Numa das memórias que as redes sociais fazem questão de ir recuperando, cruzei-me com um comentário que escrevi há alguns anos em resposta a outro comentário numa crónica assinada por mim.
“Concordo integralmente com tudo o que escreves, há muita falta de vergonha… e, talvez de competência da generalidade de quem tem tido responsabilidades em Portugal nos últimos 40 anos. Há desigualdades e disparidades que não fazem sentido e que ninguém as consegue explicar. Nem quero entrar no campo da corrupção porque senão não saímos daqui.”
Isto recordou-me que tenho escrito com regularidade sobre os interesses instalados no nosso país e, apesar de saber que as generalizações são injustas e podem turvar ou influenciar o raciocínio, tento, a cada momento, não confundir a “árvore com a floresta”.
Bem sei que corro riscos ao voltar a escrever sobre este tema porque nos dias que vivemos, aqueles que apontam o dedo à corrupção costumam ser criticados, como se o problema estivesse na identificação do problema e não no problema em si.
Mas há um facto que tenho forçosamente de constatar e partilhar. A corrupção é sistémica, justifica grande parte da responsabilidade nas dificuldades financeiras que o país atravessa e ao contrário das teorias por trás da defesa do indefensável praticada por alguns, ela não tem cor, nem ideologia, nem religião.
Tristemente, a história teima em continuar a repetir-se. Podíamos escrever sobre a TAP ou sobre a Efacec, mas parece-me que basta refletir sobre a EDP para percebermos a transversalidade de um problema que mina o presente e vai hipotecando o futuro do país, provocada pela promiscuidade entre os sistemas politico, financeiro e empresarial.
Já tinha sido assim com a PT e voltamos a perceber que não há coincidências quando um dos argumentos invocados pelo juiz para a suspensão de funções dos gestores da empresa, é o perigo de continuidade da atividade criminosa.
Apesar da presunção de inocência que merecem todos os arguidos até ao trânsito em julgado dos respetivos processos, António Mexia e Manso Neto juntam os seus nomes a uma enorme lista de notáveis, grande parte deles, inclusivamente, com direito a condecorações, que se aproveitaram, direta ou indiretamente, da causa pública para servirem os seus interesses e os interesses dos seus familiares e amigos.
O problema é que mudam-se os nomes mas os interesses continuam instalados e a servir-se da causa pública e, salvo raríssimas exceções, o crime continua a compensar e a beneficiar os infratores.
Haverá perda material ou dano moral? Talvez para o país e apenas para o país, porque, em bom rigor, em relação ao resto, nunca se perde aquilo que verdadeiramente nunca se teve.
