Já aqui nos referimos ao “Milagre de Tancos”, o processo através do qual a 1.ª República preparou, no Polígono Militar de Tancos (“Cidade de Paulona”), entre abril e julho de 1916, o Corpo Expedicionário Português (CEP), que participou na 1.ª Guerra Mundial, na Flandres. Já aqui se disse que os portugueses lutaram em África desde 1914, mesmo sem qualquer declaração de guerra por parte da Alemanha, mas que foi pela participação no palco europeu que o esforço de guerra português ficou especialmente conhecido. As razões: ação militar mais propagandeada, mais documentada e, consequentemente, mais estudada.
Várias entidades dos concelhos do Médio Tejo, nomeadamente Abrantes, Constância, Mação, Vila Nova da Barquinha e certamente outros que me escapam, desenvolveram recentemente atividades diversificadas alusivas à preparação e participação de Portugal naquela que ficou conhecida como “Grande Guerra”. A mais recente notícia a este propósito conta que entre 28 de janeiro e 26 de fevereiro de 2017, na Galeria do Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal, vai estar patente uma exposição intitulada “Primeira Grande Guerra – 100 anos depois”, constituída por dois espaços diferenciados, um alusivo à participação portuguesa e um outro respeitante à participação sardoalense no conflito.

O número 28 da revista Zahara, de dezembro último, traz um extenso dossiê sobre a forma como esta nossa região viveu o primeiro conflito mundial. Para além de artigos sobre o “Milagre de Tancos” e a “Parada de Montalvo”, respeitantes à preparação do CEP, a publicação do Centro de Estudos de História Local de Abrantes inclui um interessantíssimo trabalho da autoria de António Alpalhão, intitulado “Abrantes e a Grande Guerra”, mas que não se fica pelo concelho de Abrantes, onde se conta o percurso das unidades militares abrantinas, que eram à época o Regimento de Artilharia n.º 8, parte de uma Brigada de Artilharia de Montanha (artilharia móvel) e o 12.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 22, cuja sede se localizava em Portalegre, mas também a ação do Batalhão de Infantaria n.º 15, com sede em Tomar. O investigador dá ainda conta das baixas abrantinas (15 mortos), mas ainda das dos concelhos da Chamusca (6), Constância (4), Gavião (6), Mação (8), Ponte de Sor (2), Sardoal (2), Tomar (11), Vila Nova da Barquinha (4) e Vila de Rei (4), tanto no palco europeu como no africano.
A partir do trabalho de António Alpalhão, contam-se aqui alguns aspetos respeitantes à fase inicial da participação das forças da região na guerra europeia, funcionando esta informação essencialmente como um convite à leitura integral do artigo. Depois de ter desembarcado em Brest, o Regimento de Infantaria n.º 22 chegou ao destino a 9 de fevereiro de 1917. A 23 de março partiu de Portugal o Regimento de Artilharia n.º 8, denominado então 3.º Grupo de Baterias de Artilharia.

Quanto a baixas, a 4 de abril, um abrigo foi atingido por uma granada alemã e o teto abateu, fazendo um morto e cinco feridos. A vítima mortal, o soldado António Gonçalves Curado, natural da Barquinha, mas residente na foz do Mondego, ficou na História como o primeiro português morto em França, em combate.
A 13 de maio, o Batalhão de Infantaria n.º 22 assumiu a responsabilidade por um setor da frente, depois de já ter sofrido uma barragem de artilharia inimiga no dia 3 do mesmo mês. A 1.ª Brigada, com os seus quatro Batalhões, entre os quais o n.º 22, assumiu a responsabilidade plena pelo setor de Ferme du Bois, no final de maio. A Infantaria abrantina fez parte, portanto, dos primeiros portugueses a entrar nas trincheiras do “front”. Na noite de 3 de junho, um violento bombardeamento abateu-se sobre a frente portuguesa, tendo vitimado mortalmente vários soldados, entre eles o abrantino João Mendes.

O confronto mais violento desses primeiros tempos, e o pior de toda a guerra para as tropas da região, ocorreu de 12 para 13 de junho. Os dois setores de Ferme du Bois foram atingidos por uma intensa barragem de artilharia, acompanhada de gases asfixiantes. O resultado saldou-se em 180 baixas (mortos, feridos e prisioneiros), dos 4 batalhões envolvidos. O Batalhão de Infantaria n.º 22 (Portalegre/Abrantes) foi o mais atingido, com 18 mortos, 25 feridos e 34 gaseados. Entre as vítimas mortais figuraram 5 gavionenses, 3 abrantinos, 1 matusarense e 1 chamusquense.
Em números anteriores da Zahara (23 e 24), Mário Tropa já trouxera a público artigos sobre a participação de militares da aldeia do Castelo, concelho de Mação, na 1.ª Guerra Mundial. A investigação sobre esta temática é um caminho que está a ser feito, com a disponibilização de documentos e informações online pelo Arquivo Histórico Militar e com o trabalho de pesquisa por parte de muitos interessados.
O centenário da participação de Portugal na guerra constitui uma excelente oportunidade para que fiquemos a conhecer mais e melhor como a mesma decorreu. Para além do levantamento das fichas dos militares e do seu estudo, pode constituir boa estratégia a recolha de informações da tradição oral , bem como de fontes deixadas pelos militares (equipamento, fardamento, cadernetas, cartas ou diários). Mãos à obra!
