VN Barquinha acolhe corrida de toiros na sexta-feira Foto ilustrativa: FeriaPhotos

Fundados com 10 anos de diferença, os dois grupos de forcados da Chamusca puseram de parte animosidades antigas e, nos dias de hoje, a rivalidade só impera na arena. Assim o afiançam os responsáveis dos grupos Amadores e Aposento, com quem o mediotejo.net falou, antes de voltarem a estar “frente a frente” na Quinta-Feira de Ascensão, a 26 de maio, na praça de touros da Chamusca, para mostrarem o que valem na arte da pega.

O Grupo de Forcados Amadores da Chamusca foi fundado a 13 de julho de 1974 e, 10 anos depois, a 29 de julho de 1984, apresenta-se pela primeira vez o Grupo de Forcados do Aposento da Chamusca.

As divergências iniciais foram-se esbatendo e hoje em dia é a amizade que prevalece entre os elementos de ambos os grupos, apesar de os forcados mais antigos não conseguirem esconder alguma picardia.

É na arena que as duas formações mostram a sua garra e tentam superar o adversário com as melhores pegas. Com 48 anos de história, o Grupo de Forcados Amadores da Chamusca, através do seu cabo Nuno Marecos, garante estar “preparadíssimo” para a grande corrida do ano no “Coração do Ribatejo”.

Forcados Amadores da Chamusca

Prioridade é “não defraudar o público”

Nesta altura o grupo é composto por cerca de 40 elementos, entre os quais “muita malta nova, preparados, motivados, malta com muita vontade”, todos com o foco na Quinta-Feira da Ascensão.

A primeira preocupação do grupo, segundo Nuno Marecos, “é não defraudar o público”. Depois “existe um grande respeito pelo touro”, “orgulhar toda a gente que é aficionada com a arte da pega, uma pega com princípio, meio e fim” e “dar um bom espetáculo”.

A pandemia de covid-19 também levou à a suspensão de todas as atividades taurinas e teve impacto nos forcados, que se viram privados dos treinos e das corridas. “Felizmente o problema já está um bocadinho ultrapassado e conseguimos retomar a nossa atividade”, realça o cabo.

As lesões nos forcados em consequência das pegas são sempre motivo de preocupação. Refere ainda a dificuldade em obter patrocínios porque manter um grupo de forcados implica despesas extra, como por exemplo a nível de seguros.

“Quanto mais unidos em prol da festa estivermos, mais a festa tem a ganhar”.

Nuno Marecos é o atual cabo do Grupo de Forcados Amadores da Chamusca. Foto: DR

Quando perguntamos a Nuno Marecos quais foram os piores momentos da história do grupo, aponta a partida de alguém próximo do grupo ou quando antigos elementos morrem ou quando alguém tem lesões graves.

Entre os melhores momentos estão “as corridas, as pegas, os prémios para as melhores pegas e os momentos em que pisam pela primeira vez algumas praças do país como o Campo Pequeno Almeirim ou até mesmo a praça da nossa terra numa quinta feira de Ascensão, a Chamusca”.

Para esta temporada têm para já confirmadas oito corridas, algumas das quais ainda no segredo dos deuses, contando que, até ao final da época, ainda consigam fazer mais três ou quatro.

Nuno Marecos confirma que os Amadores se relacionam bem com o outro grupo, Aposento, reconhecendo que “dentro de praça há sempre uma rivalidade, um grupo quer obviamente ficar por cima do outro. Mas fora da praça nós damo-nos bem”, assegura, acrescentando: “quanto mais unidos em prol da festa estivermos, mais a festa tem a ganhar”.

O Aposento surgiu na década de 80, criado por um grupo de amigos.. Créditos: Aposento da Chamusca

Aposento: “Não somos melhores, nem piores, somos diferentes”

Tiago Prestes, atual vereador na Câmara, foi o fundador do grupo Aposento da Chamusca, formalizado em 1984, mas a sua génese é anterior, conforme nos explica.  “Tem a ver com um grupo de jovens que vem desde 1980. Juntávamo-nos e um dia decidi fazer uma festa campera em que convidei os meus amigos. Foi a partir daí que nasceu este “bichinho” que ficou ao longo do tempo”.

“Pediram-me que repetisse a festa todos os anos e que se pegasse umas vacas. Fomos andando e fomos entendendo que tínhamos jeito e algum conhecimento para aprofundar a técnica. Depois em 1984, a 29 de julho, decidimos dar o passo em frente e enveredar com outra responsabilidade, com um grupo um bocadinho diferente dos existentes até à altura”, recorda Tiago Prestes.

Grupo de Forcados Aposento da Chamusca. Foto: DR

O Aposento “tinha a pega como base no toureio e ao mesmo tempo já se perspetivava um forcado mais atlético para ser capaz de executar a técnica corretamente”.

A estreia na arena de Nave de Haver correu bem e “a filosofia e as regras que regiam o grupo de forcados vingaram até aos dias de hoje”, destaca o antigo cabo, substituído há 11 anos por Pedro Reis.

Hoje em dia o grupo conta com cerca de 35 elementos, está inserido nos 15 primeiros grupos de Portugal e já tem uma série de digressões internacionais.

Tiago Prestes foi o fundador do Grupo de Forcados Aposento da Chamusca. Foto: DR

Para Tiago Prestes, o grupo surgiu inspirado num espírito académico. “Eramos todos muito jovens, andávamos na universidade, queríamos concluir os nossos estudos e fomos conciliando a conclusão dos nossos cursos com o grupo de forcados”, refere, para sublinhar “a perspetiva e filosofia sobre a pega um bocadinho diferente das dos outros. Não digo se é melhor se é pior do que os Amadores, mas seguramente que é diferente”.

Uma “competição saudável” entre grupos de forcados

Se no início “havia uma certa rivalidade até desagradável por às vezes os outros não perceberem e terem relutância à mudança e a uma nova perspetiva, hoje em dia há uma rivalidade sã”.

“Neste momento damo-nos bem, ambos os grupos estão na Associação Nacional de Forcados, conhecemo-nos todos uns aos outros, somos da mesma terra, o espírito é cada um fazer o melhor possível na arena e, ao mesmo tempo, dar um bom espetáculo. Há uma competição saudável neste tipo de atividade taurina”, garante Tiago Prestes.

Quanto a momentos maus e bons ao longo da história do Aposento, o seu fundador recorda um forcado ferido com gravidade em Albufeira, que correu perigo de vida há cerca de 20 anos. “Foi um grande susto. Graças a Deus, sobreviveu e ultrapassou-se o problema”, recorda, reconhecendo o “risco acentuado e os dissabores que por vezes acontecem”.

Em contraponto, destaca a estreia do Aposento na praça de Las Ventas, em Madrid, a maior praça do mundo, “onde mais nenhum outro grupo de Portugal pisou”. Refere ainda a digressão à Venezuela, ao México e as pegas à primeira em Valencia, numa corrida das comunidades portuguesas.

“Em 27 anos de cabo efetivo, tenho tido muitas alegrias, o saldo é bastante positivo. Por isso acho que vale a pena manter um grupo que se posiciona como um grupo-escola familiar, onde os jovens sentem o que é o espírito de família e as maneiras como se devem comportar em sociedade”.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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