Foto: Paulo Jorge de Sousa

Maria Canas foi a última habitante de Furtado, já em Gavião, portas meias com Mação, a sair da aldeia. Não queria, tinha na memória aqueles que fugiram de suas casas naquele dia fatídico em Pedrogão Grande. Por fim, devido à insistência de Bruno Afonso, coordenador distrital de Santarém do serviço de radiocomunicações de emergência (SCERA), e dos militares da GNR, saiu quase com o lume agarrado à casa, onde nas traseiras, cerca da meia-noite de terça-feira, lavraram chamas com mais de quinze metros de altura. Foi acolhida na Santa Casa da Misericórdia de Belver, em conjunto com 18 moradores da aldeia, mais os nove de Vale de Coelho, em Mação, e também na fronteira entre os dois municípios. Em Furtado um único homem resistiu à evacuação e ficou sozinho. Os resistentes em Vale de Coelho não tiveram tanta sorte – um dos moradores chegou mesmo a sair algemado pela Guarda Nacional Republicana.

No dia seguinte ao “horror” no concelho de Mação, o vento uiva solitário em Vale de Coelho. As poucas árvores que sobreviveram ao lume, gemem agora mais alto, como um lamento, chamuscadas que estão as folhas. Permanecem sozinhas, mas agora é uma solidão enegrecida de um Portugal interior ao abandono, isolado pelos Homens.

O reino do negrume esperou 14 anos mas voltou. Para muitos é um regresso diferente porque os resistentes à desertificação estão mais velhos e incapazes de recomeçar do zero. Não podem. “Não vale a pena”, dizem. “É inútil travar esta guerra”. Desola-os o rasto de destruição, excetuando as habitações perderam tudo. Maria Canas, de 75 anos, voltou a ver os pinhais ardidos, os mesmo que havia perdido em 2003. Foram replantados, e agora?

A aldeia de Furtado, em Gavião, na fronteira com o concelho de Mação. Foto: Paulo Jorge de Sousa

“Éramos mais novos. Agora não vamos replantar”, garante ao Médio Tejo esta moradora de Furtado, natural de Vale de Coelho onde a casa dos pais está, devido ao incêndio, no chão queimado.

“Tínhamos pinheirinhos crescidos. Com a sua venda pensávamos em comprar uns carros para os netos. Ainda há pouco tempo gastámos 1200 euros para limpar o pinhal do lado de São Domingos da Vinha e perdemos tudo. Tanto trabalho para quê?”, questiona.

Vale de Coelho é agora um vale da noite, de cinza e carvão que se traduz não só no negro das paisagens mas, principalmente, no luto dos populares.

“Ainda hoje não estou bem”, diz Maria Olinda de Matos Gueifão, de 72 anos, doente cardíaca. Maria Olinda e o marido Joaquim Gueifão, da mesma idade, igualmente retirados de Furtado, a última aldeia a ser evacuada. Refugiaram-se em Mação na casa dos compadres. Com eles levaram Nero (o cão do neto). Para trás ficou a vida que escolheram ter e as dúvidas de Joaquim renitente em abandonar a habitação.

O casal “não queria sair, tivemos muita dificuldade em convencê-los”, explicou Bruno “mas como a senhora estava muito nervosa, com batimentos cardíacos acima dos 130, lá foram”.

O pomar do casal Maria Olinda e Joaquim Gueifão resistiu ao fogo, mas o pinhal perdeu-se de novo, à semelhança de 2003. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Joaquim relembra o incêndio de 2003, combatido em Furtado com uma mangueira na mão e o fogo a passar-lhe por cima. Há 14 anos aquela já era a sua casa, depois de uma vida a trabalhar em Abrantes. E na noite de terça-feira os bombeiros tardavam em chegar. “Há horas aflitas, mas confiava em mim” contudo o fumo começava a afetar-lhe os olhos. “Foi o melhor!” reconhece. De Maria Olinda e Joaquim salvaram-se o pomar e olival com mais de 400 árvores. A mesma sorte não teve o pinhal.

Joaquim aponta o dedo à falta de limpeza dos terrenos, tem dúvidas em relação às ZIF (Zonas de Intervenção Florestal) mas admite que a maioria das pessoas não tem poder económico para cuidar do que é seu, em particular os idosos com parcas reformas. “Limpar hoje um hectare fica muito caro, custa mais de mil euros”, refere.

Bruno Afonso e Daniel Caeiro andaram noite dentro a resgatar pessoas nas aldeias cercadas pelas chamas. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Bruno Afonso, de 35 anos, e Daniel Caeiro, de 43, estiveram em Furtado e Vale de Coelho como voluntários a ajudar a evacuar os populares. Em Furtado demoraram muito tempo a convencer as pessoas da única solução que parecia possível: a fuga.

“Quando demos por nós, juntamente com os seis militares da GNR, já o fogo cercava a aldeia. Foi por dois ou três minutos que conseguimos sair ilesos”, explica Bruno, descrevendo o cenário tenebroso.

