A ministra da Saúde disse hoje em Ourém o Governo não vai conseguir atribuir médico de família a todos os utentes até 2027, justificando com o facto de estarem a inscrever-se “todos os dias” novas pessoas nos centros de saúde..Foto arquivo: Lusa

As grávidas terão sempre de ligar para a Linha SNS Grávidas antes de recorrer à urgência hospitalar de Ginecologia e Obstetrícia, segundo o plano de reorganização das urgências hoje apresentado. O plano de reorganização para as urgências de obstetrícia/ginecologia e pediatria vai avançar como projeto-piloto nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Oeste e Península de Setúbal, onde se registam as maiores dificuldades, anunciou a ministra da Saúde. O Governo ainda vai criar uma Linha SNS Criança para desviar das urgências pediátricas os casos não urgentes, enviando-os para consultas agendadas nos centros de saúde.

O plano de reorganização para as urgências de obstetrícia/ginecologia e pediatria, hoje apresentado em conferência de imprensa, no Ministério da Saúde, pelo seu coordenador, Alberto Caldas Afonso, recomenda que a grávida que ligue para a Linha SNS 24 e seja triada com a pulseira verde (pouco urgente) será encaminhada para uma consulta aberta hospitalar em 24 horas.

Já a grávida que for triada com pulseira azul (não urgente) será enviada para uma consulta aberta nos cuidados de saúde primários no dia útil seguinte ou para uma consulta normal.

No caso de a grávida se dirigir pelo próprio pé à urgência será aconselhada a ligar para a linha SNS 24. Caso não queira ligar, será observada por um enfermeiro especialista em enfermagem de saúde materna e obstétrica (EESMO), explicou Caldas Afonso.

Há ainda outras situações previstas no fluxograma que preveem o reencaminhamento direto para a urgência de obstetrícia e ginecologia, nomeadamente se a grávida tiver uma carta do médico ou de um enfermeiro especialista, for reencaminhada por uma emergência pré-hospitalar ou se correr risco de vida.

Segundo Caldas Afonso, todos os enfermeiros que estão a fazer o atendimento na linha SNS 24 fazem uma “formação robusta” obrigatória para a triagem e para o fluxograma.

Realçou a importância da disponibilidade da linha “em tempo célere, o que tem acontecido, e um encaminhamento adequado”.

O coordenador do plano salientou ainda que é preciso retirar das urgências obstétricas cerca de 45 a 50% das situações que não são consideradas urgentes e que estão a condicionar os recursos humanos.

“São situações muito simples (…) que não faz sentido que vão consumir recursos humanos mais diferenciados que têm que estar vocacionados para aquilo que é a missão daquela unidade, dar a melhor assistência a quem vai ter o seu filho”, comentou.

Reorganização das urgências de obstetrícia e pediatria vai avançar como piloto em três regiões

O plano de reorganização para as urgências de obstetrícia/ginecologia e pediatria vai avançar como projeto-piloto nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Oeste e Península de Setúbal, onde se registam as maiores dificuldades, anunciou hoje a ministra da Saúde. Segundo Ana Paula Martins, o plano será depois “trabalhado, avaliado e alargado ao resto do país”.

“Consideramos que é um grande avanço neste domínio, que já tardava e que precisamos de concretizar a bem da saúde, das grávidas, das crianças e dos adolescentes”, disse a ministra antes da apresentação do plano no Ministério da Saúde, em Lisboa.

A ministra disse que nunca escondeu que a resposta dada às grávidas e às crianças “não tem sido a melhor”.

“Queremos evitar o encerramento de serviços ou a sua rotatividade, que tanta ansiedade trazem às nossas utentes e às nossas crianças”, salientou a governante.

Sobre o trabalho realizado pela Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, presidida por Alberto Caldas Afonso, a governante disse que é um trabalho exclusivamente técnico realizado por peritos nestas áreas a que “o Governo dá a maior importância”

O Plano de Reorganização para as Urgências de Obstetrícia e Ginecologia e de Pediatria está a ser apresentado por Caldas Afonso, cerca de três meses depois da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente ter sido criado por despacho da ministra da Saúde.

