A vida é feita de referenciais. Basta refletirmos escassos segundos para percebermos isso de forma muito clara. Só somos ricos quando há mais pobres à nossa volta. E só o somos, em bom rigor, até nos rodearmos de outros mais ricos do que nós. O nosso trabalho só é mau até conhecermos – ou decidirmos ouvir com “ouvidos de escutar” – outros que têm trabalhos bem piores do que os nossos. Os nossos problemas só são graves até conhecermos outros que têm problemas mais graves. Aí conseguimos, finalmente, relativizar. A nossa vida só é boa quando há outras piores com que a possamos comparar. Esse é o poder dos referenciais. Dão-nos algo que, feliz ou infelizmente, é essencial: a capacidade de comparação.
O desafio dos referenciais é usá-los bem. É, acrescentaria, acima de tudo, usá-los honestamente. Independentemente de beneficiarem ou prejudicarem aquilo que queremos comprovar e que, não raras vezes, não é assim tão comprovável. Numa era em que somos bombardeados com toneladas de informação a cada segundo que passa, é cada vez mais difícil fazer o crivo corretamente. No que é que podemos acreditar? No que é que devemos acreditar?
Naquela notícia que lemos ontem, muito bem escrita, sem erros, que até tinha uma tabela ou um gráfico todo catita, que alegadamente comprovava o que o autor escrevia? A resposta é a de sempre: depende. Se for um tema relevante para nós, é preciso pensar e repensar uma e outra vez.
Vejamos um exemplo simples. De acordo com dados do Banco Mundial[1], em 2023, o Produto Interno Bruto (PIB)[2] de Portugal situou-se na casa dos $287 mil milhões. No mesmo período, o PIB da Polónia ultrapassou os $811 mil milhões. Abaixo podem consultar o gráfico deste indicador ao longo das últimas 3 décadas e meia, no qual Portugal está representado pela linha azul e a Polónia pela linha verde.

O que é que este gráfico nos diz? Diz-nos, por exemplo, que em 1990 o PIB de Portugal era ligeiramente superior ao da Polónia. Podemos também concluir que os PIBs de ambos os países cresceram significativamente neste intervalo de tempo, sendo que o crescimento polaco foi muito mais acelerado que o português. Diz-nos muito claramente, acima de tudo, que a riqueza criada por um polaco ao longo de um ano é bastante superior à criada por um português no mesmo período. Certo?
Errado. Nada mais errado, aliás. Porquê? Lembrem-se: a vida é feita de referenciais.
Neste caso particular, falta-nos uma noção absolutamente fundamental para podermos comparar países. Na prática, falta-nos um referencial que retire da análise o impacto da diferença de dimensão entre estes dois países. Aquilo que estamos a ver é somente o somatório do valor dos bens e serviços produzidos por todos os cidadãos de cada um destes países anualmente. No entanto, a população residente na Polónia é cerca de 3.5 vezes maior do que a população residente em Portugal.
“Per Capita” é a expressão-chave neste caso. Em termos práticos, o que o PIB Per Capita faz é dividir o valor total do PIB pela população de cada país. O gráfico que obtemos com essa alteração é o seguinte:

Em 2023, o PIB Per Capita de Portugal foi $27 275, ao passo que o da Polónia se situou nos $22 112. Portugal continua a ser representado pela linha azul e a Polónia pela linha verde. Afinal, a conclusão correta é a inversa da que o primeiro gráfico pareciam indicar: Portugal esteve sempre acima da Polónia no que concerne à produção de riqueza (bens e serviços) pela população, isto em função da dimensão de cada país.
Assim sendo, atendendo a que Portugal está consideravelmente mais bem colocado do que um bloco econónimo e industrial tão relevante como é a Polónia no contexto europeu atual, será provavelmente razoável assumir que Portugal estará muito bem colocado no que toca ao PIB Per Capita em termos europeus. Certo?
Mais uma vez: errado. Desta vez, faltam-nos um ou dois elementos-chave. Em primeiro lugar, para perceber a posição média relativa de Portugal, precisamos do valor médio europeu.

A linha mais escura representa a média do PIB Per Capita quando consideramos os estados-membros União Europeia, cujo valor se situa em quase $40 824, valor esse que é muito mais elevado do que o dos dois países que temos estado a analisar. Ou seja, a riqueza produzida em média por um residente em Portugal ou na Polónia é, em média, bastante mais baixa do que aquela que é produzida pela média dos residentes na UE27. Podemos ainda concluir que ambos os países estão atualmente mais afastados do valor médio da UE do que noutras fases do seu passado recente. Quer isto dizer que, pelo menos em termos de criação de riqueza, são países nos quais a famosa “convergência” com a União Europeia não tem sido uma realidade.
Em segundo lugar, para perceber em que posição efetiva estamos a nível europeu, teremos de adicionar à análise os valores dos restantes países do velho continente. Importa relevar que os dados[3] estão em euros e são referentes a 2023.

Em 2023, ocupámos o nono lugar mais baixo da tabela, ficando mais bem colocados do que Bulgária, Roménia, Polónia, Hungria, Grécia, Letónia, Eslováquia e Lituânia. Já com um PIB Per Capita mais elevado do que Portugal, encontramos países como Estónia, Chéquia (ex-República Checa) ou Eslovénia.
Deixo uma última nota, em jeito de provocação amigável, à nossa comunicação social. Recentemente, os nossos media de referência, que tanto impacto têm na formação de opinião dos portugueses, difundiram e repetiram até à exaustão uma notícia sobre as médias de acesso ao ensino superior em Portugal – leia-se, em bom rigor, as médias dos últimos colocados em cada um dos cursos.
Um dos factos a que se deu particular ênfase foi o facto do curso de Engenharia Aeroespacial da Universidade do Porto ter sido o que apresentou a média de acesso mais elevada (19.45) naquela que é a sua edição de estreia, aprofundando a senda de “queda” da tão tradicional área de Medicina no que toca a médias de acesso extremamente elevadas.
No entanto, onde estão os referenciais relevantes? Esse curso – que liderou efetivamente o top das médias de acesso mais elevadas – abriu apenas 30 lugares, ao passo que, por exemplo, a licenciatura em Medicina da Universidade de Lisboa teve uma média de acesso de 17.77 valores mas abriu 301 vagas. São 10 vezes mais vagas.
Já agora, puxando a brasa à sardinha de uma das minhas escolas, a licenciatura em Gestão da Nova SBE teve uma média de acesso de 18 valores para as suas 295 vagas.
Será que as conclusões seriam as mesmas?
[1] Disponíveis em: Total GDP ($)
[2] Segundo a Infopédia: “Produto Interno Bruto (PIB) de um país é o montante dos bens e serviços por ele produzidos num dado ano. Esse valor refere-se à produção efetuada no país, independentemente de ser realizada por empresas nacionais ou estrangeiras.” [Disponível em: PIB – Infopédia]
[3] Fonte: Statista [Disponível em: GDP Per Capita 2023 – EU Member States]