Bruno e Daniel, ambos com experiência no combate a incêndios – Bruno como bombeiro em Moscavide e Portela e Daniel como operacional do corpo de voluntários da Protecção Civil do Porto -, disponibilizaram-se para a entrega solidária de água e bolachas mas o apelo interior de ajuda à comunidade em perigo colocou-os na estrada.

Bruno garante que tiveram a vida em risco. “Estávamos na aldeia de Castelo quando recebi um contacto informando que em Vale de Coelho ardiam duas habitações e nada de bombeiros.” Recebeu então do vereador da Câmara de Mação o aval para avançar. “No caminho encontrei dois veículos do regimento de sapadores de Lisboa e pedi para nos acompanharem até lá”. O combate travou-se depois perto das habitações.

Daniel Caeiro foi para Mação como voluntário.  Foto: Paulo Jorge de Sousa

Por volta das duas da madrugada estava escuro, completamente escuro entre as chamas, e “com o fumo não se via um palmo à frente do nariz”, descreve Bruno. Ficaram uma hora e voltaram para Castelo, onde permaneceram até às 7:30 de quarta-feira sem pregar olho.

Maria Canas refugiou-se em Belver, a cerca de 10 quilómetros de Furtado, acompanhada do marido, que acabou por deixar lá. “Nunca mais me vinham trazer, eram 7 da manhã arranquei a pé quando vi que começavam a trazer o pessoal. Andei uns quatro quilómetros quando me apanharam. Por mim, vinha logo às 5 da manhã, se tivesse companhia… mas sozinha estava com receio”, desabafa.

“Se tivesse ficado não tinha visto aquele drama. Era um inferno aqui!”. Essa visão não a tinha dentro de casa, onde estava de portas e janelas fechadas, acreditando que em segurança. “Ali do fundo, junto ao carro da GNR, vi aquilo tudo muito alto”. Maria referia-se às labaredas, transformadas em pesadelos que não lhe saem da cabeça.

Em Vale de Coelho, o primo Carlos saiu de casa algemado. “Eu, não faltou muito… foi quase!”, afirma Maria. Dos Envendos até Furtado, “não sei em quanto tempo o fogo aqui chegou”.

Os militares de Santa Margarida apoiaram os trabalhos de rescaldo em Mação. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Maria Clementina de Matos Pedro tem 73 anos, vive sozinha e foi a única pessoa que a equipa de reportagem do Médio Tejo encontrou em Vale de Coelho. Chegou até nós na companhia da cadela. Também Clementina só ficou com as casas, “o resto ardeu tudo”, do pinhal à horta. “Foi o fim do mundo!”. Um cenário dantesco que ainda viu antes de ser evacuada para Belver.

Em 2003 não saiu. “Foi pior, por causa do fumo. Não víamos nada”, garante. Desta vez não se fez rogada, até porque as vizinhas insistiram. A calma voltou, ainda que aparente, porque o medo continua estampado nos rostos. Medo de um reacendimento e de não conseguir ajuda monetária para começar de novo. Em 2003, “igualmente tudo queimado e não recebi um tostão”. Desta vez logo se verá.

Os trabalhos de limpeza em Vale Coelho, esta sexta-feira, 28 de julho. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Acompanhada da filha e do neto, sem luz e sem telefone fixo, Alice Pedro, de 75 anos, mal viu as chamas à porta não teve dúvidas: “Queria era sair daqui!”. Mais que tudo temia perder o neto, depois da perda irreparável que sofreu com a morte do filho de 39 anos. Temia ainda, no dia seguinte, “ter as galinhas todas mortas com o fumo”. O regresso teve no entanto a surpresa da sobrevivência dos animais. Alice, associada das ZIF, também perdeu o pinhal. “Nunca limpam nada… e se limpassem era igual”, assegura. “Não escapou nadinha. Está tudo preto”.

Nesta história, Bruno e Daniel fizeram a diferença. Enalteceram a acção dos bombeiros voluntários e da Protecção Civil Municipal de Mação. De experiências como esta retiram a gratificação da ajuda ao outro, e só pedem à “Autoridade Nacional de Protecção Civil e ao Governo português maior consideração pelos radioamadores portugueses”. Acreditam ser “um bem essencial na ajuda à população” nomeadamente o SCERA. “Era bom que pudéssemos trabalhar mais em equipa”, conclui Bruno.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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4 Comments

  1. Furtado, Vale de Coelho e Vilar da Mó são lugares da Freguesia de Belver, Concelho de Gavião, Distrito de Portalegre

    1. Boa tarde,
      A notícia foi devidamente retificada.
      Obrigada

      NOTA: Os sites das autarquias de Mação e de Gavião mencionam, ambos, a localidade de Vale de Coelho. Furtado pertencerá efetivamente ao Concelho de Mação.

  2. Já deixei dois comentários que não aparecem. Furtado é Concelho de Gavião. Vale de Coelho é que tem parte em concelho de Mação e aí se dividem os concelhos de Gavião e Mação. E os distritos de Portalegre e Santarém.

    1. Obrigado, caro Jaime Estorninho, pela correta observação de quem conhece tão bem o terreno que falamos. Efetivamente, Furtado é já no concelho de Gavião e Vale de Coelho na transição/fronteira entre os dois municípios. melhores cumprimentos

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