23 de julho de 2017. A tarde deste dia jamais será esquecida pelos maçaenses que empurram na memória o último grande incêndio de 2003, tragédia que achavam ter sido a mais destrutiva e agoniante, para agora a juntar a mais 5 dias de um cenário grotesco. Mais de 20 aldeias evacuadas, mais de duas centenas de populares resgatados das suas habitações para instituições na sede do concelho ou nas freguesias onde o fogo não representasse já perigo. Perante isto, em mais um ano de aflição, a comunidade uniu-se, arregaçou as mangas e acolheu aqueles que traziam nos olhos o reflexo das chamas que lavraram às suas portas. Entreajuda e solidariedade são palavras de ordem. E as coisas vão-se aguentando e compondo… graças à força de muitos voluntários e um grande espírito de solidariedade.

Do psicólogo ao jovem escuteiro, da pessoa anónima à direção de uma instituição, da Cruz Vermelha Portuguesa aos vários projetos da rede social da região e não só. Muitas pessoas acabam por se envolver neste sistema cujo objetivo é ajudar a manter a logística possível, dando a maior comodidade aos deslocados e aos operacionais no terreno, dando-lhes o passaporte a coisas tão básicas como a alimentação e a hidratação que, no desempenho das funções e na missão de proteger bens e pessoas e combater as altas chamas, acaba por ficar para segundo plano, levando tantas vezes à exaustão.

Em julho, a Santa Casa da Misericórdia de Mação foi palco de uma organização brutal precisamente para evitar que faltassem condições básicas de sobrevivência e restabelecimento de forças, sendo responsável pela preparação e confeção de todas (sim, todas!) as refeições servidas a mais de 600 pessoas. Os lares e centro de dia vizinhos, caso do Lar de Ortiga, acabaram por também oferecer os seus préstimos e trazer panelões de sopa ou bens alimentares diversos.

Ivone Marques, diretora da instituição, recebeu o mediotejo.net numa tarde quente de quarta-feira, e a preocupação era grande perante a visualização de 3 colunas de fumo a escurecer gradualmente. O fumo pintava a cinza mais uma tarde de verão que, em dias comuns, seria de um azul celestial.

Atarefada, foi explicando que tinha recebido no local populares vindos da freguesia de Envendos, da União de Freguesias de Mação e até de Frei João, pertencente à freguesia de Carvoeiro.

Entre as inúmeras vezes que a conversa era interrompida, de minuto a minuto, Ivone tentava lembrar com precisão os nomes das aldeias de onde chegaram as pessoas resgatadas das suas habitações. Munida do telefone da instituição e de dois telemóveis que não paravam de tocar, enumerou: Aldeia de Eiras, Castelo, Pereiro, Casas da Ribeira, Santos e Caratão.

Aqui, segundo a responsável, é recebida, preparada e confecionada toda a alimentação para os deslocados e para os bombeiros. “Os alimentos que são para confecionar normalmente têm deixado aqui. O que é em grande quantidade têm deixado no quartel dos bombeiros. Aqueles que rececionam lá, também vêm trazer aqui, porque também têm lá voluntariado, pessoas que vão selecionando as coisas. Mas tudo o que é para confeção é trazido aqui, para se fazer”, explicou.

O voluntariado tem sido essencialmente necessário para a preparação, disse Ivone, desde descascar batatas, descascar cebolas, feijão verde, cenouras.

Além da comunidade que se voluntaria a fazer parte desta logística, também todo o pessoal da Santa Casa da Misericórdia está envolvido no processo. “Todo o pessoal está a colaborar. Independentemente de alguns estarem de férias e outros de folga, ou com horários tardios… não há horas para ninguém. Cada um sai ou fica conforme quer e pode”, notou Ivone Marques.

Mas não só de receber doações de bens alimentares, de preparação e confeção de refeições e de alojar as pessoas deslocadas das aldeias evacuadas ao longo destes dias se trata o trabalho realizado na instituição.

Todos acabam por ser confidentes, terapeutas, psicólogos, vestindo a camisola da humanidade, dividindo a dor dos que – apesar de não quererem fazê-lo – partiram de suas casas com a roupa do corpo, e só num caso ou noutro, com os pertences mais básicos e documentos de identificação.

“Elas reconhecem que, na realidade, até estão aqui mais seguras do que nas suas aldeias. Independentemente de alguns que estão contrariados”, disse Ivone, contando que um casal da aldeia de Sanguinheira, da freguesia de Envendos, se encontra revoltado por não ter ficado na freguesia e ter sido alojado na vila.

“Vieram 4 pessoas. E eles questionam porque só vieram os 4, e não ficaram lá com os outros… e dizem que precisam de lá estar, porque está lá a chegar o fogo, e têm lá os animais, e iam regando”, contou a diretora da Santa Casa, respeitando esta inquietação dos idosos.

“A gente compreende, pois é uma vida inteira nesta labuta, e de um momento para o outro as coisas acontecem. Não é fácil para ninguém…”.

