“Foi surpreendente, pois temos evidências muito antigas para a arte rupestre desta parte do mundo. Muito interessante também porque abre uma nova perspetiva para a investigação naquela área em particular, onde existem mais grutas que podem ainda guardar evidências de expressões artísticas do passado”, afirmou à Lusa a arqueóloga e investigadora do Instituto Terra e Memória e do Instituto Politécnico de Tomar.
A participação portuguesa na investigação surgiu através do projeto internacional First-Art, dedicado ao estudo das primeiras manifestações artísticas da Humanidade e que reúne especialistas de vários países na análise e datação de arte rupestre.
Segundo Sara Garcês, a equipa ligada ao ITM, IPT e Centro de Geociências foi responsável pela caracterização dos pigmentos e pela recolha de amostras de calcite formadas naturalmente sobre as pinturas, permitindo enquadrar cronologicamente as marcas existentes na gruta.

“George Nash trabalha connosco em Portugal há cerca de 20 anos e, através dos trabalhos de relocalização destas pinturas, tivemos a oportunidade de analisar os pigmentos e recolher amostras para datação. Os resultados em Gales foram muito positivos porque nos mostram evidências bem antigas para a área do Noroeste da Europa”, explicou.
Além de Sara Garcês, participaram no estudo os investigadores Hugo Gomes, Virginia Lattao, Pierluigi Rosina, George Nash e Hipólito Collado, ligados ao Instituto Terra e Memória e ao Centro de Geociências.
Os trabalhos de campo decorreram em duas campanhas realizadas entre 2023 e 2024, com cerca de uma semana de duração cada, mas os resultados da investigação foram divulgados esta semana através da publicação de um artigo científico na revista Quaternary e de anúncios feitos por instituições britânicas ligadas ao património e à arqueologia.
A descoberta incidiu sobre um conjunto de linhas vermelhas existentes na gruta de Bacon Hole, na região de Gower, no sul do País de Gales.

As marcas tinham sido identificadas pela primeira vez em 1912 pelos investigadores William Sollas e Henri Breuil, mas acabaram por ser consideradas, em 1928, um fenómeno natural provocado por infiltrações minerais na rocha.
Mais de um século depois, uma equipa internacional liderada pelo arqueólogo George Nash recorreu a técnicas de caracterização de pigmentos e à datação por urânio-tório de depósitos de calcite formados sobre as pinturas para demonstrar que as marcas resultaram efetivamente da ação humana.
“Esta descoberta valida a intuição original de William Sollas e do Abbé Breuil em 1912 e reposiciona o Noroeste da Europa no mapa do Paleolítico Superior, uma área que normalmente não é muito associada a evidências de arte rupestre muito antigas”, afirmou Sara Garcês.
Segundo a investigadora, as pinturas revelam também aspetos importantes sobre os comportamentos simbólicos das populações que habitaram a região há mais de 17 mil anos.
“Quando olhamos para estas 11 linhas horizontais paralelas vemos vestígios de um sistema de comunicação não-verbal e de comportamento simbólico complexo. Ainda que hoje o significado destas figuras nos fuja, esta composição foi intencionalmente e deliberadamente planeada e posicionada no fundo daquela gruta”, sustentou.
A arqueóloga destacou ainda que a descoberta tem pontos de contacto com a investigação desenvolvida no Vale do Ocreza, em Mação, onde se encontram algumas das mais importantes manifestações de arte paleolítica ao ar livre da Península Ibérica.
“São técnicas diferentes, porque em Gales estamos a falar de pinturas e no Ocreza de gravuras, e apresentam figuras distintas. Mas a parte mais interessante é que são praticamente contemporâneas uma da outra e não distam muito tempo entre elas no Paleolítico Superior”, observou.

Sara Garcês sublinhou ainda que a atividade científica desenvolvida pelo ITM e pelo IPT, através da Cátedra de Arqueologia Rupestre, combina formação avançada e investigação especializada em documentação digital, análise de pigmentos e colaboração com laboratórios internacionais dedicados à datação da arte rupestre.
“O uso de novos métodos de datação permite-nos analisar com mais cuidado determinados tipos de arte rupestre que até há pouco tempo não tinham muita expressão na investigação arqueológica”, acrescentou.
A descoberta tem merecido destaque em órgãos de comunicação social britânicos, incluindo a BBC e o jornal The Guardian.
Para a arqueóloga, essa visibilidade internacional pode também contribuir para valorizar a investigação arqueológica desenvolvida no interior de Portugal.

“O mediatismo em torno de Bacon Hole demonstra globalmente o impacto de revisitar achados antigos com novas tecnologias, algo que temos vindo igualmente a fazer no âmbito do projeto First-Art no Vale do Ocreza, em Mação, e na Gruta do Escoural, no Alentejo”, concluiu.
c/LUSA
