Foto: mediotejo.net

A Câmara Municipal de Gavião aprovou por maioria, com votos contra dos vereadores do PSD e da CDU, um apoio de 11 mil euros para a realização da edição de 2024 do Raid Ferraria (em 2023 a autarquia atribuiu apoio de 9 mil euros), uma organização do Centro Cultural Recreativo e Desportivo da Ferraria (Clube da Ferraria).

Os vereadores da oposição foram pela atribuição de 15 mil euros, conforme pedido da associação, defendendo aumento do apoio monetário municipal e sublinhando a importância da prova para o concelho.

Certo é que já não é a primeira discussão sobre o tema, sendo que José Pio (PS), presidente da Câmara Municipal de Gavião, tem assumido uma posição própria sobre o assunto onde pesa o argumento custo-benefício da realização da prova no concelho, sendo seu entendimento que a prova “dá prejuízo” em Gavião, nomeadamente no que toca a estragos nos caminhos vicinais utilizados como pista e que tem que ser a autarquia a reparar sob pena de ser alvo do desagrado dos proprietários e utilizadores.

“Como deve calcular, os valores quando são aqui propostos já são objeto de conversação, não aparecem números porque nos lembrámos. Chamo aqui à atenção que quando temos que atribuir um subsídio para uma atividade anual, quando nós damos um valor, estamos a onerar a Câmara para esse ano e para os outros todos”, disse o presidente de Câmara respondendo ao vereador do PSD, referindo ter este valor em conta o aumento das atividades do Clube da Ferraria e o “aumento para os carros, bem como os custos que irão ter”.

“A proposta de aumento de 1500 euros parece-me justa, razoável, e os próprios promotores aceitaram como sendo uma coisa bastante justa e aceitável”, insistiu, adiantando que além do apoio monetário de 11 mil euros prevê-se ainda o trabalho feito pela autarquia na atividade em si, nomeadamente em termos logísticos, e que é “indispensável que aconteça um conjunto de apoios que não são contabilizados, e isso tem que se ter sempre em conta”, frisou José Pio.

O vereador Vítor Filipe, eleito pelo PSD, defendeu de imediato um valor de 15 mil euros ou até superior, e automaticamente anunciou que votava contra o valor proposto pelo edil socialista, aludindo até ao facto de provas de desporto motorizado e todo-o-terreno serem acolhidas noutros municípios de executivo socialista onde inclusive é reconhecido o retorno para o território, caso do BP Ultimate Rally-Raid Portugal que atravessou a região a 5 de abril, na sua terceira etapa, e que o autarca de Gavião confirmou não ter sido a CM Gavião contactada para fazer parte do mapa de passagem do percurso.

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Depois da votação, com aprovação por maioria socialista e os dois votos contra da oposição, os vereadores tomaram a palavra para fazer declarações de voto sobre as suas posições.

Rui Vieira, vereador da CDU, disse não concordar com a proposta do presidente de Câmara, invocando as razões que já teria dado a conhecer em reunião passada mas que alertou não constarem da ata dessa sessão.

“Vou ter que as repetir: acho que este evento merece ser apoiado com aquilo que a associação pediu, e acho que a associação foi humilde. Porque eu sei, e todos sabemos, as despesas que tem, o que é que envolve, o que traz de benefícios ao concelho, toda a população que envolve e envolve uma grande fatia da nossa comunidade. Por todas essas razões, por tudo o que envolve, o trabalho que é feito e que às vezes é um pouco ignorado, pessoas que andam há dois meses dedicadas e nunca tiveram qualquer retribuição ou benefício. Acho que era justo este valor [de 15 mil euros]”, frisou o vereador da CDU, indicando que o pedido foi feito “em consciência” pela associação da Ferraria.

“O que me deixa um pouco triste aqui – e estamos com dois anos e meio de mandato – é que há entidades e associações que vêm aqui, pedem e tudo aquilo que pedem é dado, quase na totalidade. Já não falo de quem faz eventos, falo de quem faz férias, faz passeios, e resumindo isto tudo, acho que apoia-se mais quem não trabalha do que quem trabalha. E por isso fico triste, por este montante não ser nada de especial, e não serem dados os 15 mil euros”, acrescentou.

Por seu turno o vereador social democrata, Vítor Filipe, também pegou no financiamento “a entidades e grupos”, mencionando o caso específico de um apoio na ordem dos “10 ou 15 mil euros” a uma associação.

Vítor Filipe disse que a atividade organizada pelo Clube da Ferraria é “uma atividade única, que desenvolve o município tocando praticamente e totalmente nas suas quatro freguesias, desde Belver, a Comenda, Atalaia, a Gavião, Margem… tudo o que é alojamento local fica preenchido, tudo o que são restaurantes ficam preenchidos, e inclusive os municípios à nossa volta, como infelizmente não temos capacidade de resposta a nível hoteleiro, também usufruem com este evento”.