Lembrando 2003, Ivone diz que os últimos acontecimentos foram muito piores. “Não tem comparação. Não tem comparação nenhuma… Eu nessa altura tive aqui cerca de 30 pessoas, e as povoações mais atingidas, que vieram para aqui por precaução, foi Santos, Caratão e Pereiro, e desta vez é de muitos mais lados… É de todo o lado… É complicado”. E eis que o telefone toca uma vez mais.

Desta vez é o filho de Ivone, dando notícia à mãe que a esposa entrou no bloco operatório, prestes a dar à luz, mas aproveitando para perceber como está a situação no concelho. O sacrifício do voluntariado faz com que se tenham de equilibrar preocupações e responsabilidades, assumindo de forma abnegada que outros precisam mais do que a própria família.

“Depois é esta parte. Eu preocupada com o trabalho aqui, mas com a minha netinha em pensamento, com a vida particular em suspenso”, assumiu.

Muita gente liga também a perguntar e a saber dos familiares, uma vez que muita população está fora mas tem ligação à terra, nomeadamente as suas raízes.

“Ligam, sim. Nos primeiros dias foi mais a preocupação de perguntarem e confirmarem, porque ouviam na rádio, ou viam televisão, nomeadamente da situação do Carvoeiro, e as pessoas não sabiam muito bem para onde tinham sido evacuados os habitantes”, mas na realidade só a aldeia de Frei João tinha sido deslocada para Mação. E o telefona toca e toca. Uma e outra vez.

Quando à onda de solidariedade gerada por apelos para a alimentação, Ivone disse que “as pessoas têm sido impecáveis, não só da população, como das instituições, como dos supermercados dos concelhos vizinhos têm estado a entregar donativos”, e atendendo uma chamada de outra pessoa solidária, refere que “as pessoas têm dado dentro do possível, e aceitamos aquilo que quiserem”.

Acontece que o esforço é redobrado na Santa Casa. Pois além das pessoas acolhidas, estão na instituição os seus utentes regulares e estes não podem ficar sem a atenção precisa. Não havendo camas para deitar todos os deslocados, e já que a grande maioria não conseguiu sequer pregar olho, ansioso por saber como estaria a sua casa, a sua aldeia, a instituição acabou por estabelecer um esquema que suprisse as necessidades de todos.

“Alguns ficaram em colchões no chão, outros em sofás. Algumas camas que tínhamos disponíveis de utentes que estão ausentes também acabaram por ser utilizadas. Outros ainda conseguimos alojar noutros quartos. E como vieram mais do que a nossa capacidade, alguns acabaram por preferir não dormir, sentindo que não estavam em condições. Optaram por se sentar nos sofás”, descreveu a responsável.

Entramos noutra sala, e encontramos três das funcionárias da Câmara Municipal, nomeadamente a psicóloga Célia Pires.

O cansaço era notório e travava o raciocínio nas respostas às questões. “Damos apoio e suporte, e tentamos cumprir as necessidades imediatas”, referiu. “No domingo já estávamos a fazer a hipervigilância em casa… já estávamos a prever. Estamos no terreno desde segunda-feira de manhã”.

“Estamos aqui para acolher as pessoas e recebê-las”, disse a psicóloga notando que a quantidade de aldeias evacuadas é enorme, e estão na Santa Casa habitantes de Vale da Gama, Carrascal, Sanguinheira, Zimbreirinha, Avessada, Vale do Grou, Caratão, Santos, Castelo, Aldeia de Eiras e Casas da Ribeira, e Frei João.

Célia diz já ter perguntado a si mesma se este incêndio se pode comparar ao de 2003, mas que lhe parece “uma dimensão muito maior”, mas que naquela altura, apesar de também ter ardido cerca de metade do concelho, parece-lhe que em 2003 vez foi “mais restrito”. “Agora temos as freguesias todas, tudo… a arder. Muitas, muitas aldeias”, suspirou, de máscara pendurada abaixo do queixo, e com a cabeça apoiada na mão.

“As forças”, disse a psicóloga, rindo-se como quem já fez batismo semelhante num concelho com grande massa florestal e atentado regularmente por incêndios, “arranjam-se tendo por base a confiança. Nós acreditamos naquilo que fazemos, e estamos aqui pelas pessoas, e para continuar a fazer um bom trabalho. Estamos cá por Mação”, afirmou.

Na preparação dos alimentos para confeção e na receção dos donativos e sua conservação quem orienta é Mena. É encarregada desta parte da logística, na cave da Santa Casa da Misericórdia de Mação. Com 20 anos de casa, Mena admitiu não ter saído na noite de terça para quarta.

“Não saí daqui”, disse. “Mas dormiste cá?”, perguntou uma voluntária. “Eu não dormi cá. Eu estive cá. Nós não dormimos. Com os idosos a chegarem, tínhamos de tratar deles…”, lembrou.

“Tentamos organizar o mais que pudermos, neste momento estamos mais preocupados em fazer a comida para os bombeiros e para as pessoas que chegam. E quando temos uma aberta, vimos cá organizar isto abaixo”, assumiu, em conversa com o mediotejo.net.

