Comunidade de Energia Renovável poderá vir a nascer em Comenda. Foto: mediotejo.net

“Esta iniciativa é o culminar de um longo processo iniciado em novembro de 2020, com a participação e contributo cívico do Arquivo Digital na consulta pública da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) do projeto de instalação da Central Solar Fotovoltaica do Polvorão, cuja consulta se encontra ainda em análise”, refere Ricardo Branco, curador do Arquivo Digital da Comenda, valência que passou a integrar o Clube Castelanense, uma associação cultural, desportiva e recreativa criada há 72 anos e que foi revitalizada em 2021 por impulso do trabalho dinamizado pelo Arquivo Digital (começado em 2016, mas formalmente constituído em 2018).

Voz ativa na comunidade, Ricardo Branco é fundador e curador do Arquivo Digital. Residente em Lisboa, mas com raízes em Comenda, é investigador e professor na área da Química, numa universidade alemã, mas tem ultimamente colaborado com universidades portuguesas e junto da Comunidade Europeia. Em entrevista ao mediotejo.net começa por explicar o envolvimento associativo nesta proposta de sustentabilidade energética, e com isso voltamos atrás no tempo.

O “bichinho dos papéis”, um gosto pessoal, fez com que a dedicação à prática arquivística se tornasse um “hobby de longa data” e fundasse na terra das suas raízes uma plataforma dedicada à salvaguarda e divulgação do património local e imaterial – em 2016, nasce o Arquivo Digital de Comenda.

“Andamos sempre aos papéis”, releva, rindo-se da imagem que melhor carateriza o trabalho de pesquisa e classificação de documentos, referindo que “a nossa função é coligir os espólios e costurar os espólios de pessoas que aparentemente não têm ligação nenhuma, mas que depois se vê na prática que a sua história entronca na dos outros”.

“Conseguimos fazer algumas atividades marcantes, como o lançamento do livro icónico “Comenda com Gente”, em 2018, que foi o Ano Europeu do Património Cultural. Tem uma fotobiografia que se baseia no contributo do Arquivo Digital e do seu espólio, acessível a toda a gente, e que integra a Rede Portuguesa de Arquivos.

Foto: mediotejo.net

Com 200 associados, colaboradores diretos ou indiretos atualmente, e mais de 4 mil documentos, grande parte deles classificados e disponíveis para consulta pública na plataforma, este Arquivo ajudou a reativar uma coletividade antiga, do século passado.

O Clube Castelanense, entidade que “esteve adormecida nos últimos 50 anos”, uma associação com 72 anos, nascida em 1950, foi redescoberta durante uma entrevista para o Arquivo Digital aos seus dois últimos fundadores. “Deram a conhecer a fundação do Clube Castelanense, no século passado. Francisco Tomé é o último sócio-fundador vivo, o Professor Monteiro faleceu em abril de 2022”, notou.

Foi graças ao Arquivo Digital que se conseguiu “descobrir toda a história do clube e tudo o que tinha feito, quer do ponto de vista fotográfico na parte desportiva, com as primeiras equipas de futebol, quer na parte dos estatutos em que se conseguiu recuperar os estatutos originais, que ainda hoje, passados 72 anos, são os estatutos que regem os destinos do clube (…) Tivemos a sorte de conseguir constituir e documentar esse património, poucos meses antes de um dos dois últimos fundadores ter falecido”.

Comenda, concelho de Gavião. Créditos: DR

Para Ricardo Branco, o resgate destas memórias e património servem o futuro, não fosse exemplo disso o papel que o Clube Castelanense recém-revitalizado está a assumir num dinamismo ativo na e pela comunidade, procurando soluções para o desenvolvimento local e bem-estar social.

“Organizações que foram importantes no passado se não forem valorizadas e se não forem inscritas na nossa história, acabam por se perder, e não restará registo para as gerações futuras. O que significa que as gerações futuras não se sentirão atraídas a reconhecer esse património como parte da sua identidade”, defende.

