Volto a um tema sobre o qual já escrevi por diversas vezes porque as últimas semanas foram férteis em acontecimentos que devem ser objeto de análise e, em última instância, de preocupação. Como escrevi noutras ocasiões, não há democracia sem uma comunicação social livre, independente e isenta, que honre escrupulosamente o seu código de ética e de deontologia e que se limite a informar com base em factos.

Ora, as dúvidas sobre esta realidade adensaram-se nos últimos dias com o conhecimento de factos estranhos e de episódios mal explicados.

Primeiro, fomos confrontados com uma acusação do escritor Afonso Reis Cabral. Segundo ele, foi convidado pelo Diário de Notícias para escrever “um breve texto de avaliação da prestação do governo face à pandemia”. Até aqui tudo normal, a “anormalidade” começa quando, de acordo com as palavras do próprio Afonso, “não terem publicado o texto na íntegra”, truncando-o, mantendo apenas os elogios e “apagando” a totalidade das críticas. Esta tática de deixar o bom e omitir o mau foi um erro, uma tentativa de manipulação ou um caso explícito de censura?

Depois tivemos conhecimento da distribuição dos “famosos” 15 milhões do governo pelos principais órgãos de comunicação social. Sem surpresa, a fatia de leão coube aos dois principais grupos que são donos das duas televisões privadas nacionais e que, em conjunto, arrecadaram mais de 50% do dinheiro disponível. Os critérios de atribuição e distribuição das verbas foram explicadas mas não foram muito bem entendidas.

A confusão aumentou com o episódio protagonizado pelo “Observador” que rejeitou os 19 mil euros inicialmente atribuídos, e que “obrigou” o governo a rever o processo de distribuição e a reconhecer um erro na atribuição desse valor que afinal deveria ter sido de 91 mil euros. O jornal digital não aceitou o argumento da inversão e manteve-se firme aos seus princípios, fazendo-nos acreditar que tem quem os financie por verbas mais generosas, não havendo necessidade de venderem a ‘”alma ao Diabo”, isto, de acordo com a linha editorial que todos conhecemos.

Pelo que se percebeu, terão ficado 4 milhões para distribuir pela comunicação social local, sendo omissos, ou não tendo eu conhecimento, de quais os critérios subjacentes à sua atribuição.

Pelo que vou subentendendo e pelo que me vão transmitindo, há uma grande pressão para controlar o que se comunica e como se comunica, localmente. Este, deve ser um problema que atravessa o país de norte a sul e, por mais honra, verticalidade e vontade de respeitar o código profissional, enquanto houver contas para pagar, haverá sempre uma linha muito fina que separará os verdadeiros profissionais… dos outros.

Bem sei que não há soluções simples para problemas complexos mas é urgente desenhar e implementar medidas concretas que encontrem a solução para eliminar esta dependência.

Enquanto os responsáveis por esta realidade continuarem a assobiar para o lado, falando mas não fazendo, a generalidade da comunicação social continuará refém de uma realidade angustiante e asfixiante porque o fim do mês continuará na linha do horizonte e os seus valores continuarão a ter o preço dos compromissos assumidos. Ainda há exceções, mas elas são cada vez mais raras e esta realidade pode ferir de morte qualquer democracia que queiramos construir.

Vasco Damas

É gestor e trabalhar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e levá-las a ultrapassar os limites que pensavam que tinham é a sua maior satisfação profissional. Gosta do equilíbrio entre a família como porto de abrigo e das “tempestades” saudáveis provocadas pelos convívios entre amigos. Adora o mar, principalmente no Inverno, que utiliza, sempre que possível, como profilaxia natural. Nos tempos livres gosta de “viajar” à boleia de um bom livro ou de um bom filme. Em síntese, adora desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

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