra “Gente Notável do concelho de Torres Novas”. Pessoas que durante a sua vida, de alguma forma, marcaram a comunidade torrejana, pelos seus feitos, em diferentes dimensões, durante a segunda metade do século XX. Nomes, cuja escolha o autor reconheceu, “claramente subjetiva”.

João Carlos Lopes eternizou nesta obra, personalidades naturais de Torres Novas, que fizeram a sua vida naquele concelho e que por ali “desenvolveram a sua ação, para de alguma maneira, melhorar as coisas à sua volta”. Ou, outros, que sendo de Torres Novas, rumaram para outras paragens, mas que “marcaram notavelmente a vida do país ou alcançaram reconhecimento nacional ou internacional”.

“A escolha destas pessoas é uma matéria do mais subjetivo que há. Um livro destes é sempre marcado pela visão e pela experiência pessoal do autor. Pelas suas relações pessoais ou profissionais e pelas suas proximidades e empatias. É uma coisa altamente subjetiva. Mas, as coisas são o que são e editar um livro é sempre um ato de liberdade”, afirmou o autor, que se inspirou nas obras de Artur Gonçalves e Joaquim Rodrigues Bicho, prosseguindo os seus intentos.

“O livro surge para dar sequência aos “Torrejanos Ilustres”, de Artur Gonçalves, e aos “Torrejanos de Vulto”, de Joaquim Rodrigues Bicho. Já se passaram alguns anos desde o livro do Joaquim Rodrigues Bicho e de lá para cá, já surgiram outras pessoas com algum relevo na sociedade torrejana, não havendo registo disso”, notou.

“De certa forma, pretendo dar continuidade a um trabalho que começou com Artur Gonçalves e prosseguiu com Joaquim Rodrigues Bicho, fixando para a posteridade estas pessoas, com a justiça que eu acho que elas merecem”, realçou o escritor.

Notando que a maioria das pessoas evocadas no livro nasceram, sobretudo, nas décadas de 30 e 40, João Carlos Lopes desafiou “os mais novos, que tenham vontade e que possam”, a dar continuidade ao seu propósito, pesquisando, escrevendo e deixando registados os feitos de quem, eventualmente, se tenha destacado nos anos que se seguiram.

No entanto, revelou ter alguma dificuldade em encontrar nas épocas posteriores, quem possa equiparar-se aos notáveis que homenageia no seu livro, “pessoas com percursos de vida fantásticos”.

“Olhamos para estas pessoas e para a sua grandeza… olhamos para o nosso tempo e, à partida, parece-nos muito difícil encontrar nos tempos atuais pessoas com aquela dimensão”, referiu o autor, salvaguardando, no entanto, que essa pode ser uma “impressão” fruto do contexto que se vive aos dias de hoje.

Por isso mesmo, lembrou a importância “de cada um, através daquilo que faz, tentar transformar o seu pequeno mundo, nas suas relações próximas, com os seus amigos, com as coletividades, ou os círculos onde vive ou trabalha.”

Remetendo para uma análise sociológica da obra, João Carlos Lopes, apontou algumas especificidades. Primeiro, o facto de todas as figuras destacadas no livro, terem vivido “grande parte da sua maturidade em democracia e liberdade”, o que lhes permitiu uma ação participativa mais intensa na vida social da comunidade e por conseguinte, “um reconhecimento mais democrático”.

O seu livro é reflexo dessa “democratização”, quando biografa, na sua maioria, “filhos de gente humilde, de trabalhadores rurais ou operários, gente dos ofícios” e não, “alguns privilegiados”, como seria mais comum em épocas anteriores à democracia, em que, por norma, “o reconhecimento social da comunidade era mais dirigido às elites”.

Por outro lado, sublinhou que “Torres Novas era uma vila operária, em que durante décadas houve uma influência tremenda do Partido Comunista, no movimento social que se vivia e na luta contra a ditadura. Mas, lendo estas biografias, não podemos deixar de reparar que uma grande maioria destas pessoas, passou também pela JOC (Juventude Operária Católica). Outra força, outra tendência, outra escola, que preparou muita gente e que levou muita gente a participar na vida comunitária e a abraçar, primeiro, a luta pela liberdade e pela democracia e depois, a continuar as suas vidas de intervenção social na comunidade”.