Neste sentido, os cidadãos que integram a dinâmica do Clube Castelanense, bem como do Arquivo Digital, tomaram posição referente à Central Solar Fotovoltaica do Polvorão, um dos investimentos anunciados para o Alto Alentejo neste sector, a menos de 1,5 km de Comenda, alertando para os impactos negativos para a freguesia, prejuízos e preocupações da comunidade quanto à instalação desta central e de outra muito próxima, a Central Solar Fotovoltaica da Margalha, ambas no concelho de Gavião, e que, segundo Ricardo Branco, duplicam as estruturas e por sua vez o impacto causado no território, sem mais-valias garantidas para a freguesia.

Ricardo Branco abriu a sessão na sala do Orfeão Estrela da Planície, de Comenda, referindo que o objetivo é criar uma comunidade de energia para dar alguma independência energética àquela freguesia.

ÁUDIO | Ricardo Branco, curador do Arquivo Digital da Comenda e porta-voz da iniciativa


“Comunidade de Energia Renovável” (CER), no âmbito da Diretiva UE 2018/2001 (11 Dez) para a promoção das energias por fontes renováveis (‘RED II’) é:

  1. 1a) Definida no art. 2º da Diretiva EU ‘RED II’ como entidade jurídica que no quadro do direito nacional aplicável, e suportada por um conceito de base social tipo “proveitos da energia renovável local para satisfazer necessidades locais”:
    1. (1a.1) Se baseia numa participação aberta e voluntária, é autónoma e controlada por acionistas ou membros que estão localizados na proximidade dos projetos de energia renovável – os quais são propriedade dessa entidade jurídica e por esta desenvolvidos;
    2. (1a.2) Os seus acionistas ou membros são pessoas singulares, PME ou autoridades locais, incluindo Municípios;
    3. (1a.3) O seu objetivo principal é propiciar aos seus acionistas ou membros ou às localidades onde opera benefícios ambientais, económicos e sociais em vez de lucros financeiros.

A área de influência desta CER irá abranger os lugares de Vale da Feiteira, imediações do Parque da Ribeira da Venda, Vale Grou, Monte da Cabeça Cimeira e Lameiras.

Para começar, arrancaria com 600 m2 (10 aderentes) o que se traduziria na instalação de 300 painéis, para começar, uma vez que, em média, serão precisos 60 m2 por cada aderente.

Tendo em conta as 5h de sol (meses de inverno) por 300 dias, com 350 watts, haveria lugar a uma produção anual de 150 megawatts com um excesso de produção é de 87%. Tal iria gerar 23 mil euros por ano de energia produzida e injetada na rede, situações que pagam assim o investimento da empresa.

Esta iniciativa pretende ter uma base de solidariedade e pôr em prática o conceito de vizinhança, “eu não consigo sozinho, mas consigo se me aliar ao meu vizinho”, desenvolvendo-se um “processo transparente”.

“Aquilo que nos move é tentarmos enquadrar com o nosso conhecimento e com a nossa disponibilidade, de uma forma associativa e solidária, soluções quer sejam na área do património natural, imaterial, mas também em tudo aquilo que tenha a ver com cultura e sustentabilidade”, explicou Ricardo Branco ao nosso jornal.

Segundo Ricardo Branco as centrais solares da Margalha e Polvorão são “um absurdo”, desde logo pela “duplicação de estruturas”, mas não duvida que vão para a frente aqueles investimentos uma vez que “o Estado vai passar a pagar 13 500,00 euros por MW aos municípios que tenham projetos renováveis nos seus territórios”.

Porém, reconhece na CER uma fonte de mais-valias para a freguesia, desde logo porque “fornece energia a baixo custo aos seus aderentes”.

O Clube Castelanense funcionará como “âncora” da CER, e os interessados devem ser associados da coletividade, uma contrapartida que serve de garantia da tomada de compromisso ao ingressar nesta comunidade de energia. O Clube tem apenas 20 sócios atualmente.

Este princípio do associativismo quer vincular os aderentes de alguma forma, lembrando que “não podemos ter só benefício sem ter comprometimento”.

