Parece inevitável iniciar esta história recordando a obra “A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de Queirós, na qual o escritor descreve o passado glorioso de uma família. A história de Vasco Ramires tem semelhanças se falarmos de glória, à qual se acrescenta a paixão por cavalos numa família já na quinta geração de cavaleiros, dedicados a uma modalidade em que a aprendizagem nunca finda.
Uma história que o representante de Portugal nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona, partilhou com o mediotejo.net, recordando que a tradição equestre começou com o tio do seu avô, General Carlos Ramires, vencedor do Campeonato do Cavalo de Guerra em 1919, e se consolidou com o seu pai, o Coronel Vasco Ramires, uma glória do hipismo português que participou nos tragicamente célebres Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

Espalhados pela Quinta dos Choupos, em Tramagal, os cavalos enriquecem o ambiente campestre pelo contraste das suas cores que variam entre o cobre e o castanho, com o verde dos sobreiro e do restante arvoredo. Quase ao lado situa-se a Quinta dos Vales, onde o avô de Vasco Ramires construiu o primeiro turismo rural do País com cavalos, que em época áurea recebeu um elevado número de turistas estrangeiros.
A tradição dos cavalos na família de Vasco Braamcamp Freire Ramires vem do tio do seu avô, o primeiro cavaleiro desta dinastia. Na verdade eram dois os tios militares, ambos oficiais de cavalaria que se apresentaram a concurso. O Capitão José Joaquim Ramires “morreu cedo”, em janeiro de 1919, e atualmente dá nome à Rua Capitão Ramires, junto ao Campo Pequeno [Lisboa].
Conta-se entre os oficiais de cavalaria que se dedicaram à aviação. “Um dos primeiros aviadores da Força Aérea morreu ao aterrar em Santarém”, aquando de um movimento revolucionário que ali eclodira, para se desviar de pessoas que se encontravam no campo, deslizou lateralmente e foi embater “na Torre do Seminário”, naquele que foi um dos primeiro desastres da aviação portuguesa, conta Vasco Ramires.

O irmão, o General Carlos Ramires participou no primeiro Concurso de Saltos Internacional Oficial de Lisboa, em 1911, ou seja, nos primórdios da modalidade, e “ganhou duas vezes o campeonato do Cavalo de Guerra em Torres Novas”, a primeira em 1919.
“Chegou a ir com uma equipa nacional a Madrid. O meu bisavô também montava mas nunca saltou a cavalo”, acrescenta. Nas gerações seguintes, o avô, oficial de engenharia, e o tio, oficial de artilharia, também saltaram a cavalo, como militares, e o pai, Vasco Luís Pereira Esteves Ramires, foi já um cavaleiro com projeção mundial.
“Os meus avós, pais da minha mãe, conheceram-se num picadeiro onde montavam a cavalo em Lisboa. O meu trisavô, Conde de Fontalva, foi o sócio fundador da Sociedade Hípica Portuguesa e do Turf Club, a primeira pessoa a trazer cavalos de puro sangue inglês para Portugal”
Numa vida dedicada ao treino e à preparação de cavalos e cavaleiros, Vasco Ramires refere, às páginas tantas, o acaso para uma “convergência de duas situações equestres”. A paixão pelo desporto a cavalo chegou, então, através da vida militar dos familiares do lado paterno, e por via aristocrática do lado materno.
“Os meus avós, pais da minha mãe, conheceram-se num picadeiro onde montavam a cavalo em Lisboa. O meu trisavô, Conde de Fontalva, foi o sócio fundador da Sociedade Hípica Portuguesa e do Turf Club, a primeira pessoa a trazer cavalos de puro sangue inglês para Portugal. No primeiro concurso internacional de Lisboa era o presidente da Sociedade Hípica que o organizou”.
A mãe de Vasco Braamcamp Freire Ramires também montava a cavalo, tal como a avó e as suas irmãs. Ocupou por diversas vezes a função de júri internacional de concursos ao nível de três estrelas, considerado um grau elevado. E o avô materno toda a vida lidou com cavalos de raça lusitana.
Nesta história de família, destaque para os episódios vividos pelo seu pai, o Coronel de Cavalaria Vasco Ramires. Tornou-se uma glória do hipismo nacional com cerca de 150 vitórias nas mais de 600 classificações onde participou, representando Portugal nos tragicamente célebres Jogos Olímpicos de Munique em 1972, marcados pelo atentado da organização terrorista ‘Setembro Negro’, durante os quais foram sequestrados e massacrados vários atletas israelitas, e que marcaram o seu percurso de cavaleiro pelos resultados obtidos na competição. Fazendo um ponto de situação são, portanto, quatro os Vascos Ramires desta dinastia: avô, pai, filho e neto.

