Campanha de trigo no Casal da Coelheira, em Tramagal, Abrantes. Fotografia: mediotejo.net

Foram as vinhas que deram fama ao Casal da Coelheira, no Tramagal, em Abrantes, mas na propriedade que se estende ao longo das margens do rio Tejo há outras culturas. Nas terras mais férteis – e menos adequadas para as videiras – planta-se trigo, milho e ervilhas. Agora chegou a altura de colher o trigo, e a pachorrenta debulhadora procurava terminar a campanha, no primeiro dia de Verão, fintando um pingo de chuva que caía aqui e ali.

“Se começar a chover, estraga-se tudo”, comenta Nuno Falcão Rodrigues, com um olho pousado no horizonte cinzento e outro na máquina que avança pela última parcela dos 20 hectares de trigo ali plantados.

A campanha deste ano é especial. Se nunca existiram problemas para escoar a produção, com a crescente procura de cereais no mercado, devido à guerra na Ucrânia (mas também às dificuldades que já se vinham sentindo no mercado internacional), há mais compradores interessados. Os preços têm batido recordes nos últimos meses e será provável que o trigo do Casal da Coelheira possa ser vendido por um valor três vezes mais alto do que o fixado no ano passado. Mas isso não se traduz tudo em lucro: também os custos de produção aumentaram bastante, sobretudo no que diz respeito à energia e gasóleo.

As contas serão feitas no fim, mas Nuno Falcão Rodrigues está confiante de que a subida do preço de venda irá compensar os custos acrescidos – algo que não pode dizer, por exemplo, em relação à comercialização do vinho, onde os produtores têm um mercado concorrencial mais agressivo e pouca margem para subir os preços.

Em Portugal poucos agricultores se dedicam ao trigo, embora esse número tenha crescido ligeiramente na última década, devido a apoios europeus ao setor. No caso do trigo duro, cultivaram-se em 2019 apenas quatro mil hectares, sobretudo no Alentejo e no Ribatejo, que favorece esta cultura de sequeiro, com o seu clima quente e seco e terrenos pouco acidentados, em planície, o que facilita a mecanização.

Em 2021, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, só 6,3% da utilização interna de trigo (para consumo humano, alimentação animal, utilização industrial, etc.) foi satisfeita pela produção nacional, quando em 1990 esse valor atingia os 59,9%. No ano passado, França era o principal fornecedor de trigo a Portugal (49%), seguindo-se Espanha (13%). Da Ucrânia chegava menos de 1% do trigo necessário, mas os efeitos no nosso mercado sentem-se de forma indireta, pelo valor que este cereal atinge no mercado internacional pela falta de fornecimento deste país, entre os maiores produtores mundiais.

Os 20 hectares plantados este ano no Tramagal vão dar cerca de 100 toneladas de trigo que, após análises físico-químicas, terão um destino (e preço) diferente: ou para a moagem de farinhas, para consumo humano, ou para alimentação animal. Certo é que, para onde quer que estes cereais sigam nos próximos dias, farão a diferença num mercado em grandes dificuldades.

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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