Vista aérea sobre Comenda. Foto: A Terceira Dimensão

Dois anos depois de terem sido enviadas propostas, presumiram os comendenses que “não terão grande acolhimento”, mas “as necessidades energéticas da Europa e a transição energética que se impõe face às contingências da guerra e da economia, obrigaram-nos a acelerar esse processo e a chegar à conclusão de que aquela ideia que tinha ficado em avaliação sine die fazia sentido poder ser tirada da gaveta e ser proposta à comunidade de uma forma independente”.

Entre os alertas deixados e que constam do relatório de consulta pública, sustentados pelo estudo de impacto ambiental, surgem, entre outros, o “impacte visual e cénico na paisagem, impacte ao nível da avifauna e impacte ao nível da flora. A colocação de 296.352 painéis em ca. 62 ha, num quase contínuo, tem um alto impacte na paisagem, como o estudo conclui”.

Também a preocupação com o “revestimento florestal de sobreiros, traduzindo-se pela destruição de mais de 840 espécies arbóreas adultas protegidas” é mencionada.

Na consulta pública a comunidade exigiu contrapartidas, enquanto medidas de mitigação alternativas e ainda medidas compensatórias pela instalação desta central solar fotovoltaica, que pudessem beneficiar a população e apoiar o desenvolvimento local e a transição energética na comunidade, nomeadamente a criação de um programa de incentivo coordenado pela Junta de Freguesia mas em parceria com o grupo investidor francês nas centrais solares fotovoltaicas, “que permita aos privados e demais organizações públicas ou associativas candidatarem-se à aquisição de kits de painéis fotovoltaicos monocristalinos de alta eficiência (iguais aos utilizados na Central)” que serviriam para incentivo ao autoconsumo, em busca de maior sustentabilidade e autosuficiência energética.

Não vendo para já luz ao fundo do túnel, uma vez que o processo se arrasta desde 2020, optou Ricardo Branco por mostrar à comunidade comendense uma solução já em marcha no país e que beneficiasse a sua comunidade enquanto consumidora e produtora de energia limpa e renovável, passando a entrar “na equação” uma empresa privada.

Fazendo uma estimativa, e se o processo arrancar com adesão de 100%, deverá estar concluído em 2026 com uma capacidade mínima instalada de 0.6 MWp, equivalente a uma produção de 1100 MWh/ano ou seja, 165 000 euros de energia limpa produzida por ano por uma pequena comunidade, atualmente com menos de 300 agregados familiares residentes.

Foto: mediotejo.net

Este que poderá ser um projeto a 20 anos, exige apenas um compromisso, que passa por tornar-se sócio da coletividade local, o Clube Castelanense, que aqui serve de “âncora”, enquanto também produtor/consumidor da comunidade de energia renovável.

A empresa Cleanwatts Portugal, com sede em Coimbra e que tem José Basílio Simões como vice-presidente e co-fundador (professor e investigador na Universidade de Coimbra na área da Física) surge como janela de oportunidade para o efeito, cumprindo com o slogan “Energia Limpa: Descentralizada, digital e democrática”, permitindo a aldeias do interior do país, IPSS, associações e coletividades, autarquias locais e outras similares, formarem comunidades de energia renovável a custo zero.

A Cleanwatts “disponibiliza-se para organizar, gerir, financiar e construir estas soluções, projetando-as à medida dos modelos mais adequados a cada comunidade”.

Fonte: Cleanwatts

“Dos locais de produção apenas necessitamos de aceitação formal de participação no projeto, bem como a disponibilização de espaços onde a Cleanwatts possa instalar os painéis solares necessários para abastecer o próprio cliente âncora e os participantes da comunidade”, refere a empresa.

Durante a apresentação também foi informado que “o facto de a energia se produzida localmente permitirá aos locais de produção, às famílias e empresas participantes na comunidade de energia consumir menos 20 a 30% de energia proveniente da rede elétrica”.