“É uma verdade, e temos que assumir, a Câmara Municipal tem despesas e um custo que, à imagem do que o presidente diz, eu compreendo mas não entendo. O dizer que o custo-benefício não é lucrável financeiramente para a Câmara, eu sei que é uma grande custa, porque a Câmara em si não recebe retorno desse investimento. Mas a Câmara está aqui em serviço da população, nós somos eleitos em serviço da população e temos que olhar para isto tanto para os comerciantes, tanto para a população em si que está envolvida. É uma mais-valia, eles já têm uma longa data, desde 1999 que andam a fazer este tipo de ações e movimentações. As pessoas envolvidas não ganham nada, é mesmo por amor à camisola que lá andam a trabalhar para trazer o bom nome de Gavião e manter Gavião neste tipo de atividades, que é única no nosso município”, prosseguiu Vítor Filipe, mostrando-se sensível à organização desta prova que é já uma marca na região.

“Quando falamos de um valor de 15 mil euros, já na reunião passada eu disse que esse valor nem chega para cobrir a despesa com a GNR. É dos clubes que mais por si próprio trabalha, desenvolvem outros tipos de atividades, o karaté, por exemplo. Têm uma sede com umas qualificações maravilhosas, para a qual a Câmara tem contribuído e bem. Eu acho que, a meu ver, para além de todo o envolvimento e todo o apoio humano e logístico que a Câmara disponibiliza ao clube, é meu entender – já que eles também subiram a bitola da prova, porque foram obrigados a evoluir senão o Raid da Ferraria acabava – que o apoio dos 15 mil euros era o mais indicado”, concluiu o social democrata.

Raid Ferraria em Gavião. Foto: Raid Ferraria, 2023

José Pio acabou por (tentar) dar por terminada a intervenção da oposição, referindo que os vereadores tiveram oportunidade de dar a sua opinião. O presidente de Câmara disse ainda que os votos contra da oposição foram contra o apoio. “Vamos ter que ser coerentes. A proposta é 11 mil euros. Eu posso dizer que sou a favor do valor, mas acho que devia ser mais… Não posso dizer que sou contra. Quando sou contra, sou contra. Não sou favorável”, atirou, num discurso que não caiu bem à oposição.

A discussão do ponto aqueceu quando o presidente de Câmara sentiu que os vereadores da oposição estariam a entrar em diálogo e a interromper o seu raciocínio.

Ainda assim, o autarca quis esclarecer mais alguns pontos. “Nós temos uma excelente relação com a direção do Clube da Ferraria, reunimos antes de vir para este espaço com uma proposta, temos uma reunião com a direção, como temos reuniões com outras direções. O que eu acho é que nós não devemos privilegiar ninguém em detrimento de outrem. Porque se nós pensarmos que a Ferraria organiza algo que demora três dias, mas qualquer organização que é feita tem uma preparação”, mencionou.

“Eu nunca disse que em termos financeiros era prejudicial para a Câmara. O que eu digo é que a relação custo-benefício com aquilo que são os estragos provocados pelas viaturas nos caminhos vicinais, é aquilo que nós enquanto autarcas sofremos durante o mês seguinte, pessoas a reclamarem porque os caminhos estão danificados e não é possível ter os caminhos reparados no dia seguinte”, alertou o edil.

Reconheceu ainda que Gavião nos três dias da prova não tem capacidade para responder em termos de restauração e oferta hoteleira, porque fica tudo cheio. “Que é uma prova nacional, estamos de acordo. Que é uma prova que tem impacto direto no comércio local, é uma verdade também. Agora, não pode ser só a Câmara a suportá-la. Porque se esse comércio tem esse benefício também tem obrigação de a suportar, de comparticipar”, sublinhou José Pio, questionando por exemplo se a bomba de combustível da vila enquanto beneficiada também patrocina e comparticipa esta iniciativa.

“Acho que as pessoas têm que refletir se a Câmara é que tem que suportar todas as atividades que são feitas, sobretudo numa prova de nível nacional. Alguém tem que vir à frente suportar isso”, continuou, tendo inclusive sublinhado o facto de os custos do Município de Gavião serem “três vezes superiores a Ponte de Sor e duas vezes superiores a Abrantes. E a prova hoje ocupa os três municípios porque entendemos que era importante agregar outros municípios para lhe dar outra dimensão”.

Parque Fechado no Hipódromo dos Mourões, no Aquapolis Sul, em Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes). Foto: Raid Ferraria, 2023

“A Câmara de Gavião nunca se recusou a apoiar a Ferraria, antes pelo contrário (…) Nós damos apoio, não podemos é andar a subsidiar atividades. De uma vez por todas, convençam-se que quando há uma proposta aqui feita ela está sustentada naquilo que é a possibilidade de o município – e não é por ter mais ou menos dinheiro que as coisas devem ser feitas de forma diferente – devem ser feitas de forma justa, correta, e em igualdade de circunstâncias com as outras associações que tenham atividade”, recapitulou, voltando a justificar a sua posição.

