A vila de Tramagal, no concelho de Abrantes, voltou esta sexta-feira, dia 1 de maio, a cumprir uma das suas mais marcantes tradições, assinalando o Dia Mundial do Trabalhador com um programa que cruzou memória, desporto e vida associativa, numa celebração que remonta a 1901.
A manhã em Tramagal, que despertou ao som de foguetes, começou junto ao busto do Comendador Eduardo Duarte Ferreira, figura central da história da vila, com uma cerimónia evocativa acompanhada pela música da Filarmónica de Rio de Moinhos e pela simbólica largada de pombos.

Perante dezenas de participantes, Maria Duarte Ferreira, bisneta do fundador da Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF), sublinhou o significado da homenagem.
“Homenageamos aqui Eduardo Ferreira e a sua obra, mas não só. Para mim esta é também uma homenagem ao trabalhador”, afirmou, lembrando que o industrial “considerava os trabalhadores o maior bem da sua empresa”.




Num discurso marcado pela emoção, destacou ainda a atualidade do legado deixado. “Vivemos tempos incertos, mas também os houve no passado. Há que saber inovar e aproveitar as oportunidades que surgem”, disse.
Também o presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho, reforçou o simbolismo da data, lembrando que se trata de uma tradição com mais de um século. “Assinalamos hoje, mais uma vez, o valor do trabalho e o valor dos trabalhadores”, afirmou.
O autarca evocou a história e a identidade da comunidade, sublinhando que o 1.º de Maio é “uma data muito apropriada à comemoração do Tramagal e dos tramagalenses”, destacando o espírito de convivência e ligação à terra.

ÁUDIO | ANTÓNIO JOSÉ CARVALHO, PRESIDENTE JF TRAMAGAL:
Num discurso com referências ao presente, alertou para desafios sociais ainda existentes. “Ainda temos pobreza na nossa terra e temos que continuar todos os esforços para que ela se erradique”, afirmou, defendendo a qualificação como chave para o futuro.
“É na educação e na formação dos trabalhadores que está a valorização do trabalho”, defendeu.
A componente histórica da celebração foi também destacada pelo presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, que sublinhou o caráter singular desta tradição no país.
“Mesmo quando o antigo regime não permitiu, o comendador avançou com as comemorações. Fez-se aqui a festa no 1.º de Maio sem medo”, recordou.
Para o autarca, o legado de Eduardo Duarte Ferreira permanece atual, sobretudo pelo seu caráter humanista. “O mundo precisa hoje de sinais de humanismo muito fortes”, afirmou, defendendo que a relação entre empresa e comunidade construída no Tramagal continua a ser um exemplo.

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:
Ao longo do dia, as comemorações estenderam-se a várias iniciativas, com destaque para as provas de atletismo, que mobilizaram centenas de participantes, e para as atividades desportivas e associativas que envolveram diferentes gerações.
O Tramagal Sport União assinalou o seu 104.º aniversário com um almoço comemorativo, enquanto o Agrupamento de Escuteiros celebrou 58 anos de atividade, reforçando o papel das coletividades na vida local.
A vertente cultural encerrou as celebrações com um concerto na Sociedade Artística Tramagalense, reunindo jovens músicos e orquestras, num momento que simboliza a continuidade entre passado e futuro.

Ao longo de 125 anos – com apenas duas interrupções marcadas por luto – o 1.º de Maio no Tramagal afirmou-se como uma celebração única no país, nascida da iniciativa do patrão Eduardo Duarte Ferreira e dos trabalhadores da MDF, que chegaram a ser mais de 2.600.
Mais do que uma efeméride, o dia mantém-se como um símbolo da identidade local, onde trabalho, comunidade e memória continuam a cruzar-se.

Como resumiu Maria Duarte Ferreira, evocando o legado familiar, “foi o humanismo que mais distinguiu o meu bisavô” – um valor que, mais de um século depois, continua a marcar o espírito do Tramagal.
ÁUDIO | MARIA DUARTE FERREIRA, BISNETA DE EDUARDO DUARTE FERREIRA:
Dia 1 de maio – Uma festa em Tramagal
Desde 1901 e até aos dias de hoje, 1 de maio de 2026, apenas por duas ocasiões o Dia do Trabalhador não foi celebrado na vila metalúrgica.
Em 1951, devido ao luto nacional pela morte do então Presidente da República, Óscar Carmona, e no dia 1 de maio de 1956, devido a um trágico acidente que ocorreu na véspera, a 30 de abril, com granadas no forno da fundição a provocarem duas violentas explosões e a causarem duas mortes e muitos feridos. O episódio das duas explosões que abalaram o Tramagal nos fornos da fundição, devido a granadas que iam no metal a fundir, levaram a que o dia 1 de maio de 1956, dia que seria de festa, fosse transformado em luto, com mais de cinco mil pessoas a acompanharem o funeral dos malogrados trabalhadores da MDF.

O Dia do Trabalhador celebra-se no Tramagal desde 1901, ano em que os operários festejaram pela primeira vez a data, colhendo flores nos campos para enfeitar as máquinas. É um caso único no país e nem as ameaças da ditadura fizeram recuar os Duarte Ferreira, que assumiram o 1º de Maio como um grande dia de festa na empresa.
O Ministério do Interior chegou mesmo a proibir a manifestação por duas vezes, como se conta no livro “Metalúrgica Duarte Ferreira 1879-1997 – Uma história em constante metamorfose”, de Patrícia Fonseca (Ed. CM Abrantes, 2017).
Na primeira ocasião, no início dos anos 40, Eduardo Duarte Ferreira enviou o filho mais novo a Lisboa para falar expressamente com o ministro, tentando que este revogasse a decisão. Mas o governante mostrou-se irredutível, insistindo que não poderiam realizar a festa.
“Estão rigorosamente proibidos!”, terão sido as suas palavras finais. Eduardo Cordeiro ter-lhe-á respondido, segundo ficou registado num documento da empresa, de forma muito corajosa: “Pois saiba V. Exa. que nós vamos mesmo fazer a festa, porque a nossa comemoração nada tem de subversivo. Pode preparar a polícia para ir ao Tramagal prender mais de mil trabalhadores e os três administradores.”
A festa fez-se, e ninguém foi preso. Há 70 anos, o 1º de Maio foi um dia de luto e de muitas lágrimas em Tramagal. Em vez da festa tradicional realizaram-se os funerais das vítimas (Assis Januário e Joaquim da Silva Manana), num cortejo fúnebre com mais de cinco mil pessoas, segundo a imprensa da época.