João Pinto, consultor da Cleanwatts, e que é natural de Alpalhão e tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre, esteve na sessão para esclarecer os presentes sobre o conceito implementado pela empresa e que já atua de norte a sul do país.

ÁUDIO | João Pinto, consultor da Cleanwatts Portugal
Da esq. para a dir.: João Pinto (Cleanwatts), Júlia Pedro e Ricardo Branco (Arquivo Digital da Comenda e Clube Castelanense). Foto: mediotejo.net

A Cleanwatts Portugal implementou a sua primeira Comunidade de Energia Renovável (CER) em Miranda do Douro a 24 de agosto de 2021, numa ação integrada na iniciativa 100 Aldeias, um programa com objetivo de reduzir a pobreza energética através da criação de CERs em pelo menos 100 pequenas aldeias do país.

100 aldeias é uma iniciativa de Inovação e Empreendedorismo Social, que pretende “combater a pobreza energética, através do acesso a eletricidade limpa, de origem solar, mais barata e produzida localmente, sem necessidade de investimento dos participantes”.

Durante a sessão João Pinto referiu que se pretende impulsionar a criação e agregação de comunidades de energia de autoconsumo, com a instalação de parques solares no mínimo de 500 m2. A instalação pode ser feita em telhados ou, eventualmente, em terreno.

Fonte: Cleanwatts

No distrito de Portalegre outros projetos já estão em marcha, com contratos assinados, nomeadamente para um parque solar no edifício sede da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre, Bombeiros de Portalegre e no Lar dos Fortios e Jardim-de-Infância.

A ótica é simples: se existirem 12 proprietários interessados em ingressar, significa que serão utilizados 12 telhados para instalar os painéis fotovoltaicos, numa iniciativa que durará 20 anos com a energia a ser comercializada pela empresa nessa janela temporal, passando depois a gestão para os proprietários.

Uma das vantagens prende-se com o facto de a energia não autoconsumida ser vendida num raio de 2 km, ou seja, em comunidade de energia o proprietário enquanto produtor poderá vender energia ao seu vizinho enquanto consumidor.

Apesar de a criação das CERs ser feita de forma cautelosa, após a sua implementação, poderão ir sendo acrescentados produtores na comunidade. A gestão integrada da CER é feita pela Cleanwatts mas o controlo é feito pela E-Redes.

Para quem ingressa na CER são disponibilizados formulários para produtores e consumidores, sendo que existem diversos estatutos, desde produtores, consumidores, produtores/consumidores (prossumidores) e potenciais consumidores.

Foto: Pixabay

Numa sala com mais de uma dezena de participantes, ao final de sexta-feira, dia 28 de outubro, na sala de ensaios do Orfeão Estrela da Planície de Comenda, não só os residentes marcaram presença. Também o presidente de junta de freguesia de Montalvão (Nisa) esteve presente também para assistir à apresentação e avaliar a possibilidade de instalação de uma CER na sua freguesia, num conceito emergente e mais simplificado.

A estratégia de implementação para Comenda passa por uma fase 1 com licenciamento da CER com base num produtor âncora, que será então o Clube Castelanense, com uma Comunidade de Energia projetada com potencial de instalação de 154 kWp.

A fase 2 será de expansão, com crescente angariação de consumidores, sendo que a central solar da CER será expandida consoante a entrada de consumidores residenciais, industriais e institucionais da comunidade local.

Fonte: Cleanwatts

A Cleanwatts já criou mais de 100 comunidades de energia renovável (CER), estando empenhados em atingir mais de 200 até final do ano.

“As nossas Comunidades de Energia têm atualmente mais de 1500 membros e uma capacidade total superior a 17.5 MWp. Através das nossas CERs, reduzimos mais de 6500 tCO₂ em emissões e abatemos uma média de 30% nos custos com energia”, refere a empresa.

Foto: mediotejo.net

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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1 Comment

  1. Não tinha conhecimento deste projeto. Estou contente por ver que alguém se mexe em relação a nossa terra e as nossas gentes.estou inteiramente disponível para ajudar e colaborar.

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