Foto: mediotejo.net

“O Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, foi a peça que, tendo como palco a Praça da República, percorreu vários locais emblemáticos da vila de Sardoal. A iluminação pública foi propositadamente desligada, permitindo recriar um verdadeiro cenário da época a que a peça retrata.

Com encenação a cargo de José Ramalho, diretor artístico do Teatro Figura, a realização do espetáculo fez uso do espaço urbano do núcleo histórico da vila como espaço cénico. O destaque foi para a Praça da República, que, com o Pelourinho e o painel de azulejos ilustrando uma obra de Gil Vicente, foram o epicentro desta representação cénica.

A peça iniciou-se junto ao edifício da Câmara Municipal onde, num ponto imaginário, se encontraram duas barcas: a Barca do Inferno e a Barca da Glória. O diabo foi um dos personagens centrais da peça que é também apelidada de “Auto da moralidade”. O condutor da barca foi convidando, um a um, os possíveis integrantes da sua tripulação, que desejosos de merecer o paraíso, bem tentaram justificar os seus “pecados”.

A complexa alegoria dramática de Gil Vicente foi representada pela primeira vez em 1517 e integra a chamada “trilogia das Barcas”: o Auto da Barca do Inferno, o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória. Gil Vicente viveu o período áureo de Portugal, testemunhando o processo de expansão ultramarina e teceu profundas críticas à sociedade portuguesa da época. Dos valores à moralidade e até a instituição religiosa católica, diversas foram os temas abordados nas suas peças.

VIDEO/REPORTAGEM:

Recorde-se que Gil Vicente tem uma estreita ligação ao Sardoal, referindo-o várias vezes nas suas obras literárias. A mais importante dessas referências está presenta na parte final da Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela e denota um profundo conhecimento, por parte de Gil Vicente, dos usos e costumes do Sardoal no princípio do século XVI.

A peça assentou num programa de peregrinação pela vila de Sardoal, fazendo decorrer o espetáculo em quatro locais: Praça da República, Cadeia Velha, Igreja da Misericórdia e Igreja Matriz. O espetáculo foi promovido pelo Município do Sardoal, envolvendo o Grupo de Teatro Getas, o Teatro Figura, a Associação SnowBlack, a Vórtice Dance e a Hochschule Mainz | University of Applied Sciences.

A iniciativa inseriu-se no projeto “Caminhos Literários”, que resulta de uma candidatura conjunta apresentada pelos Municípios de Abrantes, Constância e Sardoal ao Programa Operacional Regional do Centro 2014-2020. O projeto artístico tem como objetivo central o uso de um texto clássico, cuja modernidade está presente nas dimensões sociológicas e psicológicas das personagens, corroboradas pela genialidade do texto e sua relação intemporal com o nosso quotidiano.

Explorando os territórios ligados a António Botto, Camões e Gil Vicente, procura-se disponibilizar o usufruto da arte em locais públicos e de acesso livre e trazer a estes territórios vários espetáculos de música, artes visuais e cinema documental, entre outros.

Jéssica Filipe

Atualmente a frequentar o Mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior. Apaixonada pelas letras e pela escrita, cedo descobri no Jornalismo a minha grande paixão.

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