És Sportinguista, não és?
Sabes tão bem quanto eu que sou. Isso é algum tipo de provocação?
Não… Na verdade, só queria saber como te sentes…
Com frio!!
Não é nada disso. Estou a falar de futebol.
Sinto-me na mesma.
Mas o teu clube anda a passar uns maus bocados.
Ouvi, li e vi qualquer coisa…
És mesmo Sportinguista?
Já te disse que sou e sabes bem que sim, como sabes que pouco me importa o futebol. Ou melhor, pouco me interessam os resultados dos jogos e dos campeonatos. Sabendo tu que gosto de pessoas, não podia dizer que faço questão de ignorar o futebol. Não o poderia fazer. Se é qualquer coisa que movimenta tanta gente, não pode ser ignorado por alguém que gosta de compreender os comportamentos humanos. Nunca me dediquei verdadeiramente a este assunto porque é difícil abordá-lo sem se cair naquelas questões que menos me interessam, ora dos fanáticos que ficam cegos ora dos críticos que só veem desgraças no mundo do futebol. Mas reconheço que o futebol tem potencial para ser tema de conversa interessante, para além das discussões sobre os jogadores, os treinadores, os presidentes dos clubes, os árbitros, as claques, as transferências, os salários, os resultados.
Mas se não falas sobre esses aspetos, falas sobre o quê?
Sobre o que leva as pessoas a ver futebol ou sobre o que tem o futebol que consegue tornar iguais pessoas tão diferentes. Pensa lá bem nas pessoas que conheces que vão à bola ou simplesmente que têm os canais desportivos em casa para ver os jogos da sua equipa… Tenta traçar-lhes o perfil… Encontras todo o tipo de pessoas! Isso é que interessa analisar.
Sim, encontras pessoas de todas as idades, com todo o tipo de passado, com diferentes formações, de meios profissionais muito diferentes mas… Mas a grande maioria desses adeptos são homens.
Parece-me que as mulheres cada vez mais gostam de futebol ou, pelo menos, apresentam-se mais como seguidoras do assunto. Até há uns anos tinha a sensação de que a maioria das mulheres, se tinha algum interesse pelo futebol, era quase exclusivamente relacionado com a seleção nacional.
Ou então por paixonetas utópicas por futebolistas!
Claro, e também pelo gosto de seguirem a vida deles nas revistas cor de rosa. Vês como o mundo do futebol e a forma como envolve as pessoas tem muito mais que se lhe diga do que simplesmente os protagonistas e o seu desempenho desportivo ou diretivo?
Quem não gosta das novidades sobre o Ronaldo? É quase como uma telenovela… O enredo é ótimo, as personagens são peculiares.
No fundo, seja no futebol ou nas telenovelas, o que move as pessoas é sempre uma tentativa de momentaneamente fugirem da realidade entrando num estado de alienação, onde tudo de bom e de mau que acontece mexe connosco mas, na verdade, não nos afeta.
São excelentes exemplos de cultura popular. Presumindo que todos precisamos, nalgum momento, de alienação, o que fazem as outras pessoas que não gostam de futebol nem de telenovelas?
Um simples passeio a pé pode fazer o mesmo efeito.
Discordo. Porque nos episódios do futebol e das telenovelas, a mente das pessoas é conduzida. Num passeio a pé, a mente solta-se e pode embater naquilo que precisamente queremos esquecer, nesse tal processo de alienação.
És capaz de ter razão. Mas uma exposição de pintura ou de fotografia pode levar-nos para outros mundos, fazendo-nos esquecer os problemas da vida, grandes ou pequenos.
Pois pode, mas isso implica um certo esforço mental e até afetivo, que nem todas as pessoas estão dispostas a despender precisamente porque querem ocupar o cérebro com coisas sem jeito. Outras nem sequer têm forma de o fazer porque não cresceram com esses hábitos.
A verdade é que não precisas de ser crítico de arte para gostar de ir a uma exposição. E qualquer idade é boa para se criar hábitos de idas a museus, galerias, espetáculos…
Sim, mas não desfrutas da mesma maneira que desfrutam as pessoas que foram habituadas a frequentar esses espaços.
Sabes, um destes dias senti-me culturalmente excluída quando divulgaram um estudo dizendo qualquer coisa como: uma pessoa que, na infância não tenha ido pelo menos cinco vezes à ópera não apreciará este tipo de espetáculos na sua vida adulta.
Esse é um daqueles estudos que valem o que valem. O que interessa é a vontade de querer descobrir novas coisas. Mesmo que seja o significado de sacos de serapilheira numa das maiores salas de exposições do mundo.
Verdade… Só que perceber esse significado pode ser tão ou mais difícil do que perceber por que razão o futebol mexe com milhões e milhões de pessoas…

