Foto: Ricardo Escada

Pertenço a uma geração revolucionária dado que vivi o 25 de abril de 1974 em plena época estudantil. A experiência do que assisti e daquilo que se desenvolveu moldou a minha personalidade. Deu-me a ousadia e a preciosidade de olhar com aticismo, ao desenrolar de um processo experiencial vivido com muita intensidade em todos os instantes da vida.

Não direi que tenho saudades de alguns momentos porque sei que a saudade prejudica a raça, tanto no seu sentido atávico, porque é decadência, como pelo seu sentido adquirido, porque definha e estiola. No entanto, continuo com fé porque ela dá força.

A minha camaradagem em Constância deve ser cumprimentada pela brilhante apoteose de que fui alvo. Uma verdadeira comédia futurista em que tomaram parte os melhores números de variedades atualmente na nossa Constância. Desta maneira, conseguimos a nossa missão urgente de fazer jovem e alegre a nossa terra.

Muitas vezes com a minha lealdade fiquei refém de um mal que já vem de muito longe. Era profundamente doloroso constatar a indecência do mal comum. Os destinos cruéis levaram-nos a seguir dois apedeutas farisaicos que passaram depressa quando chegou o dia 1 de outubro de 2017 e, foi desde então que os Constancienses começaram efetivamente a dar mostras da nossa melhor gente.

Em vez de segurarmos o admirável exemplo dos nossos antepassados que inventaram, eles próprios, uma época de desvelo, muitas vezes seguida de exemplo de coragem, de argúcia e de temeridade que acordaram a região inteira e lhe ensinaram novas coisas e novos caminhos.

A região não despreza os valores e as capacidades particulares, faz pior do que isso: não os sabe utilizar. Hoje em dia todos os obstáculos, todos os atritos, estão sistematicamente, burocraticamente organizados numa barreira inexpugnável para derrotar sem piedade a mais corajosa e a melhor das iniciativas.

E não se compreende aqui obstáculos e atritos com dificuldades a vencer. Problemas a resolver. Não, não se confunde. Uma coisa é uma Administração negativa, outra coisa é uma subida difícil. Aqui trata-se apenas de Administração negativa.

É este o estado de espírito da minha terra.

Porque nunca ninguém pode valer isolado, seja uma pessoa, seja uma região, a melhor maneira de se perderam os valores individuais é poderem ser utilizados pela sua própria região e, a maneira de a região comunicar com o mundo é ter valores originais para estabelecer a troca.

Quando o meu corpo afrouxa e cai adormecido, esmagado pelo peso do sono, é a vez de sacudir o paraíso e deixar cair as folhas.  A região está cheia de ecos. Ouvem-se estalidos. Risadas. Umas risadas muito velhas, como que cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso.

O relógio da igreja bateu as horas, uma após outra, como se o tempo tivesse encolhido. E para cúmulo, a Vila foi ficando vazia. Sentei-me naquela praça imensa, encostado a um pilar dos pórticos. Não vi ninguém. Não havia estrelas. Só um céu plúmbeo, cinzento, ainda não aclarado pela luz do sol. Por detrás dele talvez haja canções, talvez vozes melhores…Em suma, há esperança para nós.

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

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