“Outro aspeto sociologicamente marcante, pela negativa, é a questão das mulheres”, afirmou João Carlos Lopes, remetendo para o facto de o seu livro referir apenas dois nomes femininos entre os 28 apresentados: “Estamos ainda numa geração, de gente que nasceu nos anos trinta, quarenta. Uma geração em que as mulheres não ocupam ainda o espaço público. E de facto, nós vamos analisar os últimos anos do século XX, e na comunidade torrejana, a presença das mulheres no espaço público é uma coisa muito mitigada, quase inexistente”, reparou, fazendo votos de que quem faça o próximo livro sobre as personalidades torrejanas, encontre “uma paridade mais razoável nesse aspeto, dando às mulheres a importância que têm hoje na nossa vida comunitária, que é tão visível quanto a dos homens”.

O livro “Gente Notável do concelho de Torres Novas” reúne pequenas biografias de João Pedro Neves Clara, Augusto Guimarães Amora, Joaquim Rodrigues Bicho, Bertino Coelho Martins, João José Lopes “Espanhol”, Francisco Canais Rocha, Maria da Conceição Horta, Fernando Duque Simões, Carlos Tavares, Manuel Piranga Faria, Joaquim Lopes Santana, Joaquim Matias Pedro, Francisco Nuno, José Ribeiro Sineiro, Luís Filipe de Abreu, Carlos António Ribeiro, João António Ribeiro, Joaquim Alberto Simões, José Torres, Emídio Ferreira Martins, Carlos Cruz, Gualter Rodrigues Pedro, Manuela Neves, António Mário Santos, Carlos Trincão Marques, Cesário Borga, António Borga e Carmelinda Pereira.

“Estas pessoas, como traço comum, para além das particularidades das suas lutas, dos seus empenhos ou do modo como intervieram, são pessoas que faziam do amor à vida como força transformadora do mundo, o seu mote. Fosse na política, nas empresas ou nas coletividades, o amor à vida, em primeiro lugar. Gente que não se limitou apenas a viver. Gente que quis acrescentar alguma coisa à sua vida, em prol da comunidade e dos outros.”

João Carlos Lopes, autor do livro “Gente Notável do concelho de Torres Novas”

Antes de terminar a sua intervenção, João Carlos Lopes, agradeceu a todos os que contribuíram para que aquele livro acontecesse. António Mário Lopes dos Santos, que, enquanto seu professor, lhe “passou o bichinho da História na parte mais académica”, mas também outras pessoas de “grande importância” na sua vida enquanto investigador da história de Torres Novas.

“De facto, há quatro pessoas que são responsáveis por me terem passado milhões de informações sobre a nossa comunidade, sobre a sua história contemporânea, as famílias, as empresas, as coletividades… essas pessoas, elas próprias, quatro enciclopédias vivas, cada uma à sua maneira. Os senhores José Ribeiro Sineiro, Joaquim Rodrigues Bicho, Carlos António Ribeiro e Joaquim Matias Pedro”, sinalizou.

“Cada um nas suas áreas de interesse e de conhecimento sobre a vida da comunidade torrejana, eram pessoas que sabiam tudo. Convivi muito com os quatro e eles passaram-me muito desse património. Se eu sei muito sobre a história de Torres Novas, não faço avaria nenhuma. Sei muito, porque alguém me passou esse conhecimento. É a essas quatro pessoas que devo o que sei. Bebi dessas fontes inesgotáveis, quatro amigos que continuam sempre presentes na minha admiração, na minha estima e consideração”, concluiu.

Recorde-se que João Carlos Lopes, técnico superior de cultura na Câmara Municipal de Torres Novas, é autor de várias publicações dedicadas à história local, como “A confraria dos Lavradores de Torres Novas”, “Torres Novas e o seu termo no meio do século XVIII”, “CDTN – Uma história de 80 anos”, “Cem Anos do Futebol em Torres Novas – das origens à década de 50 do século XX”, “As sete vidas da Banda Operária”, “Meu Amor da América”, “Nós queríamos ser artistas – Para uma história da música moderna em Torres Novas (1945-1982)”, “Comunistas – Uma história do PCP em Torres Novas” e “O Moinho da Fonte e a indústria do papel em Torres Novas [A Renova]”.

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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