Perante uma notícia de que alguém, candidato ou candidata, a um cargo de exposição pública, se apresenta, num qualquer site, blogue ou rede social, com um currículo com… digamos… inexatidões, já só podemos acreditar em anjinhos.
No momento em que mais se fala em verificação das informações, acreditar que as informações disponibilizadas sobre alguém (sobretudo alguém que pode vir a assumir algum protagonismo) vão ser tidas como verdadeiras, mesmo que não o sejam, é como acreditar em criaturas doces sem maldade.
Então, se uma candidata à liderança de uma juventude partidária é apresentada como sendo detentora de um grau académico que não tem e como tendo nascido num ano que não nasceu… isso é… nebuloso. Porque os anjinhos andam nas nuvens.
Claro que nestas coisas fica sempre muito por dizer. Sobretudo, porque parece pouco evidente que alguém, que viva com os pés assentes na terra e não nas nuvens, acredite que um currículo de alguém que quer vir a fazer carreira política não seja verificado pelos jornalistas.
Portanto, das três, uma: ou a candidata a líder da juventude socialista que protagonizou este episódio o fez deliberadamente (e vive nas nuvens e tem asas); ou alguém alterou o seu currículo por forma a ser mais consistente (pelo suposto grau de mestre) e mais dentro do que se esperava (para não estar no limite de idade) com o seu conhecimento; ou alguém alterou o seu currículo com qualquer outro objetivo sem o seu conhecimento. Qualquer dos cenários é mau.
Isto remete-nos para um mundo em que sérias dúvidas se levantam todos os dias: quem diz a verdade? Mais ainda: até que ponto é que aquilo que se diz sobre um qualquer indivíduo é verdade. Já não é novo, mas cada vez mais se agudizam estas questões. Até porque as consequências de uma falsa informação são imprevisíveis. No limite, pode ser a morte antes mesmo da nascença. Sobretudo no caso de alguém que se candidata a um cargo que espera que venha a ser a plataforma para toda uma carreira: se um documento de apresentação é divulgado com incorreções, a reputação da pessoa fica não só beliscada, como deverá ficar ferida de morte. Mesmo que a responsabilidade não tenha sido sua, mesmo que essas informações falsas tenham sido divulgadas sem o seu conhecimento, o certo é que a opinião pública, nestes casos, pouco se preocupa com as explicações sobre o que se passou. Qualquer coisa que se diga, soa sempre a falso.
Estamos, pois, numa era em que a verdade e a mentira, o certo e o errado ou o bem e o mal se confundem sem grandes possibilidades de esclarecimentos rigorosos.
O excesso de informação, os casos incontáveis de mentiras que se prolongaram no tempo e de outras que imediatamente se detetaram são tão frequentes que a desconfiança é certamente o sentimento mais corrente entre a opinião pública. Estamos perdidos em inundações de verdades, semiverdades, pseudoverdades, quaseverdades, nãoverdades e não as conseguimos destrinçar.
Por isso, desconfiamos. Já não desconfiamos só da publicidade do lava mais branco. Já não desconfiamos só dos títulos sensacionalistas. Desconfiamos de tudo. E isto não é bom.