As urgências de obstetrícia/ginecologia e de pediatria voltaram, durante este verão, a registar dificuldades de funcionamento, devido à falta de especialistas para preencher as escalas, o que levou ao encerramento parcial ou a constrangimentos desses serviços.

Governo cria Linha SNS Criança para desviar das urgências os casos não urgentes

O Governo vai criar uma Linha SNS Criança para desviar das urgências pediátricas os casos não urgentes, enviando-os para consultas agendadas nos centros de saúde.

Segundo anunciou o coordenador do grupo de trabalho que traçou o novo plano para as urgências de Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia, Alberto Caldas Afonso, no caso das pulseiras azuis (não urgentes), serão marcadas consultas nos cuidados de saúde primários em 48 horas.

Os casos das pulseiras verdes (pouco urgentes) serão logo encaminhados para a chamada ‘consulta aberta’ nos centros de saúde, para que a criança possa ser vista em 24 horas.

Nas urgências devem ser apenas vistos os casos encaminhados por outras unidades hospitalares, pelos assistentes ou pelo INEM.

O plano vai arrancar inicialmente em Lisboa e Vale do Tejo, região Oeste e Península de Setúbal, sendo depois alargado a todo o país.

Caldas Afonso lembrou que a intenção é deixar de ter urgências rotativas, sublinhando: “as pessoas têm direito a estar informadas e o que está aberto no dia 01 de janeiro deve estar sempre aberto”.

O responsável falou numa “mudança de paradigma” nas urgências de Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia, lembrando que é preciso aumentar a literacia e transmitir a informação correta aos portugueses, que “têm de saber dirigir-se ao local apropriado para a necessidade assistencial que tem naquele momento”.

“Esta noção ainda não existe”, afirmou.

O presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente disse ainda que este grupo de trabalho teve o cuidado de “partilhar as propostas com todos os Conselhos de Administração das Unidades Locais de Saúde”, envolvendo diretores dos serviços de Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia e dando-lhes tempo para receber as suas sugestões e comentários para melhorar a proposta.

“A maioria [das sugestões] fazia sentido, o que mostra que as pessoas estão motivadas, e estão refletidas no documento”, afirmou.

Fnam considera “pura propaganda” plano para urgências de obstetrícia e pediatria

A Federação Nacional dos Médicos (Fnam) classificou de “pura propaganda” o plano de reorganização para as urgências de obstetrícia/ginecologia e pediatria hoje anunciado, por não prever como irá ser feito o reforço de recursos.

Em declarações à Lusa, a presidente da Fnam, Joana Bordalo e Sá, considerou tratar-se de “um plano vazio” que “não vai resolver os problemas do SNS [Serviço Nacional de Saúde]. Não passa de pura propaganda”.

Para a dirigente, o Ministério da Saúde quer “ter um Serviço Nacional de Saúde na área materna, infantil e pediátrica refém de linhas telefónicas em substituição do atendimento presencial”, o que degrada a qualidade do serviço.

Dantes “havia 10 partos por ano em ambulâncias, mas este ano já tivemos mais de 40”, exemplificou.

“No caso das crianças, eles dizem que, se forem situações menos graves, remetem para os centros de saúde, onde nós sabemos que as agendas estão cheias e onde há falta de médicos”, acrescentou.

“Não explicam depois como é que as equipas têm mais médicos, seja a nível dos centros de saúde para receberem os utentes, nem como é que a nível hospitalar, ao nível das urgências, as equipas são reforçadas”, acusou a dirigente.

Joana Bordalo e Sá salientou que no plano “não há uma única linha” sobre como será feito o reforço dos recursos humanos, nomeadamente de médicos e outros profissionais de saúde.

Além disso, segundo a FNAM, há uma estratégia de esvaziamento dos serviços públicos, como é o caso da administração de vacinas.

“A vacinação, que sempre foi assegurada pelos centros de saúde, por exemplo, e que sempre funcionou bem, de repente, é transferida assim para as farmácias”, sem “nenhuma justificação para isso”, uma “medida com muitos custos adicionais para o erário público”.