A comida é sempre preparada de adiantado, segundo a mesma responsável. “Amanhã é arroz com atum, já estamos a arranjar as coisas para amanhã. Hoje é carne à alentejana, e então já havíamos preparado as batatas e a carne”, notou, acrescentando que “é a comunidade que nos vem ajudar”.

“Hoje tive necessidade de uma coisa. Como estão a vir idosos de Aldeia de Eiras, liguei ao lar da Aboboreira e em vez de virem para cá ajudar-nos, enviam-nos uma panela de sopa e carne para darmos a esses idosos. Da Ortiga já nos vieram trazer sopa e pastéis de bacalhau”, estando mobilizada toda a rede social do concelho.

Foto: Centro de Solidariedade Social N. Sra. Das Dores de Ortiga

Mas esta não é a primeira vez que Mena presencia este aterrador episódio em Mação, pois sempre que há incêndios, é na Santa Casa que se confeciona a comida, ainda que apenas desta vez tenha vindo a comunidade apoiar na preparação. E em 2003, Mena estava lá.

“Foi horrível. Da outra vez foi mais crónico para mim, porque tinha a minha casa a arder, a da minha mãe, e tinha de estar aqui. E tivemos uma dificuldade muito grande na altura, porque a maior parte das funcionárias tinham as aldeias a arder. Cheguei a um ponto que não tinha uma pessoa para ajudar a deitar os nossos utentes”, algo que hoje está a ser ultrapassado.

“O nosso idoso praticamente não se está a aperceber, fizemos esse propósito, ainda hoje começámos a dar às 6 da manhã comida aos de fora. Quando os nossos utentes acordaram já não tinham o refeitório cheio. Não havia ninguém. Foi um dia normal para eles”, contou Mena, agoniada por na altura da reportagem estarem a evacuar Aldeia de Eiras, a sua terra.

Seguimos para o Quartel dos Bombeiros, onde encontramos José Belo, presidente da direção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Mação. Também José Belo foi avô há dias, confidenciou, e só esteve 5 minutos com a sua família e descendente.

Aqui o grupo de voluntários e responsáveis pela logística do quartel bem como da distribuição dos reforços no terreno ocupavam toda a zona de entrada, aproveitada enquanto miradouro para a região da Caldeirinha, que ardia abruptamente naquela altura, e onde surgiam canadairs a destoar na fumaça negra, que desenhava nuvens medonhas e altas no céu, de onde despontavam as chamas.

“A nível solidário temos tido grandes apoios. Dos Mosqueteiros, da Sagres, da Baía, do Lidl, da população em geral, inclusive dos concelhos vizinhos, têm sido excecionais. E temos inclusivamente alguém disposto a dar-nos um apoio monetário, que destacamos pelo simbolismo que isso tem”, explicou.

Já as pessoas que, de forma voluntária, têm ajudado a preparar, a distribuir e a servir refeições no quartel, são, entre muitos anónimos, os “pais e mães de bombeiros, escuteiros, enfim, todos, todos têm vindo dar o seu apoio”.

“A distribuição da alimentação, confecionada na Santa Casa, que tem sido um excelente parceiro, é depois controlada pelo Serviço Nacional de Proteção Civil, através do adjunto da Câmara, o assessor Falua, e temos conseguido distribuir, da maneira que podemos, e dividindo pelos locais onde estão colocados os bombeiros, e é que temos feito”, acrescentou José Belo, salientando que a ABVM tem “grande preocupação com o que se está a passar, com a tristeza que está a envolver as povoações”.

“Faço ideia o que não estarão a viver todas estas pessoas que ao longo dos anos aqui têm trabalhado, vivido, esforçado para manter o concelho e as suas terras… e agora num ápice, tudo desapareceu. É triste para eles, é triste para nós, e resta-nos dar um abraço a essa gente e apoiar como melhor sabemos”, resumiu.

À nossa passagem, verificamos dezenas de voluntários, que vão fazendo escala, garantindo ainda os reforços dos bombeiros no terreno, preparando-os e distribuindo-os. As águas, os sumos, as sandes, as peças de fruta, são ensacados e separados em caixotes.

No espaço exterior estão montadas mesas de piquenique, postas, e aguardando a chegada dos guerreiros fardados de vermelho e azul escuro, que vêm e fazem a sua refeição de forma mais tranquila, restabelecendo forças.

Aqui, chegam os combatentes desta guerra ingrata feita de chamas e fumo, cansados e esfaimados, exaustos. Mas os que lá estão, voluntários, também não conseguem esconder o cansaço. Mas, ali, também a coragem tem de ser voluntária, tal como a força, que tem de existir para apoiar estes guerreiros de farda.

Mas ainda assim, e felizmente, este concelho estendido por 400 quilómetros quadrados que agora vê metade do seu território reduzido a cinza, pode contar com gente de coração enorme, despida de interesses e de medos.

Porque, por cada metro quadrado queimado, surgirá um batalhão de voluntários, valente e solidário, tradicionalmente português, para devolver ao horizonte a sua cor natural feita de verde esperança.

*Reportagem publicada no dia 27 de julho de 2017

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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