A Feira da Golegã, uma das mais antigas manifestações equestres portuguesas, está em consulta pública para integração no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, num processo que o município considera mais um passo para o reconhecimento e preservação de uma tradição com mais de quatro séculos.
O procedimento foi aberto pelo Património Cultural, I.P., através de anúncio publicado em 19 de agosto em Diário da República (AQUI), e decorre até 30 de setembro, prazo estabelecido para a pronúncia dos interessados sobre o projeto de decisão de inscrição da Feira da Golegã no inventário nacional.
Em declarações à agência Lusa, o vice-presidente da Câmara Municipal da Golegã, Diogo Rosa, considerou que o início desta fase representa uma “etapa importante para a valorização” do certame.
“Significa que o processo está a andar e é extremamente importante, na medida em que é mais um passo para vermos o nosso património e as nossas culturas reconhecidas e preservadas”, afirmou.
Para o autarca, a Feira reúne as condições necessárias para obter o reconhecimento, tendo em conta a sua antiguidade e singularidade. “É um evento secular” com características “próprias e únicas”, não apenas em Portugal, mas também a nível internacional, sustentou.
O processo colocado em consulta pública identifica a Feira da Golegã no domínio das “práticas sociais, rituais e eventos festivos” e na categoria das “festividades cíclicas”, incluindo nas suas diferentes denominações a Feira de São Martinho, a Feira Nacional do Cavalo e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano.
A documentação apresentada ao Património Cultural descreve-a como uma manifestação cultural de natureza equestre e considera-a a mais antiga, representativa, participada e emblemática entre as manifestações equestres nacionais.

A Feira de São Martinho remonta a 1571, a designação Feira Nacional do Cavalo surgiu em 1972 e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano em 1999.
Uma tradição com origem no século XVI
Segundo o historial incluído no processo de inventariação, foi por alvará de D. Sebastião, datado de 6 de julho de 1571, que a feira passou a realizar-se em 11 de novembro, Dia de São Martinho. A decisão transferiu para novembro uma feira que anteriormente se realizava em outubro. Já no século XVIII, a Feira da Golegã era referenciada entre as três mais importantes do país, juntamente com as de Viseu e Évora.
A relação com o cavalo foi-se afirmando ao longo dos séculos, tendo um novo impulso em 1865, quando D. Luís instituiu um concurso de gado cavalar. Atualmente, o Largo do Arneiro constitui o centro da Feira, reunindo cavalos, cavaleiros, amazonas e carros de cavalos, além das competições, comércio, artesanato e restantes atividades associadas ao certame.
Diogo Rosa destacou precisamente “a convivência entre pessoas e cavalos”, as tradições ligadas ao mundo equestre e a presença de artesãos e produtores oriundos de vários pontos do país como elementos que conferem à Feira uma identidade própria.
“É um evento único, um certame do mais português que pode existir e tem todas as condições e todo o potencial para ser considerado património imaterial”, sustentou.
Segundo o vice-presidente da Câmara, a preparação da candidatura assentou numa extensa recolha e organização de documentação histórica promovida pela Associação Feira Nacional do Cavalo, com apoio de uma equipa de consultoria.
“Foi necessário reunir muita documentação histórica, a história da feira, imagens e outros elementos que ajudam a suportar todo o processo”, explicou, acrescentando que antigos e atuais dirigentes contribuíram igualmente com documentação e testemunhos para a consolidação do dossiê.

O processo oficial identifica como comunidade diretamente associada à manifestação a comunidade equestre, integrando cavaleiros, amazonas, condutores de carros de cavalos, criadores, artesãos, artistas e amantes da arte equestre.
São ainda individualizados os atletas e participantes nas competições, os artesãos e expositores e os milhares de visitantes que passam pela Golegã durante o certame.
Reconhecimento pode abrir caminho a ambição internacional
Quanto aos benefícios de uma eventual inscrição, Diogo Rosa salientou que o objetivo passa por assegurar “uma proteção mais formal da feira”, reforçando simultaneamente a sua divulgação e potencial turístico.
“Vai trazer inúmeros benefícios”, afirmou, acrescentando que “a ideia é proteger a feira de uma forma mais oficial, o que vai certamente atrair mais turistas”.
O autarca admite ainda que a inscrição no Inventário Nacional possa constituir uma etapa para uma futura candidatura à lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
“O objetivo principal será conseguirmos que o processo transite para a UNESCO e que a feira seja reconhecida como património da humanidade”, afirmou, considerando que esse reconhecimento daria uma projeção internacional ainda maior à Golegã.

A Feira está já relacionada com outro reconhecimento da UNESCO: a Arte Equestre Portuguesa foi inscrita, em dezembro de 2024, na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O próprio processo agora em consulta refere essa ligação e recorda que a Câmara da Golegã foi parceira dessa candidatura, juntamente com a Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano e a Escola Portuguesa de Arte Equestre.
O concelho possui ainda a Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo, classificada pela UNESCO em 1981 e primeira área protegida portuguesa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera.

Concluída a consulta pública, o Património Cultural dispõe, nos termos do anúncio publicado em Diário da República, de 120 dias para decidir sobre o pedido de inventariação. Os interessados podem consultar o processo e apresentar observações durante o período em curso.
Feira regressa de 6 a 15 de novembro
A edição deste ano realiza-se entre 6 e 15 de novembro e assinala a 50.ª Feira Nacional do Cavalo e a 27.ª Feira Internacional do Cavalo Lusitano, a par da tradicional Feira de São Martinho.
O cartaz oficial de 2026 é da autoria de António Imaginário, inspirado numa fotografia de Rita Fernandes.

c/Lusa
