ULS Médio Tejo registou um aumento assistencial global e número recorde de cirurgias em 2024. Foto arquivo: ULS

“Esta intervenção cirúrgica consiste na implantação de um pacemaker sem fios, o Pacing Leadless, uma nova tecnologia que está indicada em doentes em que seja necessário preservar os acessos vasculares, como é o caso dos doentes que estão em hemodiálise ou os doentes que não têm acessos vasculares”, disse o Diretor do Serviço de Cardiologia do CHMT, um dos cirurgiões que implantou o dispositivo em Alfredo Almeida, de 85 anos, o segundo na história daquele bloco operatório e dos poucos realizados a nível nacional.

Para José Linder, este “é também o início do um novo caminho, no que diz respeito à tecnologia de tratamento das arritmias e dos bloqueios cardíacos”, tendo destacado a “vantagem” de não ter fios, uma “duração de 18 a 20 anos, muito superior” aos pacemakers tradicionais, e que “pode ser deslocado (…) e removido quando chegar ao fim de vida de uma maneira muito simplificada também”, sendo o dispositivo de implantação aplicado através da veia femoral”, de forma direta, e sem deixar cicatrizes.

“Trata-se de um equipamento de vanguarda, de dimensão muito reduzida (tamanho de uma pilha de relógio), que comunica por Bluetooth com o telemóvel, por exemplo, sendo implantado através de um procedimento minimamente invasivo”, indicou o CHMT, tendo feito notar que esta tecnologia “contrasta com aparelhos muito grandes, que são usados atualmente, do tamanho de caixas grandes de fósforos, com grande incómodo para o doente”.

Homem de 85 anos ganha nova vida em Abrantes com pacemaker de última geração. Foto: Lusa

“A nível europeu, somos neste momento pioneiros na implantação deste tipo de dispositivos. E o nosso hospital, a nível nacional, foi o terceiro a ter este tipo de tecnologia”, disse o responsável pelo Serviço de Cardiologia, tendo feito notar, enquanto se preparava para a operação, que este é “o primeiro hospital” do Serviço Nacional de Saúde (SNS), fora dos grandes centros urbanos, a realizar estas intervenções.

José Linder foi um dos cirurgiões que conduziu a intervenção cirúrgica no CHMT
José Linder, Diretor do Serviço de Cardiologia do CHMT

A equipa, composta por dois cardiologistas, três técnicos de cardio-pneumologia (TCP), dois enfermeiros, dois auxiliares, um técnico de radiologia, dois TCP como observadores, um cardiologista de urgência e back-up de cirurgia cardíaca, estava agora a postos para a intervenção a Alfredo Almeida, o primeiro dos dois implantes realizados a 28 de dezembro.

“Neste caso em concreto, é um doente que, quando conduzia o automóvel, teve um acidente, por perca de consciência. É um doente candidato a colocar este dispositivo para preservação da circulação vascular. Está bem, é uma pessoa com 85 anos, mas está muito bem e vai ficar melhor, seguramente”, assegurou Linder.

“O tempo previsto de intervenção são 40 minutos. E vai fazer apenas uma sedação ligeira, não vai ser anestesiado, vai fazer apenas uma anestesia local. Sedação e analgesia é suficiente. E amanhã terá alta, em princípio”, indicou o cirurgião, à entrada da sala de operações.

Alfredo Almeida, residente na Portela de Santa Margarida, Constância, era um homem “sem medo” e estava “tranquilo” minutos antes de entrar no bloco operatório, tendo revelado à Lusa alguma “ansiedade” para “sair do hospital” e ir ter com a sua esposa, de 83 anos, que sofreu ferimentos graves no acidente de viação e que está em casa, em recuperação.

“Sinto-me mais ou menos bem. Quer dizer bem, bem, mal. Mas, em princípio, estou bem, estou a recuperar. E sinto-me satisfeito que é para sair daqui para fora. E realmente não é por mim, nem é por mau-trato nem coisa nenhuma, apenas pela minha mulher, que ela está lá sozinha em casa, com falta de condições, e é a minha companhia. Ela já tem 83 anos. (…) A cabeça, bateu com as costas também, está toda arranhada. Tenho pena, mas estou esperançoso que vamos reviver a vida (…) e ainda vamos ser felizes o resto dos nossos anos (…)”, disse Alfredo, militar na reforma, sem travar as lágrimas e alguma emoção.

Alfredo Almeida entrou no hospital de Abrantes a 21 de dezembro, na sequência de um acidente automóvel, e entrou na lista dos doentes para uma intervenção urgente após o coração ter parado de bombar e ter perdido a consciência.

“Era o que eu já sabia, que tinha uma válvula a falhar, e que não bombardeava o sangue convenientemente para as várias artérias. (…). Quer dizer, eu sabia, mas fui fazer um exame, uma eletrocardiograma, na terça-feira, mais a minha mulher. Na quinta-feira acontece isto. E o médico disse que a coisa estava bem, que não há problemas nenhuns, o vosso coração tem umas deficiências, mas também é da velhice e tal”, contou Alfredo Almeida, lamentando o desfecho mais pela esposa do que por si, mas mostrando-se confiante numa rápida recuperação para poderem voltar a estar juntos.

“Sim, para viver mais uns anitos. Poucos, não é preciso muitos, mas só quero viver mais uns anitos na companhia da minha mulher”, Odete, com quem partilha a vida há 56 anos e que não tem dúvidas sobre a primeira coisa que vai fazer quando tiver alta hospitalar.

“Olhe, a primeira coisa que vou fazer… Vou ver a minha mulher, beijá-la e tal, pá, isso tudo, e vou fazer a vida lá da casa (…)”, revelou, abraçado novamente às lágrimas.

Alfredo Almeida, de 85 anos, saiu do hospital de Abrantes 24 horas depois de ter recebido um pacemaker de última geração. Foto: mediotejo.net
Alfredo Almeida, doente cardíaco recebeu um pacemaker de última geração

Entre o acidente de viação de Alfredo, no dia 21, e a colocação do pacemaker, no dia 28, mediou uma semana. No dia 29, José Linder indicou que a intervenção cirúrgica correu bem e como programado.

“Os doentes operados estão bem, com parâmetros de pacing e sensing ótimos, e hoje vão poder ter alta e retomar a sua vida normal”, contou, apontando a um “ano novo com um coração novo”, com um dos mais modernos equipamentos cardíacos do país e que o responsável acredita que se vão massificar, para além dos doentes a quem estava vedada a colocação de pacemaker devido a comorbilidades e risco para a saúde.

“Para esses será obrigatório. Para os outros será uma questão também de tempo e de evolução. Mas isto é um avanço tecnológico, uma vez que dispensa cicatriz, porque não há cicatriz a nível do tórax. Dispensa, também, um enorme risco de infeção. E a durabilidade, que é muito importante, ou seja, em termos de qualidade de vida, o doente sabe que tem um dispositivo que durará entre 15 a 18 anos, enquanto os habituais duram entre 06 a 10 anos”.

Tempo e qualidade de vida que Alfredo Almeida ganhou para brindar a muitos e bons anos novos na companhia da sua esposa.

“Poucos, não é preciso muitos, mas só quero viver mais uns anitos na companhia da minha mulher”, reiterou, na sua maca, a caminho do bloco operatório, de onde sairia 40 minutos mais tarde a caminho de uma vida nova.

c/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Agência de Notícias de Portugal

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