Vasco Ramires (o nosso entrevistado), tinha sete anos em 1972, frequentava a escola em Santarém, e lembra-se que, pela proeza dos Jogos Olímpicos, “toda a gente lhe dava os parabéns. Os professores da escola vinham à rua para cumprimentar o meu pai, todos tínhamos brincado com os cromos dos Jogos Olímpicos… e eu tinha o cromo do meu pai. Achava que era uma brincadeira como outra qualquer.”
“Os professores da escola vinham à rua para cumprimentar o meu pai, todos tínhamos brincado com os cromos dos Jogos Olímpicos… e eu tinha o cromo do meu pai. Achava que era uma brincadeira como outra qualquer”
O pai falava sobre os Jogos Olímpicos de Munique “mas o ataque, em relação aos outros atletas, foi imediatamente abafado. Não o perturbou. O meu pai vinha da guerra de África, para outra ‘guerra’ em Munique”, nota, contando que um outro cavaleiro que acompanhou o Coronel Vasco Ramires aos Jogos Olímpicos de Munique é de Rio de Moinhos (Abrantes), o Coronel Carlos Campos. Ambos iniciaram a prática de equitação em Tancos.

Quando Vasco Ramires compreendeu a importância daquele evento multidesportivo global, ir aos Jogos Olímpicos tornou-se um objetivo de vida. Por isso, de 1980 até 1992 a vida de Vasco “foi uma azáfama” em termos equestres.
“Deixei de ir à escola, montava todos os dias. Ia às provas e a todos os concursos nacionais”, recorda. E foi mesmo a Barcelona em 1992, um feito olímpico que lhe trouxe notoriedade e satisfação pessoal, particularmente porque na prova de obstáculos foi aplaudido de pé.
“No último dia, fiz a melhor prova de obstáculos, dei-lhe alegria. Saí de lá sem a medalha mas com o público todo de pé a bater palmas. Essa ninguém me tira!”, afirma. Um reconhecimento que, no entanto, não lhe trouxe qualquer acréscimo financeiro. “Se me virassem do avesso não caiam 25 tostões”, brinca.
“Saí de lá sem a medalha mas com o público todo de pé a bater palmas. Essa ninguém me tira!”
VIDEO DA PROVA DE VASCO RAMIRES NOS JOGOS OLÍMPICOS DE BARCELONA’92
A possibilidade surgiu após a angariação das verbas necessárias, no caso “à boa maneira portuguesa” através de publicidade para vender terrenos. Preparou-se então uma equipe para os Jogos Olímpicos.
Recorda que aos estágios oferecidos pela Federação Equestre Portuguesa, com técnicos estrangeiros, foram cerca de 100 pessoas “e acabou por ser um grupo escolhido do qual tive a honra de fazer parte”, explica, assegurando que em Portugal “existem talentos fantásticos”.

Dedicação, esforço e aperfeiçoamento na formação
Sendo Portugal um país de grande tradição equestre, foi quando, pela modalidade, Vasco começou a viajar para o estrangeiro percebeu que “as pessoas cultas conheciam Portugal por duas razões: Viriato, por ser a primeira cavalaria do mundo, e Vasco da Gama”.
Compreendeu que além fronteiras existe uma memória equestre portuguesa. “Os estrangeiros ficam encantados com o toureiro a cavalo e a saltar a cavalo também temos um historial dessa época de ouro do desporto nacional, embora curta. O meu pai foi dos últimos militares cavaleiros a ganhar o grande prémio de Madrid e o Internacional de Lisboa, a seguir já foram civis”.
Nascido em Lisboa, Vasco Ramires viveu os seus primeiros cinco anos em África. Regressou em 1974 e, no ano seguinte, começou a participar em concursos. Aos 10 anos montava um cavalo “a meias” com o pai. Sublinha que o hipismo é dos 7 aos 77 anos…
“Competi com o cavalo Hussard, um anglo-luso nascido na casa”. Com essa montada sagrou-se campeão nacional de juvenis e duas vezes de juniores. Foi selecionado para ir a França ao concurso de saltos internacional oficial de juniores. “O que na altura teve uma grande importância”, pois “representava mais que o campeonato da Europa porque veio uma equipe americana”, sublinhou.
Nesse concurso internacional, com uma égua alugada, percebeu a dimensão do desporto e teve acesso a um mundo que toda a vida ouvira falar mas nunca tinha vivenciado.
“Contra a indicação e insistência de toda a gente, em vez de ir montando e estudando achei que, para me dedicar aos cavalos, o melhor era não estudar mais” para dar continuidade ao trabalho do avô, na Coudelaria dos Vales, situada precisamente na Quinta dos Vales, em Tramagal, onde criou cavalos de raça anglo-luso e puro-sangue inglês.

