Cabrito à moda do restaurante Mário Alturas Foto: mediotejo.net

Terminou no início da semana passada o 28º Festival Gastronómico do Cabrito, promovido pelo Município de Torres Novas em colaboração com 29 restaurantes deste concelho.

O êxito desta iniciativa gastronómica prova a estreita ligação entre a cultura, o turismo, a agricultura, a pecuária, a defesa do ambiente e o desenvolvimento da economia local. E demonstra que todas estas atividades se influenciam e potenciam reciprocamente.

A origem deste Festival Gastronómico do Cabrito é curiosa e recente, tendo inspiração numa breve passagem do livro, publicado em 1981, “Viagem a Portugal” do então ainda por muitos desconhecido José Saramago, futuro Prémio Nobel da Literatura em 1998 (o “Memorial do Convento” só viria a ser publicado em 1982 e o “Ano da Morte de Ricardo Reis” em 1984).

Na “Viagem a Portugal” José Saramago narra as suas vivências, entre finais de 1979 e julho de 1980, quando percorreu o país a convite do Círculo de Leitores, que comemorava na época o décimo aniversário da sua implantação em Portugal.

Neste livro Saramago deixa a seguinte referência: “O Viajante… pode aqui declarar que em Torres Novas conheceu, e disso se aproveitou, o mais maravilhoso cabrito assado de toda a sua vida. Como se chega a tal obra-prima de culinária não sabe o viajante, que nisso não é entendido. Porém, confia no seu paladar, que tem discernimentos de sábio infalível, se os há.”

O futuro Prémio Nobel da Literatura elogiou e publicitou o cabrito assado de Torres Novas. José Saramago podia ter apreciado e louvado as couves com feijões, a sopa de fressura, as enguias fritas ou grelhadas, as petingas fritas, ou algum prato de bacalhau. Mas foi o cabrito assado de Torres Novas que o deixou, nas suas palavras, maravilhado.

A ideia da promoção do Festival Gastronómico do Cabrito é, deste modo, uma homenagem de Torres Novas aos seus pratos de cabrito, enquanto património gastronómico e cultural, às suas gentes que os criaram, mas também representa uma justa homenagem ao Prémio Nobel da Literatura: José Saramago.

O turismo é nos dias de hoje uma atividade da maior importância para o desenvolvimento da economia local e regional, e o turismo gastronómico tem um papel fundamental no contexto mais amplo da atividade turística. Também a agricultura e a pecuária constituem fatores fundamentais para o fortalecimento e crescimento do turismo e das economias das regiões do nosso interior. Sem agricultura e sem pecuária não há cabras, nem cabritos. Como diz o povo “quem cabritos vende (ou neste caso, quem cabritos come) e cabras não tem, de algum lado lhe vem”.

Neste caso, importando a carne do caprino de outras paragens. A tragédia dos incêndios ocorrida no nosso país no ano passado veio revelar que uma das suas principais causas é a desertificação humana do interior e o abandono da agricultura e da pecuária nestes territórios. É necessário desenvolver e apoiar a agricultura e a pecuária nas regiões rurais do interior, por razões económicas, turísticas, culturais e demográficas.

A agricultura e a pecuária são uma alavanca e um instrumento fundamental para o desenvolvimento económico e turístico dos territórios rurais e do interior. São também imprescindíveis para a conservação da natureza e para a defesa do ambiente, da paisagem rural e da biodiversidade, que, por sua vez, são outro riquíssimo fator de desenvolvimento económico e turístico.

Como escreveu José Saramago na abertura do “Ensaio sobre a Cegueira”, citando uma passagem do Livro dos Conselhos: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Presidente da Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Assembleia Municipal de Torres Novas. Mestre em Gestão e Conservação da Natureza e Doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa. Foi assessor jurídico do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e da Reserva Natural do Paul do Boquilobo durante cerca de quinze anos. Advogado há mais de 25 anos, participa ativamente em vários
órgãos e institutos da Ordem dos Advogados Portugueses.

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