“Deve-se subsidiar mais aqueles que têm atividade, e é isso que fazemos. Estamos aqui para o fazer com consciência que estamos a fazer bem feito, e não é por ter mais ou menos dinheiro que damos mais ou menos dinheiro. Damos aquilo que é justo e o que entendemos que as atividades justificam em função daquilo que podem ou não produzir”, concluiu o autarca.

A oposição voltou a frisar que concordava com o pedido inicial da associação, de 15 mil euros, e vincou discordar da proposta do presidente de Câmara e não da atribuição do apoio.

Rui Vieira quis ainda acrescentar que a edição deste ano envolverá “muito mais trabalho, despesa e logística”, referindo que existe pressão das federações para que a prova continue a ser realizada na região, tendo sido acrescentados os auto. Por outro lado, quanto à reparação dos caminhos florestais/vicinais, o vereador comentou que as Câmaras de Abrantes e de Ponte de Sor “na semana a seguir têm tudo reparado”.

“Em termos financeiros dão menos, mas em termos de logística têm cumprido mais do que temos cumprido”, criticou Rui Vieira.

Já José Pio disse reconhecer “em todas as circunstâncias que o grupo de pessoas que trabalham para o Raid na Ferraria é talvez o melhor grupo de gente em termos de dedicação a uma atividade, reconheço-o com toda a clareza e que hoje em dia é difícil arranjar um grupo tão unido e que se dedique durante tanto tempo àquilo que é a prova da Ferraria. Isso é indesmentível” e não ter “nada contra a atividade, nada contra as pessoas que organizam a atividade porque nos merecem a maior das considerações, prudência na atribuição do valor porque podemos estar aqui a criar um monstro que depois não tenha a devida sustentabilidade”.

O autarca atirou ainda que “se houver um problema qualquer e o dinheiro não chegue, sei bem onde eles vêm recorrer e estaremos cá para dar resposta, com toda a certeza, àquilo que possa acontecer. Eles sabem isso e têm essa segurança. A nossa posição é mais que justa e compreendida por quem organiza a atividade. Se calhar compreenderão menos o voto contra o apoio, isso é outra questão”.

Vítor Filipe não gostou da forma como o presidente de Câmara colocou as coisas e retorquiu. “Não queira virar as palavras para uma forma completamente distinta daquilo que é a intenção delas. Nós não estamos contra o apoio, estamos contra o valor que o presidente apresentou. Não continue a frisar coisas que não são realidade”, contradisse.

Foto: mediotejo.net

Rui Vieira insurgiu-se também contra a decisão, e lembrou que outros pedidos “na ordem de 30 mil euros” já vieram a reunião de Câmara e que foram aprovadas comparticipações municipais “de 15 mil euros”, dando exemplo do Grupo de Cantares Terras de Guidintesta.

“Nunca damos um subsídio para passarem férias. É preciso cuidado com os termos que usamos, com aquilo que dizemos. Peço aos senhores vereadores com aquilo que dizem para depois não vir dizer que se não vier refletido na ata que está martelada (…) Não admito que diga que nós privilegiamos uns em detrimento de outros. Isso não acontece”, afirmou José Pio, criticando a postura de Rui Vieira, cujas intervenções classificou como sendo “devaneios”.

Situação contestada pelo vereador da CDU, que interpelou o presidente de Câmara esgrimindo argumentos, gerando-se ali discussão acesa e atropelos, levando até a um murro na mesa por parte dos dois intervenientes, e chegando ao ponto de José Pio ameaçar que se Rui Vieira voltasse a interromper quem dirige a reunião o convidaria a sair. O vereador de oposição não se deixou melindrar e disse que só a GNR o colocaria na rua.

Perante a subida de tom do confronto gerado entre o autarca socialista e o vereador da CDU, até o vice-presidente António Severino (PS) optou por abdicar da palavra, uma vez que tinha manifestado interesse em intervir neste ponto, situação que acabou por contribuir para o resfriar de ânimos, até então bastante exaltados.

Refira-se que o Raid Ferraria vai para a sua 36ª edição, decorrendo entre os dias 26 e 28 de abril nos concelhos de Abrantes, Ponte de Sor e Gavião. A competição integra prova do Campeonato Nacional de Todo-Terreno da FMP e a Prova Extra-campeonato Portugal de Todo-Terreno da FPAK. O acolhimento dos veículos acontece no Aquapolis – Margem Sul, em Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes), onde se situa o parque fechado.

Haverá três zonas espetáculo: na Comenda (Gavião), no Pego (Abrantes) junto à Central Termoelétrica e na zona industrial de Ponte de Sor.

Esta é uma organização do Clube da Ferraria – Centro Cultural Recreativo e Desportivo da Ferraria, encontrando-se as inscrições a decorrer até dia 21 de abril.

Mais informações em https://www.clubeferraria.pt/raid-ferraria-2024/

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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