Ao falar na terra que o acolheu, recorda a existência da Sociedade Lebreira do Tramagal, que organizava caçadas a lebres, uma oportunidade para “democratizar” o cavalo entre as gentes uma vez que montar era visto como uma prática de elites, “e como não havia competições de inverno, as pessoas que gostavam de montar a cavalo reuniam-se. A lebre era um pormenor”, observou.
As caçadas decorriam na pista da Valeira Alta [em Santa Margarida], “onde [o General] Franco e [António de Oliveira] Salazar iam assistir. Quem gostava de cavalos acabava por aparecer nas mesmas coisas: nas corridas de toiros, nas corridas de galope, nos concursos hípicos, nas lebres”, conta-nos, falando no avô como grande divulgador da cavalaria.
Até nos Açores, nas Lajes (ilha Terceira) os cavalos têm uma história ligada à dos Ramires. “Numa altura muito fechada, durante a Segunda Guerra Mundial, o meu avô contava sobre a invasão da França, e lembrava-se que durante vários dias os aviões aterravam e levantavam ininterruptamente.”
Em Moçambique também, num centro hípico de Lourenço Marques. “Aliás, Portugal foi o primeiro país do mundo a ter dois concursos internacionais oficiais com Taça das Nações em Lisboa e Lourenço Marques. O meu pai esteve em Angola nos Dragões de cavalaria em Silva Porto que foi o último esquadrão ‘organizado’ do mundo a combater a cavalo”, conta.

Em 1983 viajou até à Bélgica para estagiar com o cavaleiro brasileiro Nelson Pessoa, conhecido como “Feiticeiro” devido ao estilo que usava para conduzir o seu animal, o que parecia ser uma obra de encantamento. E com quem compreendeu que os cavaleiros se distinguem uns dos outros optando por uma equitação feita na sensibilidade.
Importa “o diálogo” entre o cavaleiro e o cavalo, também como método de aperfeiçoamento das capacidades atléticas do último., destaca.
“Pedia-se aos cavalos, não se obrigava. Temos a mania de agarrar o cavalo logo pela boca. É uma agressão! O cavalo tem de ser educado” para conseguir expressar-se com harmonia, explicou.
Diz ter obtido a sua “melhor aprendizagem” com Nelson Pessoa, quando entendeu o desporto equestre em si. Trabalhou também com o campeão português Manuel Malta da Costa, no mesmo estádio equestre.
“Nas técnicas, era tudo ao contrário do que se fazia cá”, lembra. Notou “uma evolução de mentalidade equestre”, o que garante ter-lhe permitido chegar aos Jogos Olímpicos de Barcelona com um cavalo nacional, o anglo-luso Baone.

Lá fora, nos Jogos Olímpicos
A relação com os cavalos tinha sido transmitida pela família Ramires. Mais tarde, quando saiu de Portugal, desenvolveu a evolução no meio equestre. Aponta vários estágios pagos pela Federação Equestre portuguesa como preparação para os Jogos de Barcelona e antes das Olimpíadas permaneceu três meses em Inglaterra como pré-selecionado, em casa do campeão olímpico Richard Meade.
“Em Abrantes, um campo interessantíssimo, com um enquadramento que não há em mais lado nenhum, e quando fizeram as obras ninguém se lembrou que é preciso deixar um espaço para o campo de aquecimento. Precisava de um picadeiro municipal permanente ali por baixo da tenda”, diz, referindo-se ao Hipódromo dos Mourões, em Rossio ao Sul do Tejo


“Os cavalos de obstáculos têm de ser ágeis, atléticos. Ágil mas forte ao mesmo tempo. E corajoso! Tal como o cavaleiro têm de ter coragem, para ir a alto nível”
*Entrevista publicada em junho de 2020, republicada em agosto de 2024