“Nos últimos 50 anos, nós tínhamos dos melhores resultados de saúde materno/infantil, a própria mortalidade geral da população era das mais baixas” do mundo, mas hoje “nós vemos que, com estas medidas que são vazias, em particular deste Ministério da Ana Paula Martins, as coisas estão a piorar”, acusou a dirigente.

Joana Bordalo e Sá recordou as notícias recentes do “aumento dos óbitos fetais de bebés” e de recém-nascidos como exemplos dessa degradação.

“Os nossos dados de saúde, que eram excelentes devido a um SNS que era público, universal e que garantia a saúde à população, deixaram de ser uma realidade”, disse a dirigente sindical, considerando que a ministra “Ana Paula Martins não tem competência e não tem vontade política de reverter a situação”.

Sindicato dos médicos rejeita que linhas telefónicas sejam “solução mágica” para as urgências

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM), por sua vez, rejeitou que as linhas telefónicas sejam uma “solução mágica” para resolver as dificuldades das urgências e questionou a eficácia do plano hoje apresentado perante a falta de médicos de família.

“Nós não achamos que essas linhas telefónicas sejam uma solução mágica para resolver os problemas”, adiantou à Lusa o secretário-geral do SIM, numa reação ao plano de reorganização para as urgências de obstetrícia/ginecologia e pediatria hoje apresentado em Lisboa.

Relativamente à criação da linha SNS Criança, uma das medidas que consta do plano elaborado pela Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, Nuno Rodrigues referiu que a posição do sindicato é a mesma que manifestou sobre a SNS Grávida, criada recentemente no âmbito do plano de emergência do Governo para a saúde.

“Mais de 70% das grávidas foram encaminhadas na mesma para um serviço de urgência”, salientou o dirigente sindical, que vê ainda “com dificuldade que haja médicos que consigam dar resposta” aos dois novos centros de atendimento clínicos pediátricos previstos para Lisboa e Porto.

Depois de referir que será ainda necessário perceber os detalhes do plano, Nuno Rodrigues alertou que em Lisboa e Vale do Tejo e na região Oeste existem zonas com cerca de 40% de utentes sem médico de família.

“Se não há médicos para atribuir às pessoas, quem é que são os médicos que vão atender estas crianças? São os mesmos que já estão em sobrecarga?”, questionou o secretário-geral do SIM, para quem, neste momento, o importante era aumentar a contratação de especialistas, criando condições para ficarem no Serviço Nacional de Saúde.

“Parece um plano com boas intenções, mas que carece de uma aplicabilidade prática principalmente nas regiões que não têm médicos de família”, afirmou.

De acordo com o plano, que será nesta fase implementado em Lisboa e Vale do Tejo, na região Oeste e Península de Setúbal, as grávidas terão sempre de ligar para a Linha SNS Grávidas antes de recorrerem à urgência hospitalar de ginecologia e obstetrícia.

É recomendado que a grávida ligue para a Linha SNS 24 e, caso seja triada com a pulseira verde (pouco urgente), será encaminhada para uma consulta aberta hospitalar em 24 horas.

Já se for triada com pulseira azul (não urgente) será enviada para uma consulta aberta nos cuidados de saúde primários no dia útil seguinte ou para uma consulta normal.

No caso de a grávida se dirigir pelo próprio pé à urgência será aconselhada a ligar para a linha SNS 24. Caso não queira ligar, será observada por um enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica.

Relativamente à pediatria, o plano prevê a criação de uma Linha SNS Criança para desviar das urgências os casos não urgentes, enviando-os para consultas agendadas nos centros de saúde.

No caso das pulseiras azuis (não urgentes), serão marcadas consultas nos cuidados de saúde primários em 48 horas, enquanto as situações de pulseiras verdes (pouco urgentes) serão encaminhados para a chamada ‘consulta aberta’ nos centros de saúde, para que a criança possa ser vista em 24 horas.

Nas urgências devem ser apenas vistos os casos encaminhados por outras unidades hospitalares, pelos assistentes ou pelo INEM.

Agência de Notícias de Portugal

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